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2 de outubro de 2017 - 10h41

Saída militar da Rocinha expõe mais rixa política que sucesso tático

MAURO PIMENTEL AFP
Militares deixaram a Rocinha nesta sexta, após uma semana de cerco. Militares deixaram a Rocinha nesta sexta, após uma semana de cerco.

A tropa de 950 homens das Forças Armadas que patrulhava a Rocinha, a maior favela do Rio de Janeiro e alvo de uma disputa armada entre traficantes, voltou para casa na madrugada desta sexta-feira. Horas antes houve um tiroteio, um morto, e dois jovens foram torturados por traficantes ao serem confundidos com aliados do grupo rival. Mas a situação na comunidade, segundo o ministro da Defesa Raul Jungmann, está estabilizada.

“Nós falávamos aqui de uma guerra entre gangues, de uma população aterrorizada, presa em suas casas. Isso não está acontecendo. Essa questão aí [de tiroteios] é policial e deve ser resolvida no âmbito das polícias”, disse o ministro. "Se ele voltar, nós voltaremos", disse Jungmann em referência a Rogerio 157, líder do tráfico na comunidade e pivô das disputas que fizeram Nem da Rocinha, o verdadeiro dono do morro, confinado num presídio federal de segurança máxima, ordenar a expulsão do território do seu ex-aliado. Embora as autoridades do Rio já soubessem que a retirada iria acontecer nesta semana, os policiais destacados na Rocinha souberam da decisão pela televisão.

Os blindados deixavam para trás uma semana de cerco à comunidade, o desembarque espetacular de fuzileiros de um helicóptero, transmissões ao vivo da movimentação dos soldados, moradores entre o respiro e o medo, crianças sem aula por quase uma semana, assim como um custo não divulgado e um cenário e resultado incertos. Nesses dias de operações conjuntas foram apreendidos 26 fuzis, 19 granadas, 54 mandados de prisão foram expedidos e 11 cumpridos. Mas nos sete dias em que os militares patrulharam e cercaram a Rocinha junto à PM, Rogério 157, o chefe do tráfico de drogas da favela, fugiu pelo mato, costurou um acordo de adesão à facção rival Comando Vermelho, sequestrou um táxi, que chegou a ser interceptado por policiais militares e soldados, e retornou à Rocinha. Depois voltou a fugir.

Com ele, uma parte dos seus comparsas. Alguns presos, e outros mortos, mas muitos deles já refugiados em outras favelas, apesar da ostensiva presença militar e policial. “Deixaram a mata livre para a fuga”, “eles [os militares] eram responsáveis pelo cerco”, criticam membros da Polícia Militar nos bastidores. Sem grandes complicações, a Rocinha, que não vivia uma guerra por território desde 2004, voltou às mãos do Comando Vermelho. "Não entramos ali só para prender o traficante [Rogério 157, líder do trafico da Rocinha]. Entramos para levar tranquilidade. Os militares conheceram o terreno. Se precisar, eles vão voltar", defendeu o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB).

“A defesa se torna superior ao ataque quando tem o controle do território. O bando de criminosos não é um grupo tático, ele vai se dissolver e sair. O que permite deter alguém não é um cerco, é ter informações de qualidade. No final, vimos uma espetacularização midiática do terror que rendeu muito pouco”, avalia Jaqueline Muniz, professora de graduação em segurança pública da Universidade Federal Fluminense. “Operações especiais precisam acontecer com missão clara e orientada por dados para prestar contas. Na Rocinha era todo mundo tentando ganhar uma parte dos holofotes com a desgraça e mostrar que estavam fazendo alguma coisa”, complementa. “Qual foi a missão, para a população avaliar a efetividade e o resultado?”, provoca.

O conflito na Rocinha expôs também a rixa política cultivada entre as autoridades fluminenses e as de Brasília. Quando no domingo,17 começou o conflito, causando pelo menos quatro mortos e intensos tiroteios que paralisaram a comunidade, a Secretaria de Segurança Pública do Rio e o Ministério da Defesa levavam dias trocando farpas e colocando em xeque a suposta integração pretendida com o envio de tropas ao Rio no final de julho para reforçar a segurança.

