Cultura

6 de outubro de 2017 - 15h52

De Sierra Maestra às telas: o caminho de um guerrilheiro

   

Fotógrafo, escritor, economista e revolucionário. Che teve uma vida inspiradora, não só pela sua luta contra o capitalismo e a exploração do povo latino-americano, mas também por suas andanças pelo continente, que lhe conferiram a possibilidade de desenvolver seu ideal por uma sociedade mais justa.

Ernesto Guevara de la Serna nasce em 1928 em Rosário, na Argentina. Nasceu em um barco, durante uma viagem para Buenos Aires. Com 18 anos, a família Guevara muda-se para a capital argentina. O jovem Che continua indo e vindo de Córdoba por caronas. Desenvolvido o gosto de perambular pelo país, no terceiro ano de medicina faz sozinho uma viagem pelo norte da Argentina, com sua bicicleta, chamada “La Poderosa”.

Mais tarde, na companhia de seu amigo Alberto Granado, percorre 10 mil quilômetros pela América Latina, de Buenos Aires até Caracas, capital venezuelana, sob uma motocicleta Norton de 1939, batizada de “La Poderosa 2”.

Essa última viagem fez de Che o “revolucionário romântico que não acredita em fronteiras, nem em formas tradicionais de tomar o poder”, segundo descrição do jornalista João Batista Cesar.

Convivendo de perto com o mais diverso povo latino-americano, e também o mais distante das capitais, como mineiros, doentes, indígenas e outros jovens que perambulavam pelo continente em busca de algo, Che cria seu ideal revolucionário de luta pelo povo: percebeu que as necessidades daquelas pessoas para uma vida digna não seriam possíveis dentro do sistema capitalista e imperialista ao qual estavam submetidos.

Desde sua viagem de descoberta e formação de caráter até sua luta como guerrilheiro ao lado de Fidel Castro por uma Cuba socialista, a trajetória de Guevara torna-se impressionante e digna de conquistar as telas de cinema. E assim o fez.

O Portal Vermelho traz a seguir alguns dos principais filmes e documentários que mostram a trajetória e a vida do andarilho revolucionário.

Em 2004, o brasileiro Walter Salles foi responsável pela direção do filme Diários de Motocicleta, longa que narra a jornada do jovem Ernesto e seu amigo Alberto até Caracas. O cineasta é conhecido por dirigir filmes que retratam longas jornadas e seus viajantes, conhecidos como “road movies”, como é o caso do brasileiro indicado ao óscar Central do Brasil e Na Estrada, adaptação do romance On The Road, de Jack Kerouac, considerado um expoente da geração Beat.

“É sobre encontrar sua identidade e ao mesmo tempo encontrar uma identidade latino-americana”, contou Salles em uma entrevista logo após o lançamento do longa. O filme foi baseado no próprio relato de Che sobre a viagem, documentado em seu diário, intitulado “De Moto pela América do Sul”. Na época, o diretor ainda lembrou como o Brasil e os outros países do continente são influenciados pela Europa e pelos Estados Unidos, e como procuram se espelhar nesses países. Ai estaria o caráter revolucionário da viagem: “no filme, Enresto Guevara e Alberto Granado pegam esse espelho e o viram, para os nossos países. Trata-se de dar atenção e focar naquilo que nunca é focado”, diz, referindo-se ao continente latino-americano com seu povo e suas expressões culturais extremamente ricas.

Confira abaixo o trailer de "Diários de Motocicleta": 



O livro foi escrito de forma direta, narrando, justamente, uma aventura, mas sem ignorar o povo e com sensibilidade aos acontecimentos presenciados pelo caminho. “Nós realmente tratamos de dar no filme o mesmo foco que o livro tenta dar: não olhar só para a estrada a frente, mas também para o que acontece além de suas margens”, terminou Salles. “Conforme fomos entrando pelo continente para filmar, conhecemos diversas pessoas e passamos por situações que não esperávamos passar. E filmamos isso também. Depois transformamos em ficção. Ou seja, o filme é uma mistura de relato documental e ficção”.

Em entrevista para a Folha de São Paulo dois anos antes do lançamento do filme, Walter Salles afirmou que “a dimensão de uma vida como a de Ernesto Guevara transcende em muito o cinema. Qualquer tentativa de narrar a sua trajetória completa seria um exercício redutor. Diários de Motocicleta é uma pequena história que antecede a história com h maiúsculo, o relato de uma viagem de descobrimento ocorrida durante os anos de formação de dois jovens latino-americanos” e reitera: “há 50 anos, dois jovens mostraram que esse não é um continente irrelevante. Na escola, aprendemos mais sobre os gregos e os fenícios do que sobre as culturas que nos são próximas. Aprendi dezenas de coisas que desconhecia, informações que me ajudaram a entender um pouco melhor de onde viemos, quem somos. Talvez o filme consiga passar essa sensação”.

Sabe-se, contudo, que esse é só o início da jornada de Guevara. “Che”, filme dividido em duas partes, de Steven Soderbergh e com Benicio del Toro interpretando o comandante argentino, trata de trazer a biografia completa do comunista revolucionário, até sua morte na Bolívia. Dividido em duas partes, a primeira chama-se “O Argentino”, e centra-se na Revolução Cubana, desde o desembarque com Fidel em Cuba para derrubar o ditador Fulgencio Batista até o combate em Sierra Maestra. A segunda parte, intitulada “Guerrilha”, trata da vontade de Che de espalhar a revolução pelo resto do continente, até sua ida e morte na Bolívia.

Confira o trailer de "Che" abaixo:



Em 2010 o cineasta argentino Tristan Bauer elaborou o documentário “Che, um homem novo”, que incluía documentos e imagens inéditas do revolucionário argentino. O objetivo era retratar Che como intelectual e sua vida pessoal com a família. “A vida do Che é um exemplo que pode ser seguido ou não, mas ele foi um homem de uma coerência extraordinária, que agia como sentia e pensava” ressaltou na época Bauer, nascido em 1959, ano da Revolução Cubana. Enquanto preparava um documentário sobre o escritor Julio Cortázar, descobriu um antigo filme no qual ele lia um poema dedicado ao Che. Foi a partir desse momento que iniciou 12 anos de pesquisa sobre o revolucionário.

“O que mais me impressionou foi o homem que pensa e como ele transformou esse pensamento em palavras, desde muito novo. A criança leitora que mergulha na biblioteca de seu pai e faz anotações em cadernos que deixa dentro de cada livro que vai lendo”, destaca Bauer. Esse costume, que Che manteve até ao dia da sua morte, foi o que permitiu, 40 anos depois, “escutar” as suas reflexões mais profundas.

Atualmente

Não para por aí. A figura de Che continua inspirando filmes e documentários, despertando sempre em que os assiste alguma inquietação. Impossível é ficar apático diante da história de alguém que tratou sempre de seguir seus ideais para quebrar com um sistema opressor e atingir uma sociedade mais igualitária.

Nesse sábado (7), o Memorial da Resistência de São Paulo homenageará o revolucionário com documentário “Carabina M2, Uma Arma Americana – Che na Bolívia”, do argentino Carlos Pronzato. O curta traz entrevistas com guerrilheiros que lutaram ao lado de Che e até do general Gary Prado, responsável pela captura do argentino. Mais uma filmagem dedicada a vida de quem nunca parou- até depois de sua morte.


* estagiária no Portal Vermelho 

Do Portal Vermelho 

  • VOLTAR
  • IMPRIMIR
  • ENCAMINHAR

Últimas Mais