Cultura

1 de dezembro de 2017 - 14h28

As migalhas da cidade

Zansky
<i>* ilustração feita pelo ilustrador, artista gráfico e serígrafo Zansky, para a Folha de S. Paulo em 2010</i> * ilustração feita pelo ilustrador, artista gráfico e serígrafo Zansky, para a Folha de S. Paulo em 2010

Há carioca, baiano, belo-horizontino, teresinense e até goianiense da gema, mas não há paulistano da gema. Isso porque o nativo da cidade de São Paulo é apenas um entre as milhares e diversas identidades que compõem a metrópole.

Amálgama de sonhos e frustrações locais e de todas as partes do Brasil e do mundo, São Paulo não solda essas miríades de identidades sem antes triturá-las em suas relações sociais truculentas, em suas ruas de trânsito caótico, em sua atmosfera carregada de poluição e ruídos perturbadores. Noutras palavras, quem nasce em São Paulo ou vem para São Paulo nasce e vem para ser moído – e só depois colado, em fragmentos, se possível.

Adalberto Monteiro, poeta que no caco solto antevê o mosaico de identidades truncadas, recolhe neste Pé de ferro & outros poemas os fragmentos mal soldados que, ao se despregaremda colcha de retalhos algo rota da metrópole e do mundo, caíram-lhe às mãos como migalhas crocantes de pão fresco.

O pombo que, integrado à cidade, anda e, só depois de chutado, se lembra que é ave e volta a voar, é uma dessas migalhas. Dois meninos, na falta de bola, chutando garrafa pet, enxotados da porta de um bar na rua Aurora – são mais duas migalhas. Do comerciante que dá seu bom dia com sua amabilidade de caixa registradora – caem mais algumas migalhas, estas, sórdidas. O sorvete a escorrer da boca da moça no verão derretente; o amor que se reconheceu multiplicado no perdão; a bala de hortelã trocada no beijo são outras tantas, estas, santas.

Porém há as migalhas do mundo: as que se desprendem do pão das Minas Gerais e do Araguaia, da Venezuela e de Cuba. A todas Adalberto apara com suas mãos de poeta e oferece ao leitor com a verdade e a potência dos versos escritos em guardanapos. Aliás, como registrou Milton Nascimento, a propósito dos poetas de sua cidade – esses catadores de migalhas, que não querem medalhas, nem tambores nem trombetas.


* escritor paulistano, autor de Zonas Norte, Sul, Leste e Oeste, da série Era uma vez no meu bairro (romances), Sanduíche de vidro e Dois poetas paulistanos (poemas).

Do Portal Vermelho 

  • VOLTAR
  • IMPRIMIR
  • ENCAMINHAR

Últimas Mais