Brasil

12 de setembro de 2017 - 17h58

Paulo Kliass: Doria não tem papas na língua

   

O neotucano começou surfando com aparente tranquilidade nas águas em que naufragaram as candidaturas de José Serra e Aécio Neves à Presidência da República em 2018. E agora ele inicia o embate com aquele que até anteontem havia sido o patrocinador de sua candidatura e eleição para o comando da mais importante capital brasileira. As pesquisas indicam que Geraldo Alckmin não consegue acelerar seu desempenho na intenção de voto, ao passo que Doria vai crescendo em seu intento.

Ao que tudo indica, o gestor da cidade em que vivem mais de 12 milhões de habitantes não vai desistir assim tão facilmente de sua caminhada. Ao contrário, ele avança e se apresenta em ritmo alucinante. Seu capital político pode parecer enorme em razão dos quase 9 milhões de eleitores paulistanos, mas há dúvidas sobre a real capacidade de agregar apoios necessários para tal trampolinagem. Os mais antigos lhe sugerem um pouco mais de cautela - afinal, a fila é longa e a afoiteza não faz parte do código de conduta mais recomendado da política tida como “certinha”.

O candidato anti-Estado por definição

Doria parece incorporar o personagem do cidadão que sempre votou nos tucanos e nos candidatos mais conservadores. Anti-petista por definição, esbanja a verborreia contra as alternativas progressistas e mais ancoradas à esquerda em nossa sociedade. Ele se vangloria, ao circular pelos salões frequentados pela nata da pauliceia, afirmando ter derrotado Haddad e Lula num único pleito. Aproveitando-se da condição de recém ingressado no clube dos eleitos da direita, o prefeito não se incomoda em dizer tudo aquilo que a maioria dos tucanos ocupando cargos públicos guardam ainda um certo receio em assumir integralmente.

João Doria não tem papas na língua. E para se firmar como uma alternativa no cardápio dos preferidos pelos representantes das elites, ele começa a apresentar aquilo que poderia ser chamado generosamente de um programa de governo. Na condição de empreendedor capitalista de natureza tupiniquim, fez sua fama e sua fortuna graças aos bons laços estabelecidos com a administração pública e seus ocupantes em todas as esferas do poder. No entanto, a exemplo de Eike Batista e tantos outros, cospe no prato em que comeu e constrói sua falsa imagem construída de trajetória de empreendedor livre, eficiente porque privado e profundamente anti Estado.

O aprendiz de político pretende pular algumas etapas, dá um jeitinho de escapar da fase do estagio obrigatório e acha que já pode ingressar direto no grupo dos que fingem ter ralado muito para terem o direito de escolher o cargo que pretendem disputar no ano que vem. E aí a ciumeira corre solta, pois todo ritual tem seus códigos de conduta e não são bem vistas as malandragens de furar a fila de forma escancarada. Afinal, quem esse moleque que mal chegou na semana passada pensa que é?

Por outro lado, a frustração do eleitorado conservador com a mesmice tucana vai se tornando evidente. A maioria se lembra das vacilações de Geraldo Alckmin nas eleições presidenciais de 2006, quando a imagem de “picolé de chuchu” colou de vez e não mais soltou. Em seguida, as gestões locais e estaduais comandadas pelo PSDB também promoveram um desgaste de material pelo País afora. Por mais que estejam em busca desesperada por um candidato anti Lula para chamar de seu, os eleitores da centro direita parecem não se entusiasmar como antes pelo governador de São Paulo.

Doria : nem Alckmin, nem Bolsonaro

A tarefa de Doria exige que seja estigmatizada a candidatura de Bolsonaro como a extrema-direita a ser evitada e sugere a oferta de seu próprio nome para ir ao sacrifício, considerando a incapacidade eleitoral de Alckmin. Um dos problemas é que a gestão da capital paulista não está se convertendo na bela vitrine que ele imaginava carregar pelos quatro cantos de nosso território. Além de pouco conhecido nas demais regiões, ele corre o risco de estar associado a um mandato frustrante em seu próprio campo de atuação.

