América Latina

13 de novembro de 2017 - 16h40

Na Argentina, o fascismo veste terno italiano

Reuters
Para suprimir direitos, a ditadura civil-militar iniciada com Videla precisou eliminar 30 mil opositores. Agora, para aprovar suas reformas ultraneoliberais,Macri parece querer amedrontar todos os seus críticos Para suprimir direitos, a ditadura civil-militar iniciada com Videla precisou eliminar 30 mil opositores. Agora, para aprovar suas reformas ultraneoliberais,Macri parece querer amedrontar todos os seus críticos

Com presos políticos, entre eles Milagro Salas, deputada do Parlasul e dirigente do movimento Tupac Amaru, e Jones Huala, líder da luta Mapuche contra Luciano Benetton na Patagônia, e diversos políticos oposicionistas presos, em todos os casos sem qualquer condenação, a Argentina experimenta sob o governo de Maurício Macri uma versão light do fascismo que vigorou entre 1976 e 1983.

Em vez de fardas e botas, ternos italianos e sapatos de couro bem lustrados. No lugar dos tribunais de exceção com julgamentos farsescos e execuções sumárias com desaparecimentos das vítimas, a execração pública nos grandes meios a partir de prisões preventivas que obedecem à lógica do espetáculo e ignoram os princípios elementares do direito.

As vítimas mais recentes do que Cristina Kirchner chama de “Partido Judicial” foram o deputado nacional Julio De Vido e o seu ex-vice-presidente Amado Boudou.

O primeiro teve a prisão decretada cinco dias antes das eleições legislativas de outubro. Embora a ordem tivesse que passar pela Câmara, que deveria aprovar a perda de foro do parlamentar, o objetivo de influenciar o voto foi explícito.

“O encarceramento de De Vido resulta como a única alternativa viável para garantir o êxito dessa investigação”, registra a ordem assinada por três juízes. Os magistrados ignoraram o fato de que o réu, que fora ministro do Planejamento durante os governos kirchneristas, tem comparecido a todas as audiências e jamais foi acusado de dificultar as investigações.

No dia em que a Câmara aprovou o seu desaforo, De Vido saiu do seu gabinete direto para o tribunal do qual saiu a ordem de sua detenção. Isso frustrou parte do show midiático, pois mais de trinta policiais, com armamento pesado, coletes à prova de bala e até passa-montanha foram enviados à residência do legislador e entraram no imóvel como se buscassem um perigoso terrorista.

Com Boudou, o macrismo não vacilou. A polícia o prendeu em seu apartamento e os agentes chegaram a posar para fotos com o réu, acusado de enriquecimento ilícito e, ressalte-se, sem nenhuma condenação até o momento, algemado como se fosse um perigoso narcotraficante surpreendido em seu bunker secreto. Qualquer semelhança com o que se passa no Brasil não é mera coincidência e o célebre jurista Eugenio Zaffaroni, ex-integrante da Suprema Corte argentina, fale em “Operação Condor judicial”.

No encerramento da campanha para a recente eleição, da qual seu grupo saiu vitorioso, Macri parecia dar um recado ao referir-se aos líderes kirchneristas e sindicalistas como “cúmplices da corrupção do governo anterior” e “sócios do narcotráfico” que “vão terminar como os narcos, todos presos”.

O líder da aliança Cambiemos deve contar com a memória curta da população. À frente do Boca Juniors, clube que presidiu entre 1995 e 2007, não teve pudor de ir ao presídio La Picota, em Bogotá, para encontrar Miguel Rodríguez Orejuela, à época o chefão do Cartel de Cáli. O objetivo do encontro, ocorrido em 1997: negociar a compra de um jogador do América, então um dos clubes mais fortes do continente.

Também foi alvo do presidente a procuradora-geral da República, Alejandra Gils Carbó, que não resistiu quase dois anos de ataque e anunciou sua renúncia na última segunda-feira 30. Macri usou o Congresso para tentar derrubar a funcionária pública e chegou a lamentar publicamente que Gils Carbó “insista em permanecer no cargo”, como se o mandato para a chefia do Ministério Público fosse um mero detalhe.

O “fascismo moderado” não se restringe ao campo judicial. No primeiro mês de governo, Macri assinou uma série de decretos para acabar com a eficácia da Lei de Meios e permitir a expansão do monopólio do Clarín. Para colocar não apenas um, mas dois nomes de sua confiança na Suprema Corte e para acabar com mecanismos de proteção à moeda e à indústria nacionais, como a restrição da compra de dólares.

Ademais, e apesar do silêncio quase unânime da mídia sobre os episódios, dezenas de cidadãos foram presos durante manifestações contra o governo. Apenas em uma das marchas que exigiu a aparição com vida do jovem Santiago Maldonado, houve 23 detenções.

Ao menos três foram detidos – e exibidos como troféus pela ministra de Segurança, Patrícia Bullrich – por supostas ameaças nas redes sociais ao presidente ou a integrantes da cúpula macrista. O cúmulo foi a truculenta prisão de duas mulheres, legalmente casadas, por terem se beijado numa estação de metrô. O casal passou três dias encarcerado sem acreditar que a Argentina vive uma democracia. Tal como ocorreu com a morte de Maldonado, a polícia argentina tem carta branca para desencorajar atos que afrontem a moral e os bons costumes tão apreciados pelas viúvas do regime de exceção interrompido com a eleição de Raul Alfonsín.

No enfrentamento com jornalistas, vazou uma acusação de Macri a Horacio Verbitsky – colunista do Página 12, presidente da Fundação Gabriel Garcia Márquez de Novo Jornalismo e do Centro de Estudos Sociais e Legais (CELS) – como a pior “lacra” do país, termo pesado equivalente a “rato” no jargão político brasileiro. Além disso, o presidente teria dito que algumas pessoas na Argentina deveriam ser enviadas à lua, o que foi tomado como ameaça pelo jornalista e militante de direitos humanos.

Profissionais de grande audiência críticos ou não alinhados à gestão macrista foram demitidos de seus veículos por pressão explícita do governo. Os casos mais emblemáticos são os de Victor Hugo Morales e de Roberto Navarro, que despontam há décadas em emissoras de rádio e tevê e passaram pelo “ajuste” midiático promovido pela turma de Macri, com uso político da verba publicitária. O Página 12, aliás, sofreu um corte de 70% da verba que lhe cabia.

Para suprimir direitos, a ditadura civil-militar iniciada com Videla precisou eliminar 30 mil opositores. Agora, para aprovar suas reformas ultraneoliberais, como a trabalhista, baseada naquela que Temer impôs no Brasil, Macri parece querer amedrontar todos os seus críticos.
“Se a prisão preventiva ilegal é a regra estamos todos em liberdade condicional”, resumiu, certeiro, o cineasta argentino Gustavo Carbonell.


Rogério Tomaz Jr. é jornalista

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