Brasil

11 de setembro de 2017 - 19h42

O conservadorismo por trás do cancelamento da exposição Queermuseu

Tadeu Vilani
   

A mostra estava em cartaz desde o dia 15 de agosto, e deveria assim permanecer até o dia 8 de outubro, não fosse pelos ataques nas redes sociais e constrangimentos presenciais contra os visitantes. Segundo a Rede Brasil Atual, Paula Cassol, advogada e coordenadora do MBL no Rio Grande do Sul, afirmou que “não acreditamos que as obras de Queermuseu sejam um tipo de arte e muito menos que as crianças tenham acesso a esse tipo de coisa”, dando a si mesma a condição de crítica de arte apesar de não ser reconhecida como tendo qualificação para exercer tal função.

A "Queermuseu" teve como proposta dar visibilidade a questões do universo LGBT presentes na sociedade e na cultura, assim como promover uma revisão de obras e artistas marginalizados. 

A exposição apresentou cerca de 270 trabalhos assinados por 85 artistas, entre eles alguns de renome como Leonilson e Lygia Clark, em suportes como pintura, gravura, fotografia, serigrafia, desenho, colagem, cerâmica, escultura e vídeo. As obras integram coleções públicas e privadas brasileiras. Em alguns desses trabalhos a sexualidade é tratada de maneira explícita e em outras, de forma abstrata.

O Santander Cultural cedeu à pressão dos grupos conservadores, cancelando a exposição antes da data prevista e emitindo uma nota em que pediu “sinceras desculpas” a todos que se sentiram ofendidos pelas obras expostas. “O objetivo do Santander Cultural é incentivar as artes e promover o debate sobre as grandes questões do mundo contemporâneo, e não gerar qualquer tipo de desrespeito e discórdia. (...) ouvimos as manifestações e entendemos que algumas das obras da exposição Queermuseu desrespeitavam símbolos, crenças e pessoas, o que não está em linha com a nossa visão de mundo. Quando a arte não é capaz de gerar inclusão e reflexão positiva, perde seu propósito maior, que é elevar a condição humana”. 

Contudo, a exposição procurava na verdade a inclusão da arte LGBT e a reflexão sobre o assunto. Apesar de ter cancelado a exposição, o banco afirmou que “não chancela um tipo de arte, mas sim a arte na sua pluralidade, alicerçada no profundo respeito que temos por cada indivíduo” e que segue “comprometido com a promoção do debate sobre diversidade e outros grandes temas contemporâneos”. 

O curador da mostra foi Gaudêncio Fidélis, que também foi curador-chefe da 10ª Bienal do Mercosul, em 2015. Ele declarou ao jornal Zero Hora não ter sido consultado pelo Santander sobre o encerramento da exposição. "Eu não fui consultado em nenhum momento sobre isso e ninguém do Santander entrou em contato comigo ainda. Sou absolutamente contra o fechamento". 

A censura e a pré-definição do que é arte 

Segundo a ensaísta, professora e curadora Ivana Bentes, em artigo sobre publicado na Revista Cult, “a pressão veio de movimentos religiosos, seguidores do MBL que postaram em suas páginas matérias, textos e vídeos incitando o ódio, acusando o curador de perversão, ameaçando e agredindo verbalmente os visitantes e artistas em nome da moral e dos bons costumes”. “Os pseudo ‘liberais’ atacam não só a liberdade de expressão, mas demostram uma vasta ignorância em relação às formas disruptivas da arte falar sobre comportamento, crenças e valores. O nome disso não é liberalismo, é fascismo, literalmente”. 

Ivana compara a ação dos grupos (“patrulha fundamentalista”) que censuraram a exposição com o Partido Nazista na Alemanha em 1930, que perseguiu o que considerava “arte degradada”. Picasso, Matisse e Mondrian teriam sido alguns dos artistas execrados. Ela conta ainda que uma exposição ridicularizando as obras modernistas foi inaugurada na Munique nazista, para inflamar o ódio da opinião pública. 

“Os movimentos fundamentalistas e os “liberais” brasileiros estão usando essa mesma estratégia nas redes, alimentando um exército de zumbis que veem “pornografia” e “depravação” em qualquer proposta que trate de diversidade, gênero, questões de comportamento e temáticas LGBT”, afirma Ivana Bentes . “O direito de “não ver” é muito fácil de ser exercido em uma exposição. Basta não frequentá-la ao ser alertado de seu “conteúdo adulto” ou violento. Mas para os fundamentalistas é preciso censurar, impedir e destruir o direito de ver. (...) Podemos criticar o “mau gosto”, podemos entender o incômodo com a arte e suas “ofensas”, mas desejar e propor a supressão e eliminação do outro; censurar, ameaçar, cancelar uma exposição que se dispõe a discutir questões contemporâneas é algo assustador”, acrescenta. 

Manuela D’Avila, jornalista e deputada estadual do Rio Grande do Sul pelo PCdoB, declarou em depoimento para o Portal Vermelho que “o cancelamento da exposição pela direção do Santander, cedendo à mobilização que, inclusive, contou com agressões físicas por parte dos integrantes do MBL, é um retrocesso gigantesco”. 

Segundo ela, a ação abre espaço para que a “patrulha e a censura prévia de fato aconteçam em exposições dessa natureza devido ao medo das instituições em receberem obras que promovam polêmica”. 

Para a deputada, o argumento de que as obras de Adriana Varejão e outros artistas brasileiros faziam apologia a crimes sexuais como o caso da pedofília é completamente absurdo. “É mais ou menos como dizer que todos os filmes da produção cinematográfica mundial que tratam sobre estupro não poderiam existir porque estupro é um crime. É algo absolutamente primário, de quem não foi na exposição e não conhece as 270 obras que estão lá expostas; o objetivo é apenas criar uma polemica em torno da exposição”. 

Sobre a acusação do MBL de “usar a Lei Rouanet para financiar pornografia”, Ivana Bentes mostra que, na verdade, a situação é o contrário: “em um momento extraordinário da cultura brasileira, essas obras e esse tipo de exposição nos fazem pensar, refletir e questionar sobre a intolerância, o preconceito, a violência diante do outro e diante das diferenças”. Ela finaliza seu artigo reiterando que o ocorrido é reflexo dos retrocessos que vem acontecendo no Brasil. “Esse ato de ódio e intolerância contra artistas, contra obras, contra sujeitos que lutam para se expressar é o signo não de uma “arte degenerada”, mas de uma sociedade doente que não suporta a democracia, que não suporta a existência dos outros! ”. 

O equívoco de qualificar o que é ou não arte sem levar em conta a opinião de artistas, pesquisadores, curadores, museólogos, teóricos, críticos e historiadores, profissionais sérios e dedicados à arte já entrou em debate quando o prefeito de São Paulo João Dória (PSDB) pintou de cinza, no início de 2017, diversos muros grafitados da capital, relacionando erroneamente arte de rua com vandalismo. 

Quando obras da Queermuseu, assim como os grafites paulistanos, são desqualificadas como arte, ocorre a invisibilização de reflexões e a diminuição da importância do modo como certos grupos enxergam o mundo contemporâneo, visão esta muitas vezes expressa própria na arte. Além disso, na maioria das vezes esses grupos são pouco representados no grande fluxo comercial artístico, como é o caso da comunidade LGBT. 



Confira as fotos das obras que estavam expostas na mostra: 

Exposição Queermuseu


* estagiária no Portal Vermelho 

Do Portal Vermelho 

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