Cultura

13 de outubro de 2017 - 9h00

Quando censuram a arte, censuram também a reflexão

Divulgação
O artista Wagner Schwartz na performance ‘La Bête’, no Museu de Arte Moderna de São Paulo O artista Wagner Schwartz na performance ‘La Bête’, no Museu de Arte Moderna de São Paulo

Instaurou-se uma onda de censura a diversas manifestações artísticas por todo o país. É curioso como aqueles que brigam pelo fechamento das exposições se sentem confortáveis em exercer tal exercício; talvez esse seja um reflexo do momento vivido no Brasil, em que o conservadorismo ganha força e espalha suas sementes por todo o território.

Uma vez que os retrocessos ocorrem amplamente na economia e na sociedade, há um reflexo na cultura, e vice-versa, uma vez que a cultura é a expressão de um povo em determinado contexto.

A primeira foi a exposição Queermuseu, fechada pelo banco Santander após manifestantes do conservador Movimento Brasil Livre (MBL) acusarem as obras de fazerem apologia a pedofilia, zoofilia e desrespeitarem a imagem de Jesus. A mostra era de arte LGBT, representando crianças gays, por exemplo. Após o prefeito do Rio Marcelo Crivella divulgar em vídeo que “o Rio não quer uma exposição de pedofilia e zoofilia”, o curador da mostra, Gaudêncio Fidélis, disse em entrevista para o jornal espanhol El País que “a exposição nunca foi polêmica. Essa narrativa criada em torno de apenas quatro obras entre 263 que fazem parte da mostra é muito específica e com objetivos obscuros bem direcionados” e completou explicando: “a imagem que foi divulgada é um pequeno detalhe de uma obra completa. Essa obra é uma pintura sobre a dizimação que se abateu sobre o processo de colonização do Brasil. Retrata várias cenas que se passam nesse processo. Por mais que eles tentem, não adianta dizer que essa obra é sobre zoofilia porque ela não é. Se alguém olhar as cenas dessa pintura vai observar uma cena de sexo que tem lá de dois homens brancos tendo relações sexuais com um homem negro, e ninguém vai poder dizer que isso não aconteceu. Esses grupos vêm subverter o significado dessa pintura”, referindo-se a obra de Adriana Varejão, uma das acusadas de apologia.

Kim Kataguiri assegurou a legitimidade do fechamento da exposição, já que o Santander teria ouvido seus clientes, que teriam o direito de escolher que exposição deve ficar aberta ou não. Afirmação perigosa, já que dá a uma parte privilegiada da população decidir, sem qualificação nenhuma, o que é ou não arte e o que deve ou não ficar exposto, ignorando, por exemplo, que diversas peças da mostra davam visibilidade a arte LGBT, comunidade muito silenciada em todos os segmentos sociais.

Apesar do escândalo promovido pelo MBL, o Ministério Público fez uma vistoria nas peças da exposição, concluiu que não havia qualquer indício de apologia à pedofilia nas obras e recomendou a reabertura da mostra.

Após a Queermuseu foi a vez do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), em que uma menina, acompanhada de sua mãe, tocou o tornozelo de um artista que fazia uma performance nu; a obra era uma releitura da conceituada artista brasileira Ligya Clark. A cena foi gravada, gerando revolta nas redes sociais, que acusaram o museu de “incitar a pedofilia”.

Sob a luz do debate, é bom relembrar que nudez não é pedofilia. Expressões de nudez existem no meio artístico há milênios, desde o renascimento até a modernidade. Como são de exemplo as estatuas de Michelangelo, até o nu artístico presente na fotografia nos dias atuais. Quanto as performances, Marina Abrovick já fazia apresentações sem roupas, sempre com o intuito de provocar alguma reflexão.

“Essa do MAM era mais uma performance, que por acaso teve interação de uma criança com a permissão da mãe, que não viu maldade naquilo. Em nenhum momento o artista tocou na criança com o intento de abusá-la, ele permaneceu imóvel durante todo o vídeo. Seu órgão genital, apesar de amostra, estava completamente desestimulado”. Declarou o publicitário Spartakus Santiago em vídeo gravado sobre o assunto. Temos que, portanto, nudez e erotização são coisas diferentes. Se uma pessoa está nua, não necessariamente há intenção sexual. “Imaginem a mesma cena só que dessa vez o artista estaria de calção. A menina toca o pé e a canela dele. Provavelmente a cena não teria causado tanto alarde, muito pelo contrário”, continua ele.

