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21 de novembro de 2017 - 15h09

Merkel fracassa nas negociações para formar um governo na Alemanha


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Pouco antes da meia-noite de domingo (19) para segunda-feira (20) chegou a temida notícia na Alemanha. As negociações entre os quatros partidos chamados a formar uma coalizão de governo em Berlim se romperam. O chefe dos liberais informou que se retiravam e que a chamada coalizão Jamaica, de conservadores, liberais e verdes não ocorrerá por enquanto. Agora se abre uma etapa de instabilidade política na maior economia europeia, que pode ser impelida a repetir as eleições realizadas em setembro.

Angela Merkel deu uma declaração para dar por encerradas as negociações. “Estávamos perto de conseguir um acordo. [...] Mas os fatos são que não fomos capazes de concluir as conversas com sucesso.” A chanceler informou que na segunda-feira (20) entrará em contato com o presidente Frank-Walter Steinmeier, dando a entender que se abre uma nova etapa política na Alemanha. “Hoje é um dia de profunda reflexão sobre como seguir em frente”, disse Merkel. “Farei todo o possível para assegurar a boa gestão do país nas semanas difíceis que teremos pela frente.”

Christian Lindner, líder dos liberais, anunciou que se retiram das negociações pelo que considerou uma falta de confiança entre os interlocutores. “Após semanas, há um papel com incontáveis contradições, perguntas abertas e objetivos contraditórios”, disse Lindner. “É melhor não governar do que governar mal”, afirmou.

A oposição da ala mais dura dos conservadores e dos liberais às teses de maior abertura dos Verdes em matéria de imigração foi uma das fontes de conflito desde o início das negociações. Concretamente, a reunificação familiar dos refugiados que já estão na Alemanha foi um foco importante de desacordo.

Merkel coloca em jogo seu quarto mandato nas negociações que já duravam mais de quatro semanas e que deveriam acabar na formação de um novo governo no começo do ano. A chanceler alemã ganhou as eleições de setembro, mas não conseguiu a maioria suficiente para governar sozinha. Se as negociações da coalizão fracassarem definitivamente, o bloco conservador de Merkel (CDU/CSU) será obrigado a governar em minoria com os Verdes ou com os Liberais, o que seria uma raridade na Alemanha, ou serão convocadas novas eleições.

Os partidos temem que se as eleições forem novamente realizadas, a extrema direita consiga rentabilizar o desacordo das formações tradicionais e consiga ampliar seu já significativo apoio. Com 13% dos votos e 94 cadeiras, a Alternativa pela Alemanha (Afd) conseguiu entrar pela primeira vez no Parlamento, algo que um partido de extrema direita não conseguia na Alemanha desde a 2ª Guerra Mundial.

Em teoria e com a calculadora em mãos, a maioria também pode ser conseguida forjando uma aliança com a social-democracia (SPD), o segundo maior partido da Alemanha. Mas o SPD já adiantou após as eleições que não irá formar uma nova grande coalizão como a do Executivo anterior, da qual saiu escaldado e que considera ter sido a culpada por seu fracasso eleitoral. A possibilidade de que Merkel consiga convencer o SPD a participar de uma grande coalizão é outras das possibilidades que se abrem após a retirada dos liberais.

A luta contra a mudança climática e a reunificação familiar foram dos dois grandes pontos de divergência entre os partidos. Mas também o chamado imposto da solidariedade com os Estados do leste da Alemanha que os liberais prometeram abolir em campanha. A de domingo (19) era a última oportunidade autoimposta pelos partidos chamados a formar uma coalizão inédita na história do país. Conservadores, Liberais e Verdes, três partidos com cosmovisões distantes e em alguns pontos antagônicas, haviam se dado um prazo até domingo para acertar um programa de condições mínimas para continuar negociando. Sem esse pacto, não há coalizão possível. E à meia-noite, o pacto se rompeu.

As negociações de domingo (19) começaram às 11h (8h de Brasília), dessa vez na sede do Estado de Baden-Württemberg em Berlim. As 18h (15h de Brasília) eram a penúltima hora limite fixada pelos negociadores para concluir se seriam capazes de entrar nas negociações formais de coalizão. O prazo vinha sendo postergado desde quinta-feira à meia-noite. Também não foi cumprido dessa vez.

Reunificação familiar

Diante do forte aumento de chegadas de refugiados – 1,3 milhão desde 2015 – e a ascensão da extrema direita – Alternativa pela Alemanha (Afd) – a grande coalizão de conservadores e socialdemocratas acertou congelar a reunificação familiar de refugiados com proteção subsidiária – com mais restrições que o pleno asilo – até março de 2018. Nessa data será preciso decidir se a moratória se mantém ou não. Enquanto a ala mais dura do bloco conservador de Merkel e os liberais se negam a levantá-la porque pretendem minimizar o número de chegadas, os Verdes consideram que é um direito inalienável dos refugiados que é também fundamental em relação à sua integração.

O avanço da ultradireita xenófoba preocupa especialmente a CSU, a ala bávara do bloco conservador de Merkel, que em 2018 coloca em jogo sua maioria nas eleições regionais da Baviera, onde governa há meio século e que vê como o discurso anti-imigração obtém cada vez mais votos.

A preocupação ficou evidente pouco antes do começo das negociações de coalizão, quando a CSU e a CDU de Merkel fixaram como objetivo político permitir a entrada de um máximo de 200.000 refugiados por ano. Estimativas do IAB, o instituto ligado à Agência de emprego alemã calcula que 50.000 pessoas podem chegar à Alemanha no ano que vem graças à reunificação familiar.

“Não aceitaremos que as pessoas que receberam uma proteção menor sejam excluídas da reunificação familiar. É desumano. As pessoas não se integram quando suas famílias estão em perigo”, alertou o negociador dos Verdes Jürgen Trittin em uma entrevista publicada no domingo pelo Bild am Sonntag. “A União [CDU] e o FDP [liberais] às vezes esperam que nós façamos o contrário do que prometemos em nossa campanha eleitoral. Isso não é realista”, afirmou Trittin.

A briga dá indícios de como quão ambiciosa deve ser a luta contra a mudança climática girou em torno de quanto deve ser reduzida a capacidade das centrais de energia alimentadas por carvão. 40% da eletricidade alemã vem do carvão, uma fonte de energia altamente poluidora, que também impede até hoje que Berlim cumpra com o plano de redução de emissões fixado. Os liberais se opuseram a fixar objetivos vinculantes concretos como pediam os ecologistas.



Fonte: El País 

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