Brasil

12 de setembro de 2017 - 9h38

As prisões de Joesley e Saud: quanto vale uma delação?

Reprodução
   

No pedido efetuado na sexta-feira (8), ainda constava o nome do ex-procurador da República Marcelo Miller, que figurou nas conversas dos executivos como contato dentro da PGR a fim de facilitar acordos de delações premiadas. O procurador-geral também já adiantou que o acordo de delação de Joesley será revisto diante das novas evidências.

Janot foi alvo de críticas após firmar a colaboração do dono da J & F pela quantidade de benefícios concedidos. Para o deputado federal e advogado Wadih Damous, o procurador-geral, que deixa seu cargo no próximo dia 19, foi “talvez o pior da história”. “Marcelo Miller era um homem de estrita confiança de Janot, seu braço direito. Para quem não sabe, Miller era assessor direto dele, envolvido na Operação Lava Jato, e deixou seu cargo para advogar para a JBS”, lembra.

“Ao contrário do que acontece com o Lula e os demais delatados, a denúncia contra Temer tinha certa materialidade, áudio e mala de dinheiro. De qualquer maneira, as delações não têm credibilidade. É engraçado que diferente de certas pessoas que são algemadas em plantão na Globo, com essa turma não aconteceu nada disso. Está parecendo que é tudo encenado e essa turma daqui a pouquinho sai da cadeia”, avalia. “O Janot tem que ser investigado, toda a condução que ele e seus auxiliares tiveram neste caso e na Lava Jato como um todo deve ser investigada. Há indícios de crime”, completa.

A mudança de comportamento do procurador-geral diante dos empresários aconteceu após o surgimento de fatos que foram omitidos na delação premiada, como o envolvimento do ex-procurador, que teve seu pedido de prisão negado por Fachin.

Presos, Joesley e Saud passaram a noite na sede da Polícia Federal em São Paulo. No início da tarde desta segunda-feira (11), ambos foram transferidos para Brasília. Joesley, abatido, carregava um terço nas mãos durante todo o trajeto da PF até o aeroporto de Congonhas, onde decolou, ao lado de Saud, por volta das 14h.

A natureza do pedido de prisão expedido é temporária, mas pode ser estendida. Em Brasília, os executivos devem permanecer pelo menos até sexta-feira (15) em uma cela de 9 metros quadrados sem chuveiro quente ou vaso sanitário. O advogado de defesa de Joesley e Saud, Antônio Carlos Almeida Castro, o Kakay, criticou a prisão dos delatores. “Os clientes prestaram declarações e se colocaram sempre à disposição da Justiça. Esse é mais um elemento forte que levará à descrença e à falta de credibilidade do instituto da delação”, disse.

Uma cerveja antes da prisão

Outro fato que chamou a atenção do noticiário político do feriado foi uma foto divulgada nas redes sociais de Janot sentado em um bar – na prática, uma distribuidora de bebidas –, de óculos escuros, degustando de uma cerveja na companhia do advogado Pierpaolo Bottini, que defende Joesley. O encontro aconteceu no sábado (9), um dia após o procurador-geral pedir ao ministro Fachin a prisão dos executivos Joesley e Saud. Em nota, Janot confirmou o encontro, que teria sido “casual”, mas disse que nenhum assunto ligado ao processo foi discutido, apenas “amenidades”.

Damous ironiza a situação. “Afinal, quem nunca tomou uma cervejinha no botequim da esquina com o procurador-geral da República dias antes de julgamento do seu caso na pauta do STF?”

Na manhã de terça-feira (12), a Polícia Federal deflagrou a Operação Bocca, que cumpriu quatro mandados de busca e apreensão em São Paulo e um no Rio de Janeiro, todos estes ligados à coleta de documentos e áudios relacionados à prisão dos executivos Joesley e Saud. Além da casa dos delatores, o ex-procurador Marcelo Miller também recebeu a visita da PF.

“Desde a Idade Média, acredita-se que se alguém contar uma mentira com a mão na boca de uma escultura, ela se fecharia mordendo a mão do mentiroso”, disse em nota a PF sobre o nome da operação, que vem de uma imagem esculpida em mármore localizada em uma praça de Roma, chamada La Bocca della Verità. A PF espera encontrar novas evidências e mais fatos omitidos pelos delatores.

Em relação à delação de Joesley, Fachin determinou a suspensão parcial e cautelar da parceria, algo que ainda pode ser revertido. Sobre a validade das provas, o ministro determinou que a Corte do STF deve debater o caso. Janot defende que as provas permanecem válidas, entretanto, existe outra corrente jurídica que defende a tese da “árvore envenenada”, compreendendo que a presença de um fruto contaminado destrói toda a árvore, ou o processo, no caso.



Fonte: Rede Brasil Atual

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