Cultura

16 de setembro de 2017 - 11h06

Queermuseu e o avanço da direita na rede

Divulgação
   

Nessa semana realizamos aqui em Porto Alegre um ato público contra a volta da censura no Brasil, patrocinada pelo banco Santander. Uma exposição de arte queer foi interrompida pela direção do banco depois de protestos e agressões nas redes e no espaço da exposição patrocinados por grupos nãoliberais (MBL), militaristas e fundamentalistas que vivem na Idade Média.
Meu objetivo com esse texto não é falar sobre o significado dessa censura e do precedente que abre para novas agressões, fechamentos de espaços, seminários públicos, bares que esses extremistas considerarem inapropriado pra família deles. Isso é a cara do fascismo e não tem outro nome. Também não quero detalhar a impotência que senti no final da noite quando vi que a Prefeitura de Porto Alegre e o Estado, com sua força militar, ficaram ao lado dos milicianos provocadores que invadiram um ato protegidos pela Brigada Militar, como uma operação conjunta. Gostaria de falar da articulação e mobilização para este ato, para que possa servir de experiência positiva e reflexões para o campo de esquerda, humanista e democrática.

O Corpo

O nosso ato começou a ser convocado por organizações LGBTs através do Facebook [1] já no domingo, o dia da censura. De forma descentralizada e com um trabalho em rede entre pessoas que nunca tinham conversado ou se conhecido antes, mas que estavam indignados e unidos por esta “causa”, conseguimos mover milhares de pessoas nas redes e levar uma multidão de pessoas para a rua em frente do Santander Cultural. Mais uma vez, não foram as organizações formais as protagonistas, mesmo que estivessem presentes apoiando. Indivíduos conectados, assumindo uma identidade coletiva na rede de indignação deram o tom.

O papel que deleguei a mim mesmo foi fazer a transmissão ao vivo do ato. Faço isso desde 2010 e gosto de fazer. Quando as visualizações da transmissão chegaram a mais de 50 mil, eu mudei para modo privado pois meu perfil estava sob ataque. Passei a noite analisando os comentários, entrando em alguns perfis para ver a localidade e a vida dos sujeitos.

MBL alcançou seu objetivo

O MBL levou a fama e cresceu assumindo o protagonismo nos massmedia e bombado por parte da militância de esquerda nas redes. Assim, os nãoliberais cresceram e avançaram nas bases dos militaristas e dos religiosos fundamentalistas, que foram a maioria a se manifestar nessa amostragem da rede. As três redes da nova direita, que não pensam igual em tudo, têm uma forte articulação nacional na Internet. As redes dos fundamentalistas e dos militaristas do Bolsonaro foram muito maiores e comentaram de todo Brasil: de Altamira, no Pará, passando por pequenas cidades no interior do país. A pós-verdade construída na estratégia de autocomunicação do MBL foi que a exposição tratava de sexo com animais, pedofilia, outras causas anti-cristãs, ofensa aos direitos dos animais, racismo no caso de brancos metendo num negro, gasto de dinheiro público com a lei Rouanet.

Todas as redes têm uma boa equipe profissional de mídias sociais e sabem fazer o trabalho muito bem. A construção de uma rede dessas leva tempo e paciência, e é necessário expertise, monitoramento e análise dos dados, além da produção de conteúdos apropriados para as redes sociais. Mas, o mais importante num processo de autocomunicação são as relações que se estabelecem entre os indivíduos. Não é um espaço de “transmissão” de conteúdos, mas de escuta e diálogo. Desta forma, eles arrastaram multidões contra a nossa causa.

Autocomunicação[2] de multidões é o estágio atual da comunicação na Internet e foi o campo de batalha nestes dias até o evento. A capacidade de comunicação autônoma individual e inédita faz da rede o corpo dos movimentos[3]. Sem intermediários, inclusive na comunicação. A maior potência da comunicação se realiza quando a rede deixa de ser um meio para ser o corpo ativo, “a estrutura”. Isso não é um movimento espontâneo, é uma nova forma de organizar, na perspectiva de construir uma identidade coletiva potente de indivíduos conectados em rede, compartilhando emoções. Isso é o contrário de centralização, hierarquias, agencias de notícias, redação web, broadcast institucional como no período anterior e onde estão até hoje todos os investimentos humanos e materiais das esquerdas na Internet.

As esquerdas nas redes são uma multidão sem estratégias de autocomunicação, departamentalizados nas caixinhas das instituições, não conseguindo construir uma rede descentralizada de protagonistas articulados.

Notas

[1] Porto Alegre sem Preconceito, Nuances – Grupo Pela Livre Expressão Sexual ONG Outra Visão – LGBT CRDH Relações de Gênero, Diversidade Sexual e de Raça Igualdade RS – Associação de Travestis e Transexuais do Rio Grande do Sul Coletivo Feminino Plural Juntos LGBT Somos – Comunicação, Saúde e Sexualidade

[2] Autocomunicação de massas, Manuel Castells

[3] “A internet não é mais um componente, é o próprio corpo dos movimentos” Marcelo Branco



Fonte: Outras Palavras

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