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25 de outubro de 2017 - 18h00

Refugiados sírios iniciam o caminho de volta para casa

BULENT KILIC AFP
Refugiados cruzam a fronteira da Síria com a Turquia em agosto de 2017 Refugiados cruzam a fronteira da Síria com a Turquia em agosto de 2017

“Foi como se tivesse nascido de novo. Parei de me sentir um estranho, estou em casa outra vez.” O carpinteiro Rafat Rayub visitou sua cidade natal, Radua, no noroeste da Síria pela primeira vez desde que fugiu de seu país por causa da guerra. Agora vive como refugiado no distrito Kocaeli, na Turquia, perto de Istambul. Em setembro passado, devido à festividade muçulmana do Eid al-Adha, a Festa do Sacrifício, e com uma autorização oficial das autoridades, passou com sua família cinco semanas em sua aldeia, na província de Idlib. “Consegui voltar a respirar... Foram dias de encontros, comida, alegria... Às vezes nos sentíamos como antes da guerra”, explica.

A Turquia abriu os acessos de fronteira com a Síria na maior celebração da comunidade muçulmana para autorizar a volta temporária para casa de milhares de refugiados sírios instalados em seu território. O Departamento de Imigração lançou uma plataforma digital para administrar as solicitações depois de estabelecer um número limite de saídas. Em apenas 15 dias, 53.798 pessoas atravessaram a Síria pelo acesso de Oncupinar (na província de Kilis), segundo dados divulgados pela agência turca DHA.

“Em um mês e meio não ouvi nenhum caça nem bombardeios”, afirma Rafat sobre sua estadia. O cessar-fogo parcial acordado nas negociações do Cazaquistão por Turquia, Rússia e Irã permitiram a milhares de sírios desfrutar de uma relativa tranquilidade nas cidades durante a realização do Sacrifício. O aumento da segurança em seu país de origem foi uma oportunidade para que alguns decidissem ficar definitivamente. De fato, ao final do prazo estabelecido para o período de férias, mais de 6.000 refugiados (11%) não voltaram à Turquia.

O país euroasiático é, com três milhões de refugiados sírios, o principal destino de quem fugiu da guerra iniciada em 2011. O restante se divide sobretudo entre Líbano (um milhão), Jordânia (600.000), Iraque (240.000) e os que viajaram para a Europa.

As poucas oportunidades de trabalho dos sírios na Turquia, que expede vistos de trabalho limitados, o alto custo de vida e a distância dos familiares são alguns dos motivos por trás da decisão de alguns refugiados de começar a reverter o êxodo causado pela guerra. “Minha vida aqui é miserável”, afirma o carpinteiro Rafat, que mantém a esposa e suas quatro filhas com um salário de 367 euros (cerca de 1.300 reais) por mês, em um emprego ilegal de 11 horas por dia. Ele acredita que o estilo de vida em Radua, apesar da pouca estabilidade própria da conjuntura bélica, será mais conveniente. “Os preços lá são mais baixos, temos uma propriedade e contaríamos com o apoio familiar.”

Mas os trâmites para deixar a Turquia são irreversíveis e quem desfaz o caminho se vê diante de um fechamento permanente das fronteiras. Antes de passar para a Síria, as autoridades turcas exigem a devolução das credenciais nos postos de controle: como o cartão de residência (que dá acesso ao serviço de saúde e à educação), ou os documentos de proteção social para quem mora nas cidades-barracas.

Os refugiados de volta

Os esforços de várias potências para colocar fim à guerra da Síria animaram milhares de refugiados a abandonar a vida no exílio. Na primeira metade de 2017, mais de 31.000 sírios voltaram dos países vizinhos, segundo a ACNUR (Agência das Nações Unidas para os Refugiados). Em sua maioria —65%— voltaram da Turquia, de onde saíram 20.314. Nas negociações do Cazaquistão também se traçou um plano de volta em quatro das zonas de distensão para que os civis possam voltar voluntariamente a Idlib, Homs, norte de Damasco e regiões de Deraa e Quneitra.

Um dos principais destinos dos fluxos de volta para a Síria é na área de segurança amparada por Turquia, entre Yarábulus, al Bab e Azaz, onde as agências turcas investiram na reconstrução de infraestrutura, moradias, centros educacionais e serviços de saúde. Em agosto, 70.000 sírios —os que deixaram seus lares mas não o país e outros que cruzaram a fronteira— também já voltaram a essas cidades liberadas pelo Estado Islâmico (EI). Mas também Idlib, o último reduto da oposição síria e as facções salafistas, e outros povoados da província de Alepo, Homs e Hama são os destinos de quem retorna.

“Ninguém quer ser refugiado a vida inteira”, afirma Mahmud Aswad, membro da Associação Médica de Expatriados Sírios (SEMA), que gerencia a assistência à saúde na região opositora do norte. “Há também quem volte em direção às zonas controladas pelo regime — como a cidade de Alepo — porque estão cansados de viver em outro país. Preferem assumir o governo de [Bachar] al Assad, de quem fugiram durante a guerra, em troca de recuperar a estabilidade”, conclui Aswad.

O fim da gestão de oposição?

As zonas de distensão, acordadas em setembro, se estabeleceram com os principais apoiadores de Bashar al-Assad, incluídos Irã e Rússia. A oposição política síria teme precisamente que a Turquia ceda diante das condições de ambos os países para colocar fim à última área gerida por milicianos opositores, em Idlib. Ali o Exército turco posicionou seus soltados nos postos de observação no início de outubro para garantir o cessar-fogo. “Esta era a única maneira de deter o avanço das tropas russas e iranianas em Idlib”, afirma Nasser al Hariri, líder do Alto Comitê de Negociações, que perdeu influência nas conversas e não participou das de Astaná, a capital cazaque.

A sociedade civil advertiu que, apesar da nova via de regresso, os países devem respeitar a vontade dos refugiados que buscaram amparo em seu território. “Os países de acolhida têm a obrigação de não devolver forçosamente os refugiados à Síria, onde suas vidas ou liberdades podem estar em perigo”, afirmou em um comunicado a Anistia Internacional. Porque depois de mais de seis anos de guerra, as novidades do processo de paz se apresentam como uma oportunidade para acabar com um conflito que deu origem a uma crise internacional, com altos custos para os países fronteiriços.


Fonte: El País 

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