Cultura

8 de outubro de 2017 - 17h38

A literatura movediça de Kazuo Ishiguro


   
Na tarde em que ganhou o Nobel, Kazuo Ishiguro disse aos jornalistas reunidos em sua casa, em Londres, o mesmo que tantos outros laureados antes dele: que não esperava o prêmio. Apresentou, no entanto, uma evidência irretorquível: se tivesse alguma esperança, teria ao menos lavado o cabelo pela manhã. Para seus leitores, é mais fácil imaginá-lo impecavelmente asseado e vestido, de sapatos e tudo, mesmo se o surpreendermos em seu quarto logo após o amanhecer de um dia qualquer. A prosa concisa e controlada, a narrativa que leva o leitor na rédea curta e uma linguagem que nunca se pretende casual fazem pensar em um sujeito disciplinado como seus personagens.

Aos 62 anos, Ishiguro é um dos autores contemporâneos mais prestigiados do Reino Unido. Obteve reconhecimento tão logo iniciou sua carreira literária, em 1981. Seus dois primeiros romances, Uma Pálida Visão dos Montes (1982) e Um Artista do Mundo Flutuante (1986), receberam bastante atenção da crítica e alguns prêmios de certa importância. Mas foi com o terceiro — Os Vestígios do Dia (1989) — que Ishiguro se consagrou precocemente. Aos 34 anos, tornou-se um escritor aclamado pela crítica (venceu o Man Booker Prize, um dos mais prestigiosos da língua inglesa) e amado pelo público (o romance vendeu mais de um milhão de cópias na Inglaterra). O livro foi adaptado para o rádio, teatro e cinema — o filme homônimo, estrelado por Anthony Hopkins, foi indicado a oito Oscars em 1993, incluindo o de melhor roteiro adaptado. Seguiram-se outros prêmios, mais cinco livros, traduções para quarenta línguas, roteiros de cinema e até canções de jazz.

Nascido em Nagasaki, no Japão, nove anos após a queda da bomba atômica que devastou a cidade, Ishiguro é filho do oceanógrafo Shizuo Ishiguro e da dona de casa Shizuko Michida, ambos japoneses, e tem duas irmãs: uma mais velha, Fumiko, nascida no Japão, e outra mais nova, Yoko, nascida na Inglaterra. A família se mudou para o Reino Unido em 1960, graças a um convite para que o pai trabalhasse no Instituto Nacional de Oceanografia em Guildford, no condado de Surrey. Lá, Ishiguro frequentou escolas particulares e teve uma infância que descreve como típica da classe média do sul da Inglaterra, ainda que em casa se falasse japonês e que durante os primeiros anos da escola não avistasse qualquer outro rosto que não fosse britânico. Segundo Ishiguro, o caráter provisório da mudança só foi revisto pela família em 1969, quando seu pai recusou um convite para lecionar na Universidade de Tokyo. Antes disso, o escritor afirma que eles não se enxergavam como imigrantes nem como ingleses, mas como japoneses sempre prestes a partir. Familiares mandavam livros didáticos para que as crianças não tivessem problemas no retorno. Apesar disso, Ishiguro afirma que domina muito mal o idioma, tendo “o japonês de uma criança de cinco anos”.

A questão de sua nacionalidade permeia boa parte da recepção inicial da obra de Ishiguro. A informação de que ele nasceu no Japão figura em quase todas as resenhas de estreia, uma insistência parcialmente justificada pelo fato de seus dois primeiros livros terem narradores japoneses e serem largamente ambientados naquele país. O próprio autor atribui parte de sua repercussão inicial ao fato de ter “uma cara japonesa e um nome japonês” em um momento em que havia interesse por uma literatura de cunho multicultural e em que a crítica britânica buscava ativamente por “um novo Salman Rushdie” — ou seja, por um novo escritor britânico de origem estrangeira que escrevesse sobre sua terra natal, fornecendo material para a crítica multiculturalista então em voga. De sua parte, Ishiguro sempre buscou minimizar a influência japonesa em sua literatura e situa sua obra como a de um “escritor internacional”. Como romancista, diz ele, o que lhe interessa são temas universais. No Brasil, as fichas catalográficas de todos os seus livros publicados até hoje trazem gafes como classificá-lo como um “escritor japonês”, ou ao próprio livro como um “romance japonês” ou — talvez a melhor de todas —, como “literatura japonesa em inglês”.

A partir de seu terceiro romance, Ishiguro abandonou as locações japonesas e fincou seus personagens em solo britânico. A essa altura, já tinha sido convertido em uma espécie de comentarista oficial de assuntos japoneses na mídia britânica. A crítica se dedicava a encontrar ecos da literatura e da cultura oriental em seus livros. Mesmo diante de Os Vestígios do Dia, um livro ambientado na Inglaterra e protagonizado por um mordomo mais inglês do que os ingleses, parte dos comentaristas insistiu no caráter japonês de seus escritos, chegando a comparar Stevens a uma espécie de criado japonês deixado sem patrão.

