Cultura

1 de novembro de 2017 - 9h36

Martinho da Vila recebe título de doutor honoris causa da UFRJ


Reprodução
   
Com fala alternada por músicas e poesia, Martinho da Vila emocionou a platéia em várias partes de seu discurso. Segundo o artista, a solenidade foi “um ato político contra as discriminações raciais”.

“Eu recebi muitas flores em vida e um buquê de medalhas, comendas, títulos. Mas a flor mais bela e importante é a que recebo hoje, pois o diploma de doutor honoris causa me estimula a prosseguir na missão de transmitir alegria, tocar os corações com a minha música, passar boas mensagens com minha fala em aulas, palestras, e escrever livros para os amantes da literatura, assim como para quem não tem o hábito de ler”, disse.

Com diversos livros publicados, além das canções, Martinho reconheceu que tem sido uma referência para pessoas de origem humilde como ele. “Entretanto, ninguém precisa me chamar de doutor. Serei sempre o Negro Martinho, o cidadão Zé Ferreira, o artista Martinho da Vila, partideiro devagar”, afirmou, provocando riso no auditório.

Para o reitor da UFRJ, Roberto Leher, foi “um belo dia para a UFRJ”. Ele comemorou o fato de a universidade ganhar para o quadro de honoris causa um intelectual negro, inspiração para a juventude de classes mais expropriadas, que têm ingressado às universidades públicas no país.

“É um ato acadêmico importante sob o ponto de vista teórico. Quando a universidade reconhece a qualidade do trabalho de Martinho da Vila, está fazendo uma crítica a uma perspectiva arcaica e fossilizada de que a alta cultura corresponde a uma visão de mundo eurocêntrica. A cultura popular é alta cultura”, disse Leher.

Influência na Academia


Carmem Tindó, professora da Faculdade de Letras, relatou que a obra de Martinho da Vila tem sido objeto de diversos trabalhos acadêmicos no mestrado e doutorado. Segundo ela, a atuação do artista “na luta contra o racismo, a opressão, a fome e a pobreza” foram fatores considerados para a concessão do título.

Ao falar sobre a biografia, ela citou a atuação do cantor como embaixador da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), sua participação no movimento Diretas Já, e a atuação junto a Dom Evaristo Arns em defesa de Nelson Mandela contra o apartheid.

África e preconceito

Leher mencionou a onda de intolerância religiosa contra religiões de matriz africana no país e classificou como políticos os atos de violência registrados ultimamente. Martinho disse que deverá honrar a universidade, que “prima pelo respeito por religiosos de diferentes crenças e, com ações afirmativas visa a contribuir para a diminuição das desigualdades”. Ele lamentou não ter uma língua materna brasileira para fazer o seu discurso, como países africanos que preservaram seus idiomas, apesar das colonizações.


Fonte: Brasil 247

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