Cultura

6 de outubro de 2017 - 15h42

O personagem da foto mais reproduzida do mundo também foi fotógrafo

Alberto Korda
Korda tirou duas fotos, uma vertical, outra horizontal, acabou por usar esta, porque a outra tinha uma pessoa atrás do ombro de Che Korda tirou duas fotos, uma vertical, outra horizontal, acabou por usar esta, porque a outra tinha uma pessoa atrás do ombro de Che

Não são poucas as imagens que registram Che com uma câmera fotográfica nas mãos. Ele realmente gostava de “se arriscar” como fotógrafo. E chegou a trabalhar na área um pouco antes de conhecer Fidel em Cuba e dar início à revolução socialista.

Ele herdou o gosto pela fotografia do pai e entre 1950 e 1960 se dedicou a fazer retratos. Chegou a viajar para o México para cobrir os Jogos Pan-Americanos de 1955 para uma agência argentina.
Mesmo depois da revolução, continuou a exercer a paixão, mas apenas como hobby. Relatos dão conta de que quando foi assassinado na Bolívia, em 9 de outubro de 1967, tinha 12 rolos de filme nos bolsos de sua farda.

História da fotografia de Alberto Korda

“Ao pé da tribuna, coberta com crepe preta, o olho fixado na minha velha Leica, eu metralhava Fidel e todos aqueles que o cercavam. De repente, através da objetiva de 90mm, surgiu Che. Seu olhar me espantou”, diria Alberto Korda anos depois, sobre clássica fotografia do guerrilheiro argentino que virou ícone pop.

Parece mentira, mas a fotografia que imortalizou a imagem de Che só foi usada sete anos depois de ter sido revelada. Isso porque, na época, o objetivo do fotógrafo era registrar Fidel durante o evento público que ambos participavam.

Alberto Korda exibe os negativos das duas fotografias 
“Num reflexo, bati duas vezes: uma tomada horizontal, outra vertical. Não tive tempo de fazer uma terceira, ele se retirou discretamente para a segunda fila. De volta ao meu estúdio, revelei o filme e fiz algumas cópias para o Revolución. Preferi enquadrar a foto horizontal de Che para imprimir o clichê vertical, pois uma cabeça aparecia atrás do seu ombro. No entanto, a foto não foi selecionada naquela noite pela redação. Pendurei a cópia na parede do meu estúdio”, disse Korda.

O livro Cuba por Korda, sobre a obra do fotógrafo na revolução, traz a história completa por trás da fotografia:

No início de março de 1960, mais de um ano após a tomada do poder pelos revolucionários, um cargueiro francês da Companhia Geral Transatlântica, La Coubre, chegou ao porto de Havana. Transportava a segunda carga de munições que os cubanos haviam conseguido comprar na Bélgica, apesar das pressões de Washington. Porém, no dia 4, duas explosões enormes sacudiram a cidade. O atentado fez oitenta e um mortos e duzentos feridos em meio aos trabalhadores do porto. Atribuída por Fidel Castro à CIA, esta carnificina pôs fim à toda esperança de reconciliação com os americanos. Um fotógrafo da revista Verde Olivo, Gilberto Ande, flagrou Che socorrendo os feridos. Mas este o proibiu de fotografá-lo. Considerava vergonhoso ser objeto de curiosidade em tais circunstâncias. No dia seguinte, por ocasião dos obséquios das vítimas, Korda postou-se diante do cemitério de Havana, a serviço do jornal Revolución. Fotografava Fidel Castro, que fazia um violento discurso, Che Guevara , e também Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir. Os intelectuais franceses haviam acabado de chegar a Cuba. Tinham ido testemunhar, por si mesmos, aquela experiência revolucionária que apaixonava todo o mundo. Após seu regresso, Sartre escreveria uma longa série de artigos no France-Soir, com o título “Furacão sobre o açúcar”. E concluiria que “Cuba quer ser Cuba e nada mais”.

Em junho de 1967, sete anos após a explosão de La Coubre, o mundo inteiro se perguntava para onde fora Guevara. Ninguém sabia ainda se estava acendendo outro foco de guerrilha na Bolívia. Enquanto isso, em Havana, o editor italiano Giangiacomo Feltrinelli procurava um belo retrato de Che. Apresentou-se a Korda com uma carda de recomendação de Haydée Santamaría, uma revolucionária de primeira hora. À vista deste sésamo, o fotógrafo lhe deu de presente duas cópias. Em outubro do mesmo ano, Che seria preso e executado pelo exército boliviano. Alguns meses mais tarde, Fidel Castro enviaria o diário de Che na Bolívia a Feltrinelli, que se comprometeu a publicá-lo e reverter os ganhos aos movimentos revolucionários da América Latina. Ao mesmo tempo, o editor imprimiu os primeiros milhares de pôsteres com a foto de Korda. Transformada em símbolo planetário, milhões de exemplares da foto foram difundidos sem o crédito de autoria. Korda nunca tocou em um centavo dos direitos sobre a venda destes cartazes.

Imagens capturadas pelo fotógrafo Che: 









Do Portal Vermelho, Mariana Serafini

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