Os romances de Ishiguro, contudo, pouco ou nada ressoam da tradição narrativa nipônica. Mesmo Uma Pálida Visão dos Montes e Um Artista do Mundo Flutuante são obras eminentemente ocidentais: ancoradas em enredo e em personagens meticulosamente construídos, vivos. O próprio autor situa suas principais influências nos grandes escritores britânicos e russos do século XIX, como Dostoiévski, Tchekhov, Charlotte Brontë e Charles Dickens. A crítica aponta ainda a influência de Henry James, por sua capacidade de apresentar personagens que alteram a própria autoimagem de modo gradual, hesitante, mas com consequências duradouras e problemáticas; E. M. Forster, por sua vívida caracterização dos personagens e repressão narrativa; e Franz Kafka, por suas representações do fantástico.

O controle que Ishiguro impõe à narrativa deixa o leitor em um terreno movediço em que quase nada pode ser afirmado com segurança — nas palavras do resenhista americano Mark Kamine, “poucos autores se atrevem a entregar tão pouco do que querem dizer”. Sua prosa elíptica, esparsa e o domínio pleno do narrador não confiável exploram os enganos e desenganos da memória, as ficções internas que se constroem com o passar dos anos, as dúvidas sobre as escolhas passadas e presentes.

Seus três primeiros livros compõem uma espécie de trilogia sobre o rescaldo da Segunda Guerra Mundial. Todos eles trazem narradores em primeira pessoa que, em uma idade avançada, resolvem fazer um relato enviesado. Escondem mais do que iluminam suas vidas, todas elas moldadas por eventos das guerras e, mais particularmente, por uma sensação de ter estado do lado errado desses eventos. Nas palavras do crítico indiano Amit Chaudhuri, são livros sobre “a vergonha de estar do lado errado da história”. Formalmente, todos eles são romances realistas com uma prosa límpida e ancorada em fatos históricos. Todos se apoiam na constante reiteração e retificação dos episódios relatados como forma de apresentar ao leitor pequenas contradições e deslizes do narrador em relação aos fatos narrados; todos partem de uma tentativa vacilante de compreender e racionalizar algum aspecto do passado.

No mais importante deles, Os Vestígios do Dia, Ishiguro apresenta os dilemas de um mordomo inglês às voltas com os “pequenos erros” que vem cometendo no trabalho. Criado exemplar e orgulhoso, o narrador Stevens se depara com mudanças em seu cotidiano que incluem uma grande redução do número de funcionários da casa que administra e a troca de seu antigo patrão, um lorde, por um americano rico que não enxerga nem os tais erros que tanto incomodam o mordomo nem o valor da excelência que ele tenta imprimir a todos os detalhes da casa. O narrador parte desses pequenos erros domésticos — coisa da ordem de um talher mal polido na mesa de jantar — para refletir sobre sua vida, profissão e sobre as mudanças que abalaram seu mundo aparentemente estável.

A narrativa se inicia em 1956 na mansão de Darlington Hall, em Oxfordshire, no sudeste da Inglaterra, quando Stevens, a essa altura um senhor de idade, serve de mordomo a um americano que comprou a casa após a morte de seu antigo patrão, Lorde Darlington. A maior parte dos fatos narrados, no entanto, se concentra durante o entreguerras, um período que Stevens entende como sendo o auge de sua carreira mas quando, na verdade, ele servia a um nobre nazista.

O romance entremeia fatos da Primeira e da Segunda Guerra Mundial, do Tratado de Versalhes, da Segunda Guerra dos Bôeres e das mudanças sociais vividas pelo Grã-Bretanha nesses períodos ao relato ficcional de um homem que faz um trabalho aparentemente desprovido de importância política para uma classe social de função já predominantemente decorativa.

Embora um contexto histórico bastante eloquente e específico molde as opiniões e afete diretamente a vida do protagonista, ele raramente vem à tona na narrativa. Se nos dois trabalhos anteriores de Ishiguro a guerra e a bomba atômica compunham uma espécie de música ambiente ensurdecedora, aqui o nazismo, a colonização e a perda de importância da Inglaterra no cenário mundial operam como um tigre na sala de jantar com o qual o mordomo pretende lidar com um tiro discreto e uma refeição servida no horário de sempre.

A obra de Ishiguro é permeada pela suposta universalidade de determinados sentimentos a partir de sua recorrência em situações específicas. Desse modo, ele consegue trabalhar com sentimentos profundamente arraigados a um determinado contexto mas, ao oferecer exemplos em outros romances de sentimentos semelhantes também profundamente arraigados a outros contextos, acredita poder atestar a universalidade desses sentimentos. Superficialmente, tudo parece mudar: o autor se lança ao gênero da aventura, à ficção científica, ao romance histórico. Mas, no fim, são os mesmos temas e, mais do que isso, o mesmo propósito, o mesmo direcionamento. É como se cada novo romance de Ishiguro funcionasse como um novo exemplo do que ele insiste em dizer. Como se, diante de uma audiência distraída, o escritor se desdobrasse em tentativas de dizer as mesmas coisas.





 Juliana Cunha é jornalista.

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