Brasil

12 de setembro de 2017 - 15h45

O inconsistente e perigoso "radar gay"

Imagem do estudo que supostamente mostra traços faciais homossexuais e heterossexuais Imagem do estudo que supostamente mostra traços faciais homossexuais e heterossexuais

A inteligência artificial pode determinar se alguém é heterossexual e homossexual através de seus traços faciais com maior precisão do que uma pessoa. Essa é a polêmica conclusão de um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Stanford, segundo o qual um algoritmo de computador pode distinguir se um homem é gay em até 91% dos casos e se uma mulher é lésbica em 83%, uma porcentagem sensivelmente superior ao olho humano, que acerta 61% e 54% das vezes respectivamente, de acordo com a pesquisa.

O estudo, que foi mencionado pela The Economist e que será publicado no Journal of Personality anda Social Psychology (Revista de Personalidade e Psicologia Social), é controverso não só pela invasão na intimidade que significa a possibilidade de se detectar a orientação sexual com uma máquina – imaginem o que aconteceria nos países onde a homossexualidade é proibida se o uso dessa espécie de radar gay se estender – como pelo fato de associações LGBTI+ (lésbicas, gays, transgêneros, bissexuais e intersexuais) o criticarem pelas limitações que apresenta: a amostragem com a qual foi realizada a pesquisa, um total de 35.326 imagens faciais, é toda de pessoas brancas e foi retirada de um site de encontros.

“A tecnologia não pode identificar a orientação sexual de alguém. O que sua tecnologia pode reconhecer é um padrão que encontrou em um pequeno subconjunto de pessoas brancas homossexuais que se parecem em um site de encontros”, criticou Jim Halloran, diretor digital da GLAAD, a Aliança Gay e Lésbica contra a Difamação. O estudo, realizado por Yilung Wang e Michal Kosinski, não incluiu em sua amostragem pessoas negras e asiáticas, por exemplo, como também não colocou transgêneros, bissexuais e idosos. “Não é surpreendente que pessoas homossexuais que escolham se inscrever em um site de encontros publiquem fotos de si mesmas com expressões e estilos semelhantes”, acrescentou Halloran.

Mas essa não é a única fragilidade do estudo. Os autores basearam sua investigação na teoria hormonal pré-natal como origem da homossexualidade. De acordo com essa teoria, os fetos masculinos expostos a menos andrógenos o que o normal – o hormônio que induz o surgimento dos caracteres sexuais secundários masculinos –, resultarão em um menino gay, e os fetos femininos expostos a mais andrógenos, em uma menina lésbica. Segundo os pesquisadores, uma vez que os andrógenos são responsáveis pelo dimorfismo facial, a teoria hormonal pré-natal prevê que “as pessoas homossexuais terão traços de gênero atípicos”, ou seja, os homens homossexuais apresentarão traços mais afeminados e as mulheres, mais masculinos.

Mas, mesmo que essa teoria, que tenta explicar a origem da homossexualidade, “esteja bem propagada” como argumentam os autores, não é a única que existe. Um estudo sobre a relação da epigenética e a homossexualidade – combina a teoria hormonal com a genética – publicado pela revista da Universidade de Chicago em dezembro de 2012 afirma que “ainda que os níveis pré-natais de andrógenos desempenhem um papel fundamental no desenvolvimento sexual, existem também evidências de que o paradigma pré-natal de andrógenos é parcialmente incompleto”.

Os autores da pesquisa reconhecem essa fraqueza. “Nós também conhecemos homossexuais muito masculinos e lésbicas muito femininas. Também conhecemos homens bem idosos, o que não invalida que estatisticamente as mulheres vivam mais”, se defendem.

Além do fato de que fosse realmente possível que o algoritmo possa identificar até 91% de homossexuais, as associações defensoras dos direitos LGTBI+ criticam que 9% dos heterossexuais seriam identificados de maneira errônea. E voltam a frisar o perigo dessa pesquisa: “Em um momento em que as minorias estão sendo atacadas, esses resultados imprudentes podem servir como arma para prejudicar tanto heterossexuais que são erradamente expostos como gays e lésbicas que se encontram em situação de perigo”, denuncia a GLAAD. Mas, de acordo com os autores do estudo, um de seus objetivos é justamente esse, “alertar” contra os perigos da inteligência artificial e sua invasão na vida íntima das pessoas.



Fonte: El País

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