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11 de novembro de 2017 - 9h00

Quem ainda vota em Trump 

Placa na entrada da cidade de Lebanon, no Kansas  Placa na entrada da cidade de Lebanon, no Kansas 

Nos Estados Unidos, o esquecimento tem um nome. Chama-se Lebanon, é habitado por 203 moradores e fica exatamente no centro geográfico do país. Um lugar perdido na imensa planície do Kansas, onde as coisas há muito tempo deixaram de acontecer. Menos uma. De segunda a sábado, por volta do meio-dia, Gladys Kennedy atravessa a rua principal e vai à loja dos Ladow comer seu purê com ervilhas. Sentada no interior da mercearia, junto a uma mesa na qual nunca falta café para o forasteiro, a viúva rememora o que outrora foi uma próspera vila do Meio-Oeste. Os tempos em que o dinheiro jorrava e o povoado tinha hospital, hotel, colégio e até bailes dominicais. É a lembrança de um sonho que declina há décadas, e que Gladys, branca e republicana, acha que só um homem providencial pode salvar: o presidente Donald J. Trump.

- Por quê?

-Porque é o único que quer mudar o que está aí.

Gladys ri com seus olhos azuis. Há um ano votou no magnata, e agora voltaria a fazê-lo. “Não duvide”, desafia . Neta do fundador de Lebanon e testemunha da Grande Depressão, seus vizinhos a reverenciam. Quando seu carro quebra, a levam até a loja, e aos domingos sempre há quem lhe traga comida em casa. Num povoado onde tudo se mede, Gladys, de 100 anos e 32 bisnetos, serve como padrão universal. Sua geleia de framboesa é celebrada; suas brincadeiras são recebidas com risos, e suas mudanças de humor são escrutinadas. Por isso, causou comoção o dia em que deixou de beber Pepsi-Cola.

Durante décadas, tomou uma lata por dia. Mas há um mês trocou essa marca pela Coca-Cola. O motivo? Apoiar o seu presidente. Foi um ato mínimo, mas revelador. A Pepsi é a patrocinadora da NFL, a grande liga de futebol americano, contra a qual Trump se voltou. Muitos de seus jogadores negros, na hora do hino nacional, em vez de escutá-lo de pé se ajoelham em protesto contra os abusos raciais. Para Trump, o gesto é um ultraje à pátria. Para a anciã, também. “Isso não é direito”, clama.


Gladys Kennedy, de 100 anos e 32 netos, em Lebanos (Kansas). Foto: El País/ Xavier Dussaq

Essa é Gladys. Assim é Lebanon. Um bastião conservador. Não se trata de algo surpreendente no Kansas. Há meio século, os candidatos presidenciais republicanos sempre vencem neste Estado –incluindo Trump, que há um ano teve 56,2% dos votos, contra 35,7% de Hillary Clinton. Uma diferença expressiva, mas até pequena em relação à registrada em Lebanon. Lá, na maior surra eleitoral da história da pequena cidade, Trump teve 82% das cédulas, e sua rival, apenas 15%.

Foi uma vitória esmagadora e que, estudada no microscópio, explica uma das chaves de Trump. Na época, as análises enlouqueceram com as viradas conseguidas em Wisconsin, Pensilvânia e Michigan, três pequenos Estados que por apenas 77.759 votos mudaram de lado e o fizeram presidente. A tese era que o republicano, apesar de ter tido 2,8 milhões de votos a menos que Clinton em nível nacional, tinha vencido graças a um golpe cirúrgico no decrépito cinturão industrial. Era uma meia verdade. Esse apoio foi necessário, mas não suficiente.

Por trás do triunfo havia outro fator. De maior volume, e cuja profundidade muitos esquecem. O outsider nova-iorquino conquistara a fidelidade de uma gigantesca base conservadora. Um feito que lhe permitiu arrasar em lugares como Lebanon, onde Deus, Pátria e Família são pilares existenciais. Não era pouco para um showman televisivo e gritalhão, duas vezes divorciado e bem conhecido por sua falta de fervor religioso e sua presença nos bacanais da lendária discoteca Studio 54. Para conseguir essa mudança, a crisálida escolheu um vice-presidente de religiosidade absoluta, e então empreendeu uma mutação complexa, na qual deu rédea solta ao nacionalismo e mostrou poucos escrúpulos com suas crenças do passado, entre elas o aborto. A metamorfose trouxe consigo um Trump tão adorado pelos radicais como odiado pelos democratas. A divisão lhe rendeu o triunfo.

“Trump abandonou a tradição presidencial de reconciliar os norte-americanos. Como na campanha, vive sob o lema ‘dividir para conquistar’. Sua única meta agora é manter a sua base contente”, afirma o professor Larry Sabato, diretor do Centro para a Política da Universidade da Virgínia. “Sua retórica popular-nacionalista cativou um núcleo eleitoral forte, 40% que votam nele sem duvidar”, aponta Andrew Lakoff, professor da Universidade do Sul da Califórnia.


Arredores de Lebanon (Kansas). Foto: El País/ Xavier Dussaq

A fórmula funcionou. Até o momento, erraram aqueles que anteviam uma rápida deterioração. Nem a trama russa, nem seu fracasso com o Obamacare, nem seus delírios tuiteiros o desgastaram. As pesquisas mostram que após nove meses de mandato ele mantém intacta sua base entre os eleitores registrados. Que em grandes cidades, como Nova York, Los Angeles e Miami, as maiorias continuam assustadas, e os ânimos crispados, mas que à distância, nesta América profunda que se estende por planícies e vales intermináveis, o medo das urbes chega amortecido, rodando pela ladeira da indiferença.

– Trump é mais americano que ninguém, como este povoado.

