13 de setembro de 2017 - 12h53

Lu Castro: Independência e Várzea: Digam ao Dória que a Várzea fica!


Foto: Lu Castro
   
Voltando algumas horas no tempo, a quarta-feira pré feriado foi para quase finalizar uma semana de acontecimentos bizarros na minha vida e na vida dos que com quem convivo. Uma noite de cerveja e palavras jogadas pro nada, apenas para desopilar as dores de um tombo federal na escada de casa.

O feriadão prometia um pouco de ressaca, mas nada que impedisse o rolê até a zona norte para comemorar o aniversário da amiga e irmã de luta, Aira Bonfim. Um dia inteiro de futebol no campo do Baruel F.C., churrasco, cerveja e samba.

Independência e futebol!

Entre a malemolência do trem até a Barra Funda e o disco Duetos de Jovelina, preparava meu espírito para um dia que eu não esperava no complexo de campos de várzea do Campo de Marte.
A oportunidade de estar mais uma vez no terrão, revivendo o ambiente responsável por tantos momentos bons da minha vida, deixou a Pérola Negra, já colada nos ouvidos, mais significativa.
Sair da zona sul para atravessar a cidade em direção a uma comunidade com décadas de história, se revelou muito mais que apenas mais um dia de diversão com futebol, churrasco, cerveja e samba do bom: era mais uma luta.

A ideia do playba que usa vulgo de “trabalhador”, é transformar parte considerável da área do Campo de Marte em parque e museu administrados por alguma iniciativa privada amiguinha de sua família. O engodo está literalmente passando o facão nos espaços públicos da cidade em nome da especulação imobiliária.

Mas há resistência!

Se de um lado há toda uma organização para defender o Pacaembu da privatização, do outro está a mobilização para a manutenção dos seis campos que compõem o complexo do Campo de Marte. O Museu do Futebol está, inclusive, se mobilizando nesta defesa também com a organização de um encontro que acontecerá neste sábado, 16 de setembro, a partir das 09h00, no Auditório Armando Nogueira.

O Secretário Geral da Associação dos Clubes Mantenedores do complexo, Otacílio Ribeiro, tem participado de vários programas para relatar a situação. Foi uma grande honra conhecer mais uma camarada, inclusive!

Mas minha intenção é fazer um relato mais pessoal sobre o espaço e um pouco do dia que passei por lá, ajudando minimamente na churrasqueira, ouvindo um samba de raiz com o Carlão do Peruche, futebol rolando no campo do Baruel, cerveja gelada pra refrescar o corpo e as ideias e a companhia maravilhosa da comunidade e dos compas de luta.

Me senti em casa. Foi uma volta aos tempos de criança e adolescente. Foi dia de confraternizar com pessoas novas na vida, trocar ideias, tirar uma carne como se fosse pra minha família, brindar com a aniversariante e companheiras de batalha e ver a lua cheia se erguendo deslumbrante acima do que resta de Mata Atlântica naquele espaço.

Dentro do meu entendimento mínimo de diversão e congraçamento, não cabe limar um espaço que se dedica há tanto tempo a sua comunidade com alegria, cultura do samba e futebol. Não dá pra imaginar a destruição de um local que serve a tantos, para passar a servir a poucos em uma configuração segmentadora.

Não basta estarmos vivendo um período onde a agenda dos golpistas deslancha aprofundando as diferenças sociais, vendo os fascistas espumando seu ódio e ignorância, o estado laico voltando para o calabouço da inquisição, não basta tanto desrespeito e maldade? Não basta o que as comunidades periféricas sofrem com a ausência de condições dignas para viver e violência policial?

Alguém explica pra esse playboy que quanto mais ele tira da população, mais problemas ele traz pra todos? Se ele não entende, quem sabe fazendo um cosplay de Romero Brito ele não consiga fazer seu par de neurônio funcionar?

No dia da independência, sob um sol digno de pessoas independentes, o campo do Baruel foi o meu grito de liberdade e respeito e um brinde à simplicidade que em nome do padrão fifa, tem tomado o espaço do povo na maior cidade da América Latina.

No dia da independência, o nosso grito é: OS CAMPOS DE VÁRZEA FICAM!




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