Enquanto o Comando Militar do Leste, responsável por coordenar as operações no Estado, reclamava de problemas de orçamento para continuar com novas ações, o ministro Jungmann dizia que não faltava dinheiro, mas sim planejamento por parte da Secretaria de Segurança. No meio do fogo cruzado, a Secretaria dizia que preferia verba a soldados, negava falta de plano e surpreendia pedindo pelo Twitter ajuda das Forças Armadas para patrulhar pontos críticos da cidade. O ministro, primeiro, recusava, pois essa não é a atribuição das tropas na cidade, depois dizia que ia estudar. Pezão, finalmente, não deu a ordem.

O ataque à Rocinha aconteceu apesar de as autoridades fluminenses reconhecerem que tinham informações sobre o racha na facção criminosa e uma iminente invasão. Mas os criminosos fortemente armados, e vindos de outras favelas distantes do Rio, chegaram a Rocinha sem grandes dificuldade e iniciaram o confronto. Foi o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) quem desautorizou qualquer operação da polícia nesse dia em que o Rock in Rio atraia milhares de pessoas: a estrada que dá acesso à Rocinha é a mesma usada para chegar à Cidade do Rock, a 21 quilômetros da comunidade. “Se a gente reagisse à entrada daqueles marginais portando fuzil, seria uma guerra onde morreriam muitos inocentes”, disse Pezão, que evitou por quase uma semana o auxílio das Forças Armadas.

Na sexta 22, o governador mudava de ideia e solicitava ao ministro da Defesa o apoio das tropas. O anúncio foi feito horas antes de efetivamente acontecer. No mesmo dia, Rodrigo Maia, que conforme cresce sua incipiente influência em Brasília como presidente da Câmara dos Deputados vem se envolvendo em assuntos locais fora da sua competência, pedia a demissão do secretario de segurança pública, Roberto Sá. "A crise na Rocinha mostra que, infelizmente, o secretário Roberto Sá perdeu as condições de comandar a política de segurança pública do Rio", disse Maia. Pezão, enfraquecido, com o mandado cassado e cercado por escândalos de corrupção, apoiou seu secretario e pediu para este evitar o embate.

“Governos impopulares e ilegítimos não tem como produzir coesão e adesão em torno das suas pautas e, no lugar, maximizam o temor coletivo produzindo teatralidades repressivas. Seja nas manifestação como na guerra contra o crime. É uma maneira de produzir cortina de fumaça. Enquanto estamos amedrontamos, direitos são substituídos”, lamenta Muniz.

Do ponto de vista da estratégia, o ex-chefe da Polícia Civil, Fernando Veloso, lamenta que as polícias e a sociedade continuem olhando a árvore ao invés da floresta. "A gente está discutindo o conflito entre as autoridades mas por que a Rocinha chegou a esse ponto?", questiona. "Seria bom cometermos erros novos e não sempre os mesmos, ou daqui a dez anos estaremos falando do mesmo embate entre um secretário e um ministro. Os criminosos há tempo que além de com o tráfico lucram com serviços prestados à comunidade, como água, gás, aluguel de imóveis, sinal de TV e internet, transporte...Negócios até mais interessante e menos arriscado que a venda de drogas”, reclama. “Não há investimento em estrutura para uma atividade de inteligência que oriente melhor a atividade policial nessa missão de neutralizar os ganhos financeiros das quadrilhas. A gente tem que discutir e combater a dominação de território, que exige articulação entre as autoridades, mas não podemos continuar ignorando o poder econômico que eles têm. Sem ele, não haveria esse poderio bélico", completa.

Após a retirada das tropas, a Polícia Militar, combalida pela falta de recursos, reforçou sua presença na Rocinha e 500 policiais patrulharão e cercarão o local. Questionado por jornalistas se os moradores devem temer um novo ataque, o secretario Sá, desconversou: “A população deve ter certeza que nós estamos aqui para protege-los”. Mas como escreveu o jornalista Misha Glenny na sua biografia sobre Nem da Rocinha, O dono do Morro: Um homem e a batalha pelo Rio, na qual relata as inumeras lutas de poder na comunidade, “quase todo mundo — e sem dúvida todo mundo nas favelas — sabe que, se matarem o rei, os cortesãos logo se virarão uns contra os outros, numa luta sangrenta pela coroa”.



Por María Martín no El País

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