Cecil tem 74 anos, e seu celeiro de teto vermelho é a inveja de Lebanon. Hoje terminou cedo a sua tarefa e caminha de volta pela rua principal. O dia é cinzento e vazio. Casas de madeira, portas fechadas, olmeiros e bordos pelados. Cecil olha para o céu e vaticina neve. Gosta da sua vila. Diz que é como viver 50 anos atrás.Para esse sitiante e soldador, há poucas dúvidas sobre por que tornaria a votar em Trump. “É a nossa salvação. Ele coloca a América em primeiro lugar. Já chega disso de globalização e de eliminar fronteiras. Para alguma coisa os países existem. E eu amo o meu!”, exclama.

Cecil é um homem armado. Também é muito educado e ajuda o forasteiro a encontrar o que precisa. Andando pelas ruas, vai contando, já mais tranquilo, o que ocorre na sua querida Lebanon. “Aqui vivemos do milho e do trigo. Com a mecanização, basta um só homem e um ajudante para tocar tudo. O resultado é que não há trabalho, e se não há trabalho não há sonhos, e sem eles os jovens vão embora e isto aqui fica vazio”.

Cecil se despede na altura da livraria. Então começa a nevar. “Viu como eu tinha razão?”, ri, antes de desaparecer por uma rua lateral. Ao redor, um ar ausente toma conta de tudo. De dentro da livraria, a neve pode ser vista através de vitrines retangulares. Lá fora caem flocos grossos como dedos, enquanto dentro a calefação permite circular em mangas de camisa. O local dispõe de 9.268 livros, 360 vídeos e 54 áudios. É comandado por duas mulheres na faixa dos 30 anos, Sherelle e Kareena. São casadas e têm filhos pequenos. Admitem que lhes falta clientela, e que, numa cidadezinha com idade média de 51 anos, o que mais se lê são romances de mistério e alguns de faroeste. Quando perguntadas se isso as aborrece, riem e respondem que nunca lhes faltam coisas para fazer. “Este é um bom lugar para ser cristão”, dizem.

Para elas, devotas de um deus que se derrama por toda parte, Trump é uma garantia. “Tomara que dure muito. Ama este país e protegerá meus valores, não vai permitir o aborto”, explica Sherelle.

– E não acham excessivos o tuítes dele e seus insultos?

– De jeito nenhum. Eu gosto porque mostram que é um homem que diz o que pensa, que não tem medo de ser criticado por dizer a verdade.

Trump emplacou. Tanto faz se o acusam de mentiroso e demagogo. Pouco importa a disputa nuclear ou o muro com o México. Além do ódio que suscita entre os progressistas, o presidente estabeleceu uma conexão elétrica com seus eleitores. E a explora diariamente. Seu Twitter (41,7 milhões de seguidores) e seu histrionismo televisivo não se dirigem às elites universitárias nem aos refinados urbanitas da Costa Leste. Ele tem consciência de que perdeu em todas as cidades com mais de 100.000 habitantes e que sua fortaleza são os pequenos povoados, esta América rural, branca e pobre onde quase dobrou a votação da sua adversária.

Nesse espaço, Coreia do Norte, Irã, China e até o México são vistas como batalhas que o presidente precisa travar para lograr seu objetivo de enfrentar as forças do mal e devolver aos Estados Unidos o que lhes pertence: o esplendor de um sonho. A patente do sucesso. Um futuro.

É justamente isso o que Lebanon deseja. Localizado no umbigo da América, no lugar que os geógrafos consideram o centro exato do território continental, o povoado fica longe de tudo. O horizonte se perde entre os milharais, e a cada dia que passa o presente se dissolve mais. Perante este crepúsculo, muitos preferem fugir. Outros, como o prefeito e carpinteiro Rick Chapin, de 62 anos, decidiram ficar.

O homem usa boné cinza e não está barbeado. Votou como independente e é dos poucos que desconfiam de Trump. “Não sei para onde vai, gera muita divisão”, diz. Seu sonho é trazer uma indústria que faça o povoado renascer e dê um empurrão à sua renda per capita, que é apenas um quarto da média nacional. “Com pouco, aqui se pode fazer muito”, reflete.

O prefeito está sentado na loja dos Ladow. O ponto de encontro da cidade. Há oito clientes. Trocam cumprimentos e comem silenciosamente, servidos por Dana, de 36 anos, filha dos donos. Nasceu em Lebanon. E é uma das poucas do município que viajou para fora do país.Esteve seis meses em Reinosa (México) e dois anos na Zâmbia. Dava aulas em uma missão evangelista. Da África, voltou grávida de uma criança que agora corre em volta do estabelecimento com um rato de borracha nas mãos. Sua avó, nos fundos do local, olha para ela com ternura, enquanto descasca as batatas do purê de Gladys Kennedy e ouve no rádio um pregador que alerta sobre os males do mundo. O pai da pequena também veio da Zâmbia.Chama-se Boycken, trabalha como eletricista e é o único negro do povoado. "Aqui, todos são republicanos e, claro, falam apenas coisas boas sobre ele", explica, evitando entrar na conversa.


Dana e sua filha, em Lebanon (Kansas). Foto: El País/ Xavier Dussaq

Ele e Dana têm uma preocupação. Embora tenha emprego, filho e esposa americanos, seu visto de residência é temporário e o casal quer um permanente.

-Bom, Trump dificultará. Não gosta da imigração.

-O presidente tenta cumprir o que prometeu e faz o que tem que fazer. As regras têm que ser respeitadas.

Dana não admite muito mais discussão. Espera outro filho e está convencida de que Deus a abençoou. Sua família viverá em Lebanon e serão felizes. No lado de fora, o vento continua soprando frio.



* jornalista 

Fonte: El País 

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