Assim, para empolgar a torcida ele começa a se apresentar como o candidato de confiança dos que pretendem manter e aprofundar as mudanças experimentadas desde o golpeachment. Porta voz da corrente empresarial que se bate contra a presença do setor público na economia, o neo prefeito vai fundo em suas observações. Ao contrário da maioria dos chamados “grão-tucanos”, Doria não tem maiores problemas em dizer abertamente o que pensa a respeito da necessidade de avançar ainda mais na tarefa do desmonte do Estado brasileiro. Ainda está na memória de muitos a imagem de 2006, quando Alckmin teria se acovardado na disputa contra Lula. O picolé optou pelo recuo naquela campanha e adotou uma postura defensiva, chegando mesmo a garantir que não privatizaria a Petrobrás ou os bancos públicos federais.

Privatizar a Petrobras e esmagar bancos federais

Doria não tem papas na língua. Agora já defende abertamente uma tática mais ofensiva do que a própria conduta dos tucanos ocupando cargos estratégicos no interior do governo Temer. Com relação à Petrobras, por exemplo, o candidato a candidato tem afirmado por diversas vezes e com todas as cores que vai privatizá-la caso seja eleito presidente. Em declaração mais recente a respeito do tema, ele afirmou que a nossa maior empresa estatal “pode gradualmente caminhar para sua privatização sem prejuízo funcional, humano ou estratégico para o Brasil”.

Ao tratar de outro assunto ainda considerado tabu pelos tucanos mais cautelosos, Doria mal esconde seu apetite privatista. Avança deliberadamente o sinal no debate defensivo e propõe de forma explícita a fusão dos dois maiores bancos públicos federais - o Banco do Brasil (BB) e a Caixa Econômica Federal (CEF).

“Respeitando as duas instituições, podemos avaliar a hipótese de uma fusão, sem gerar desempregos, mas formando um banco de altíssima competitividade e extrema competência em setores que já atua, inclusive evitando a sobreposição e o uso político também.”

É importante lembrar que não se trata de desvario ou de mera jogada de marketing do prefeito que adora se fantasiar de gari. Esses são objetivos especiais da turma do financismo, que enxergam na privatização desses poderosos ativos públicos um passo essencial na nova etapa do desenvolvimento capitalista em nosso País. Transferir um patrimônio da dimensão da Petrobras aos grandes conglomerados petrolíferos e financeiros, especialmente em momento de recessão econômica, pode representar um novo espaço para o processo de acumulação privada de capital. Para além dos ganhos imediatos no processo de venda a preços desvalorizados, trata-se de oferecer ao setor privado o destino das decisões do futuro de setor tão estratégico como a da energia.

Doria: aprofundamento do desmonte

O mesmo raciocínio pode ser aplicado para o sistema financeiro. É mais do que sabido o quanto incomoda a finança privada ter que disputar espaço com os dois gigantes públicos, para além do BNDES e demais bancos de desenvolvimento regional. Com a proposta da fusão do BB e da CEF, abre-se o espaço para a intenção estratégica verdadeira: aniquilar a presença do setor público na área financeira a médio prazo. Para esse pessoal, não basta que os bancos federais atuem como meros concorrentes de Bradesco ou Itaú, como já vem ocorrendo há muito tempo. A sanha privatista exige que seu patrimônio seja transferido ao capital privado. Estes senhores não se contentam em que a gestão desses bancos públicos seja privatizada - desejam a eles o mesmo destino concedido à Vale e à Embraer.

Dória não tem papas na língua. As propostas audaciosas do prefeito reposicionam o debate no campo conservador e permitem consolidar a destruição definitiva da alternativa de políticas públicas voltadas ao desenvolvimento e à inclusão. O retrocesso iniciou pelo austericídio, continuou com a Emenda Constitucional do congelamento dos gastos, avançou com a reforma trabalhista e ainda pretende implementar a reforma previdenciária. Talvez a cereja do bolo seja a privatização da Petrobrás e dos bancos federais.

Por essas e outras razões é que se revela urgente a ação imediata de reação ao desmonte patrocinado pelo governo Temer. Esperar passivamente as eleições do ano que vem, com a ilusão de eventual devolução do poder por parte do grupo que se apossou do Planalto por meio do “putsch” de 2016, pode comprometer o futuro de um Brasil democrático, popular e soberano.

* Paulo Kliass é doutor em Economia pela Universidade de Paris 10 e Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, carreira do governo federal.









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