América Latina

28 de setembro de 2017 - 18h36

Quem são os inimigos da revolução bolivariana?

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Já dizia Chávez: não estamos diante do caminho do jardim de rosas Já dizia Chávez: não estamos diante do caminho do jardim de rosas

A revolução tem pela frente um adversário político nacional falido: sem liderança popular, com eleições primárias tristes e solitárias, partidos com disputas a tapas, ausência de discurso nacional, dirigentes incoerentes e cenas ridículas. Uma direita tragicômica que não dá espaço ao riso por seus balanços de morte. Só a intentona insurrecional de abril-julho deixou 159 vítimas fatais, sem falar das formas de violência, com direito à queimar pessoas vivas por serem chavistas ou pobres.

Este quadro é uma evidência interna para todos na Venezuela, e para fora. Em primeiro lugar, para a mesma direita que centrou sua iniciativa em recorrer a Europa e os Estados Unidos para conseguir – mendigar parece a melhor palavra – apoios diplomáticos e mais sanções econômicas. Os resultados estão nas fotografias com Angela Merkel, Enmanuel Macron, Mariano Rajoy, as declarações de Benjamin Netanyahu, e sobretudo a ofensiva pública estadunidense, com a visita pela América Latina do vice-presiente e as declarações de Donald Trump.

O último acontecimento foi o discurso de Trump na ONU, onde qualificou a Venezuela como uma “ditadura socialista” – inspirada nos “regimes falidos do planeta” – ameaçou com “mais medidas” e chamou uma ação internacional. Mais medidas significa ataques, aprofundar o que já foi feito contra o setor econômico,cujo objetivo é cercar a economia venezuelana, bloqueá-la e empurrá-la ao déficit.

Sanções significam também a força. As declarações de Trump sobre a possibilidade de uso militar contra a Venezuela têm poucas semanas. Está dito, não será um filme do Capitão América desembarcando no Iraque – ao menos é a hipótese mais improvável – mas existem sinais que indicam que a variável armada está em marcha. Em primeiro lugar, pelo quadro interno que tem se formado, com o desenvolvimento paramilitar, ações como assaltos a quarteis, camadas de jovens formados em confrontos de rua e uso de armamentos caseiros de guerra. “Quanta força e que possibilidades no campo de batalha têm? Estamos prestes a saber no caso de se ativar esta opção.

Em segundo lugar, por movimentos como o exercício militar “América Unida” dirigido pelos Estados Unidos, que será realizado na fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru. Um ataque sobre a Venezuela poderia vir da fronteira amazônica sul, da fronteira andina – retaguarda e ponto de avanço paramilitar – com a Colômbia, da zona marítima nortenha. A evolução destas possibilidades distantes, mas cada vez mais próximas, estão relacionadas com as negociações e pressões sobre os governos subordinados do continente. Depois das declarações na ONU, Trump se reuniu com os presidentes da Colômbia, Brasil e Panamá. A conspiração não se esconde.

Os Estados Unidos têm todas a variáveis em desenvolvimento. Podem ativá-las segundo o curso dos acontecimentos, a necessidade de influenciar sobre seu desenvolvimento – acelerado, por exemplo –, as condições e disputas ao interior dos fatores de poder do mesmo império, e as alianças econômicas, políticas e militares, que Maduro possa desenvolver, em particular com a Rússia e a China.

Uma coisa é clara: a revolução bolivariana luta contra os Estados Unidos e as grandes empresas petroleiras que operam sob as sombras. A batalha da Venezuela é parte da disputa geopolítica global.

“Se vocês me perguntam quem é o inimigo da paz e da soberania da Venezuela, eu lhes digo Mister Trump, mas se me dizem qual é o pior e mais perigoso inimigo do futuro da Venezuela, eu lhes digo que é a burocracia, a corrupção, a indolência, os bandidos e bandidas que estão à frente dos cargos públicos e não respeitam o público (...) os que têm cargos públicos e se dedicam a roubar do povo, temos que fazer uma batalha sem clemência contra eles”.

Estas foram as palavras de Maduro no mesmo dia que Trump declarou suas ofensas na ONU. Ele falou isso ao final da mobilização anti-imperialista realizada em Caracas no marco da cúpula de solidariedade internacional. Foram as mais aplaudidas do discurso, uma evidência – outra mais – de que a corrupção é um dos debates mais urgentes no interior da revolução. Não é a primeira vez que o presidente aborda este tema, também havia sido parte de seu discurso na Assembleia Nacional Constituinte (ANC) há poucos dias.

Trata-se de um assunto que começa a ganhar espaço na opinião pública. Se deve à gravidade do problema, os tempos urgentes, à sua cumplicidade com a situação de guerra/crise econômica, aos episódios políticos recentes, em particular com o caso do Ministério Público. Não é possível solucionar o quadro eleitoral, econômico e político, sem atacar a corrupção que parece ter ganhado terreno de maneira transversal. Está presente, por exemplo, no Poder Judicial, na Faixa Petrolífera do Orinoco, e na assinatura de divisas para as importações.

Estes casos emergiram das investigações abertas a partir da intervenção do Ministério Público. O balanço oferecido sobre a situação deste poder público é que ali se formou uma máfia durante dez anos. Ou seja, desde 2007, quando Hugo Chávez era presidente e as principais variáveis da revolução estavam em desenvolvimento. As raízes da corrupção são profundas, e são parte da explicação do por quê, por exemplo, a produção estatal não consegue seu desenvolvimento, ou por quê não houve presos durante os três meses de insurreição e precisaram ser feitos julgamentos militares.

Mais ainda: é um dos pontos de conexão entre o inimigo exterior e o inimigo interior. A estratégia de ataque econômico opera para criar e ampliar focos de corrupção em áreas e territórios centrais da economia, para sabotar, frear e quebrar. É o caso do petróleo, onde o objetivo – em um cenário de baixos preços que se mantém assim desde 2014 – é colapsar a indústria através da redução da produção. No caso da Venezuela, onde o petróleo garante cerca de 95% dos recursos do país, seria asfixiar ainda mais as possibilidades econômicas para importar e produzir.

Essa é uma das frentes principais hoje da revolução. Com uma peleia complexa pelas ramificações que existem dentro do Estado e espaços de direção, porque atacar a corrupção significa movimentos ao interior do processo que, já se sabe, são utilizados pelos Estados Unidos, que bendizem e outorgam proteção aos traidores e corruptos.

A conclusão é a simultaneidade da peleia: não se pode combater a frente exterior e congelar a batalha interna, que está, por sua vez, ligada com a externa. A revolução enfrenta o império, a traição e a história. Já dizia Chávez: não estamos diante do caminho do jardim de rosas.


*Marco Teruggi é analista político
Tradução: Mariana Serafini

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