Brasil

5 de outubro de 2017 - 20h27

Guadalupe Garniel: O que realmente é Libertador (em três atos)

   

Nesta semana três fatos que têm a ver com liberdade estão em voga no futebol: Conmebol decide por jogo único em campo neutro a partir de 2019, Londrina é campeão da Primeira Liga de forma invicta e Carlos Arthur Nuzman, presidente do Comitê Olímpico Brasileiro preso nesta manhã. E como o futebol virou espetáculo, não no melhor sentido, já que é mais fora do que dentro, dividi em três atos tudo o que aconteceu.

Ato I

A Conmebol fechou um acordo equivalente a R$ 4,41 bi com a empresa IMG (estadunidense) e a Perform (inglesa) que serão responsáveis por assessorar e comercializar dos direitos de transmissões de TODAS as competições ligadas à entidade,desde os torneios de futebol de campo até futebol de praia e futsal. A ideia é que, por exemplo, a Libertadores seja transmitida para outras partes do globo. E segundo Alejandro Dominguez (presidente da Conmebol) muitas vezes a Libertadores acaba no vermelho em caixa para a entidade e com este acordo especula-se que  fechará com cerca de 350 milhões de dólares sobrando. Alejando ainda declarou que haverá licitações também para empresas comercializarem as transmissões dos jogos de seleções.

Soma-se a isso que o que antes era especulação se tornou real: final como jogo único em campo neutro pré-definido como na Champions ou na Lampions.

Ato II

Ave, César! Londrina campeão da Primeira Liga de forma invicta em cima do Atlético-MG por 4 a 2 nos penais, em casa, no Estádio do Café com bom público (17.003, pouco mais da metade da capacidade que é cerca de 30 mil).

No primeiro tempo, o Galo tentou sair na frente em dois lances, mas depois o Tubarão impôs seu ritmo, pressionou e passou a jogar no erro do time mineiro. Já na segunda etapa, o Atlético veio mais ofensivo e quase fez um gol olímpico, com Valdívia. Só aos 20 o Londrina pressionou com cabeçada de Dirceu. O jogo seguiu ficou morno e era óbvio: penais.

Após o zero a zero o goleiro César se consolidou como carrasco dos times mineiros: na semifinal pegou três penalidades do Cruzeiro e agora na final pegou mais dois.

Para chegar à final, o LEC enfrentou Figueirense, Avaí, Paraná, Fluminense e Cruzeiro.

Ato III

Seis da manhã. Leblon, bairro elitizado da Zona Sul do Rio do Janeiro. Agentes da PF, com um mandado de prisão temporária (cinco dias) bateram à porta de Carlos Arthur Nuzman (presidente do COB e Comitê Rio-2016). O dirigente teve que entregar seus dois passaportes: o diplomático e um russo. O mesmo aconteceu em Laranjeiras seu braço direito, Leonardo Gryner (diretor geral do Comitê Rio-2016).

Em setembro, Nuzman já foi chamado para prestar depoimento na Unfair Play (braço da Lava Jato) por ser suspeito do pagamento de propinas de cerca de US$ 2 milhões para que o Rio fosse eleito sede das Olímpiadas para dois membros do COI. Mas preferiu manter-se calado. Além disso, o cartola teria vendido seu voto para a candidatura de Sochi para os Jogos Olímpicos de
Inverno de 2014 em troca de um passaporte russo para fugir de investigações. Gryner encontrou-se com suspeitos que venderam votos para o Rio sediar os Jogos.

Resumo da ópera

Liberdade e Libertadores definitivamente são dois termos que não combinam mais há um bom tempo. Agora a Conmebol decidiu que precisa ganhar (mais) dinheiro a todo custo. Inchou o torneio, fez um calendário longuíssimo (o mesmo com a Sudamericana, onde times grandes ainda tem a oportunidade de ganhar algo e as emissoras transmissoras tem para faturar). A questão
que mais me preocupa, mais até do que o campo neutro, é onde vai este dinheiro todo que a entidade diz que entrará? Não vi declarações em nenhum lugar sobre o destino que será dado, se haverá investimentos no desenvolvimento do futebol local, já que hoje em dia nos tornamos simplesmente exportadores de matrizes futeboleiras para os torneios que mais tem dinheiro e não necessariamente o melhor futebol e coisas que o envolvam. Alguns dirão que é isso é sair do amadorismo, mas nem sempre dinheiro é sinônimo de profissionalismo.
Competência, compromisso e responsabilidade o são.

Agora mais do que nunca temos que seguir o modelo europeu, disputa em campo neutro. A graça da Libertadores era ter a cara do continente: raça, adversidades, altitude e, principalmente, a torcida. Ok, concordo que as torcidas decaíram, mas ela ainda tenta jogar junto, existem barras e torcidas organizadas pela Sudamerica que cumprem bem a função (elas tentam cantar por todos, mas às vezes fica difícil quando você olha pro lado e vê que apenas o grupo de pessoas que sempre canta está lá alentando, chega a ser desanimador). Imagine seu time ter que ir jogar no Equador? O Olè definiu muito bem: Nueva Copa, Nueva TV. Agora é oficial: podem mudar o nome do torneio, porque a Libertadores de libertador não tem mais nada.

Enquanto a final da Copa do Brasil foi definitivamente o jogo feito para sob medida para TV e consumidores, a Primeira Liga teve um jogo ótimo (não do ponto de vista técnico, poderia ter sido melhor): apesar do público que poderia ter lotado a cancha do Tubarão, houve festa, torcida dentro de campo no final do jogo, foi emocionante. Mas nem tudo são flores: a Liga que era pra ser uma proposta interessante de organização dá fortes indícios de que não terá a próxima edição. Agora imagine se o Tubarão e Atlético-MG tivessem que disputar o jogo no Sergipe? No formato da Lampions concordo que até dá pra fazer porque é torneio regional e também porque a ideia é se inspirar no modelo europeu e neste ponto o brasileiro é ótimo: pegar um produto de fora e dar uma cara brasileira. Foi exatamente o que aconteceu com a Lampions.

Agora na questão do tamanho do continente é quase impossível você viajar a todos os lugares. Primeiro pelo preço dos ingressos, segundo pelas péssimas condições de transporte pela América Latina. E quem garante que as sedes não serão “compradas” através de votos ou “sorteios”, como agora a operação Unfair Play vem revelando sobre as Olimpíadas, além das fortes suspeitas da compra de votos de sedes em Copas do Mundo, como por exemplo o Catar.

Infelizmente, quem discute de futebol não tem mais futebol pra discutir. É acompanhar os atos e desdobramentos deles no extracampo.

Desce a cortina.


 *Guadalupe Carniel é jornalista, pesquisadora e autora do blog Morte Súbita.

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