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13 de novembro de 2017 - 11h58

“Com esse julgamento querem que os jovens fiquem calados”

Felipe Betim
Ato de apoio aos 18 jovens que estão no banco dos réus. Ato de apoio aos 18 jovens que estão no banco dos réus.

Do lado de fora do fórum da Barra Funda, em São Paulo, o clima era de apreensão e ansiedade, mas também de expectativa de justiça. Dentro ocorria, nesta sexta-feira, a segunda audiência do julgamento dos 18 jovens detidos no dia 4 de setembro do ano passado antes de uma manifestação contra o Governo Michel Temer na capital paulista. O Ministério Público de São Paulo, que os acusa de terem formado uma organização criminosa e de corrupção de menores, diz que o grupo fora formado para praticar danos ao “patrimônio público e privado e lesões corporais em policiais militares”. E que por isso portavam vinagre, máscaras, roupas pretas e capuzes, além de material de primeiros socorros. Uma acusação absurda para os familiares, amigos e movimentos sociais que faziam um pequeno ato de apoio. "O Estado não tem noção do que está fazendo com o psicológico desses meninos. Marcou a vida deles para sempre. E da família deles também", explica Rosana Cunha, mãe de Gabriel, um dos réus.

O caso está envolto em polêmica desde o princípio. Na época, um juiz chegou a declarar a detenção dos jovens ilegal, por seu caráter "para averiguação". Depois, foi revelado por este jornal que um militar infiltrado fazia parte do grupo que acabaria na prisão. Willian Pina Botelho, que se apresentava como Balta Nunes e era um infiltrado do Exército entre os manifestantes, estava no momento da abordagem policial, mas não deve ser ouvido durante todo o julgamento — apesar de ser uma peça-chave. Após a operação, Botelho foi promovido de capitão a major no Exército.

O julgamento ocorre sob sigilo. Na audiência deste sexta, que durou até 20h, foram ouvidas as duas últimas testemunhas de acusação e, em seguida, as de defesa. Entre elas estavam o vereador e ex-senador Eduardo Suplicy e o deputado federal Paulo Teixeira, ambos do PT. Enquanto isso, do lado de fora, os parentes dos réus davam apoio mútuo e contavam como suas vidas se transformaram no último ano. "Tá sendo muito difícil. O clima é de muita tensão lá em casa", explica Rosana, 57 anos. "Agora melhorou, mas no início a polícia passava, tocava sirene na porta de casa... Um dia fui no supermercado e a Rota foi me seguindo", conta. Ela conta ainda que seu filho não pode sair na rua porque costuma ser abordado pela polícia. "Eles estão marcados. E isso tudo faz com que amigos e familiares se afastem. As pessoas prejulgam sem saber o que é", explica.

Rosana diz que o clima geral "é de muita depressão". Psicólogos de uma faculdade vem prestando apoio, realizando sessões de terapia em grupo entre os réus e seus parentes "para que todos saibam que as dores são as mesmas", segundo Rosana. Seu filho Gabriel também faz tratamento psicológico e psiquiátrico por fora. Precisa tomar remédios. Ela lembra ainda que, entre os jovens detidos, alguns foram expulsos de casa ou perderam seu trabalho. Seu filho mesmo foi expulso de uma ETEC, escola técnica estadual. "A perseguição é muito pesada. Esse clima de terror é muito grande. Os meninos estão detidos dentro da casa deles, estão sempre observados. Eu que sempre levo e vou buscar da aula", acrescenta Rosana. Ainda assim, se diz otimista. "Não existe crime, não existe prova. Eles não fizeram nada de errado. Estão sendo julgados por um ato que foi presumido que eles iriam fazer".

O filho de Luiza — ela prefere não revelar seu sobrenome — também sofreu danos psicológicos após ter sido detido. Não pode escutar uma sirene ou barulho de helicóptero. "Ficou com síndrome do pânico e está tendo que fazer terapia", diz ela, que vive sozinha com o filho. Seu ex-marido mora fora do país. Apesar de ser um pai presente, é Luiza quem vive o cotidiano de tensão. Seu filho Felipe, 20 anos, é "um menino super tranquilo". É fotógrafo e, no dia do ato, havia combinado fazer uma reportagem com uma amiga do cursinho, que era socorrista. Depois da detenção, suas três máquinas fotográficas foram apreendidas e desde então não vem podendo trabalhar. Além disso, estava prestando vestibular na época da detenção. Quer fazer audiovisual e ficou por pouco de passar na USP no ano passado. "Estava se esforçando muito e aí aconteceu isso. Ele está estudando, está focado de novo no cursinho. Mas agora o julgamento ocorre próximo do vestibular. É muita pressão para um menino. Ele é muito tranquilo, muito caseiro. Mas mesmo assim ele tá bem abalado", explica Luiza.

Ela trabalha como secretária e diz temer que seus colegas de trabalho saibam o que aconteceu e que acabe demitida. Evangélica, diz que tira ajuda de sua igreja e se mostra confiante de que "Deus vai fazer justiça". "Mas por outro lado ficamos apreensivos. A gente fica cansado. É um cansaço muito grande. A gente não sabe até quanto isso vai durar", completa.

Miguel Perrela, 61 anos, está confiante. Ele, que é pai de Enrico, 25 anos, acredita que seu filho será inocentando. "O ideal é que a justiça fosse tomada hoje mesmo e que eles já saíssem de lá inocentes. Era o mínimo, tamanho é o descalabro de tudo isso. Às vezes achamos que a qualquer momento a justiça e a verdade vão vir à tona", explica este engenheiro civil da prefeitura de São Paulo. Ele argumenta que os 18 jovens foram vítimas de uma emboscada armada pelo próprio Estado. "Ele age de forma invertida do seu papel, que é garantir a justiça, cidadania e direitos", diz.

Miguel conta ter um passado de militância. Assim como seu filho, também participava de protestos. Era época de ditadura. "Mas parece que agora tudo está retornando. Com esse julgamento eles querem que os jovens fiquem calados, que aceitem e eles façam o que quiser. E a sociedade parece que está de costas", diz. Rosana, mãe de Gabriel, não vê a hora de que esse pesadelo para sua família acabe. "Depois disso tudo, quero voltar a ter a nossa vida."

A próxima audiência está marcada para 12 de dezembro. Está previsto que mais testemunhas de defesa e os réus sejam escutados.



Por Felipe Betim no El País

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