11 de novembro de 2017 - 13h14

A revolução estética de outubro

Tainan Rocha
Ilustração de Tainan Rocha para o Especial Revolução Russa do <b>Vermelho</b> Ilustração de Tainan Rocha para o Especial Revolução Russa do Vermelho

Além dos avanços sociais conquistados através da revolução que colocou abaixo uma sociedade extremamente atrasada para os padrões do começo do século 20 na Europa, havia também a preocupação em comunicar estas conquistas à população. Os artistas revolucionários não pouparam esforços e transformaram a comunicação e as artes de tal forma que em pouquíssimo tempo se tornaram referência na sociedade ocidental.

Entre os muitos movimentos artísticos que nasceram nos escombros deixados pela Primeira Guerra e pela revolução, o construtivismo se destacou no período imediatamente pós-revolucionários, nos primeiros anos do governo ocupado pelos bolcheviques.

Os construtivistas russos, profundamente inspirados pelo cubo-futurismo, trouxeram tendências pictóricas de vanguarda. Comprometidos com a revolução, o objetivo era simplificar a arte para se comunicar com os trabalhadores. Linhas simples, cores primárias, conteúdo e forma intrinsecamente ligados são características deste movimento.
Através de um documento publicado por Maiakovski imediatamente após a revolução, em 1918, é possível notar que os artistas viam esta nova sociedade como uma tela em branco, pronta para receber um conteúdo voltado ao povo, não mais à burguesia. Na Carta Aberta aos Operários, o poeta diz: "o duplo incêndio da guerra e da revolução esvaziou nossas almas e nossas cidades. Os palácios do luxo de ontem estão aí qual esqueletos calcinados. O turbilhão revolucionário arrancou dos espíritos as raízes nodosas da escravidão. A alma do povo aguarda uma semeadura grandiosa".

O centro destas ideias revolucionárias era a revista Lef, fundada por Maiakovski e os artistas que o cercavam, entre eles Vladimir Tátlin e Alexander Rodchenko. Para os construtivistas, a revolução do conteúdo era inconcebível sem a revolução da forma. Assim, eles trabalharam para transformar a poesia, o teatro, o cinema, a publicidade e a fotografia. A explosão estética completamente nova balançou os alicerces da cultura da época e influencia artistas em todo o mundo até hoje. "Fomos nós que inauguramos a primeira página da novíssima história das artes", disse Maiakovski na mesma carta aberta.

Inspirados pela revolução industrial e pelo crescimento das grandes cidades, os construtivistas buscaram tornar a arte utilitária, como foi a ciência e o trabalho, disse Angelo Maria Ripellino em artigo publicado em 1959.

De acordo com Haroldo de Campos, no artigo Maikovski e o Construtivismo, "os construtivistas, reunidos em torno de Tátlin, procuraram engajar sua revolução formal, dando-lhe um sentido positivo e colocando-a a serviço da revolução social".

Este cartaz é resultado do trabalho de Lilla Brik (poeta fotografada), Alexander Rodchenko (fotógrafo) e Maiakovski (desing)
 
Desde antes da ascensão dos bolcheviques ao poder, Maikovski já alertava sobre a importância da publicidade na comunicação revolucionária. Para ele, a estética, a clareza e a forma simples eram fundamentais para chamar a atenção dos trabalhadores da cidade e do campo. Os revolucionários deveriam se apropriar da publicidade, deixando de lado a ideia de que esta é uma forma burguesa de se comunicar, para ampliar a difusão das ideias revolucionárias.

Estes artistas atuaram diretamente na revolução, e integraram o setor de comunicação do Partido Comunista. Defenderam a ampliação de investimento de recursos em materiais como jornais, revistas e cartazes para disseminar as ações do partido e da revolução.

Estes ensinamentos servem ainda à esquerda que tem hoje o desafio de ampliar sua forma de se comunicar com as bases e se fazer entender entre os trabalhadores, no momento que a direita ocupa estes espaços com um discurso reacionário.

O legado estético da revolução de outubro de 17 permanece atual cem anos depois. A comunicação da esquerda deve ir além da internet. Não basta se apegar a esta plataforma. O conteúdo e a forma devem ser claros, simples e objetivos, para ultrapassar a fronteira da intelectualidade e chegar onde o povo está.



Do Portal Vermelho

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