O prefeito de São Paulo, João Dória (PSDB) também gravou um vídeo em que compactua com a ideia de que a exposição Queermuseu e a performance no MAM, que chamou de “cena libidinosa e que estimula uma relação artificial”, afrontam o direito à liberdade e a “responsabilidade”. Doria, aliás, que segundo Fábio Malini, professor da Universidade Federal do Espírito Santo e coordenador do Laboratório de estudos sobre Internet e Cultura (LABIC) em declaração para o El País, é defendido pelo MBL, que "atua como escudo do Doria. Quando ele é criticado ou atacado, o movimento com frequência revida”.

Em sua defesa, o MAM compartilhou uma nota em que esclarece que “a sala estava devidamente sinalizada sobre o teor da apresentação, incluindo a nudez artística, seguindo o procedimento regularmente adotado pela instituição de informar os visitantes quanto a temas sensíveis” e que “as referências à inadequação da situação são resultado de desinformação, deturpação do contexto e do significado da obra”.

A importância da arte para a reflexão e formação de cidadãos

A ausência de roupas a arte através dos séculos sempre buscou quebrar padrões, desconstruir e gerar debate. Segundo a filosofa e escritora Marcia Tiburi, “a arte melhora a sensibilidade e a inteligência das pessoas, melhorando assim o seu agir no mundo”.

Citando o livro “O martelo das bruxas”, em que inquisidores de séculos passados narram cenas de sexo entre bruxas e demônios, ela alerta como o delírio de uns causou a morte de outros (no caso, de diversas mulheres condenadas à morte por bruxaria). Agora o perigo encontra-se no momento em que “a imaginação dos debutados, pessoas que vem desenvolvendo ignorância profunda sobre a questão das artes mas que parecem ter desenvolvido uma espécie de delírio, vendo coisas que não estão presentes na realidade, mas nas suas mentes”.

Ela reitera que o real motivo que levou ao fechamento da Queermuseu foi político, já que o objetivo do MBL nesse momento é publicidade. “Quando você não entende nada de política, de economia, de sociedade ou de arte é melhor jogar com a mistificação”, que, ela explica, é a criação de uma verdade que em seu todo é falsa, mas que move as emoções das pessoas em um nível impressionante; e relembra: “o apelo ao moralismo em geral é usado por instituições e pessoas sem ética alguma”.

Tudo isso desvia a atenção das grandes questões brasileiras. Atrás da moralidade, esconde-se uma profunda ignorância sobre o que representantes políticos deveriam fazer em um país cheio de questões sociais urgentes.

Recentemente foi feita uma performance na CasaShopping, na Barra da Tijuca, no Rio, em que atores caracterizados como moradores de rua representavam os sete pecados capitais: luxuria (interpretada pela única mulher participante), preguiça, gula, inveja, avareza, vaidade e a ira. O pecado da preguiça, por exemplo, trazia um ator caracterizado como morador de rua com um cartão do Bolsa Famíila. No momento em que várias peças de arte são censuradas e debatidas, muitas vezes se deixa de lado a seriedade dos problemas sociais e de representação para condenar a nudez ou uma pintura em que temos uma “criança viada” que, aliás, existem e merecem representação e espaço.


Obra do acervo da Queermuseu 

Marcia Tiburi ainda classifica os manifestantes de grupos conservadores como o MBL de “contraditórios, pois dizem defender a democracia mas censuram, restringindo a liberdade. São cínicos que orquestram em torno da ignorância dos menos favorecidos intelectualmente”. E faz um apelo: “não vamos falar de ciência como se nossa opinião de leigos valesse alguma coisa apenas porque pode ser falada ou escrita. A televisão vem vendendo opiniões baratas junto com movimentos que brincam com a nossa ingenuidade”.

Como ela bem explica, arte é uma filosofia concreta que serve para desmistificar o mundo. “Cada obra é uma pergunta, e não uma resposta. Os reacionários não gostam de arte pois não gostam de questionamento. A arte emancipa cada pessoa do julgo, do moralismo e do preconceito, ajudando as pessoas a alcançarem a liberdade”.


* estagiária no Portal Vermelho 

Do Portal Vermelho 

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