Brasil

10 de setembro de 2017 - 8h33

Uma entrevista histrica com Tim Maia

   

Era o incio do primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso como presidente. O Plano Real completava um ano, com governo e populao comemorando a queda da inflao − de 40% para os ento quase inacreditveis 2% ao ms; o real em paridade com o dlar e a consequente farra da classe mdia no exterior. Era 1995 e a msica brasileira chorava a recente perda de Tom Jobim (em dezembro de 1994), enquanto os Mamonas Assassinas dominavam o rdio e a TV. Em um apart-hotel dos Jardins, em So Paulo, Tim Maia recebia os jornalistas Marcio Gaspar e Lauro Lisboa Garcia para uma entrevista cujo mote era o lanamento do disco Nova Era Glacial. Lauro, reprter do “Caderno 2″ de O Estado de S. Paulo, que publicaria poucos dias depois alguns trechos da conversa; e Marcio, da Qualis, efmera revista especializada em msica, que fecharia suas portas antes da publicao da entrevista.

A maior parte da memorvel conversa com Tim Maia, que morreria trs anos depois (em 15 de maro de 1998, aos 56 anos), permanecia indita at agora. possvel ouvir trechos da entrevista nno blog www.afroencias.com.br. Os jornalistas encontraram um Tim Maia surpreendentemente bem disposto s 9 horas daquela manh. E como era de seu feitio, o cantor no mediu as palavras. Alm do imenso talento musical, a autenticidade de Tim Maia era outra de suas melhores qualidades.

Marcio Gaspar – Que histria essa de acordar to cedo? Nova fase, bem mais saudvel?

Tim Maia - No, sempre acordei cedo. Mas agora, t acordando cedo mesmo porque… eu acho que isso negcio de velhice, sabia? Que nem galo. Galo velho empoleira cedo, n? E acorda mais cedo. Acho que isso, deve ser a idade. Eu sempre acordei cedo… s vezes, nem dormia (risos).

M.G. – Voc costuma ouvir seus discos antigos?

T.M. – T ouvindo agora… o maior barato, sabia? Como sou um cara que sempre grava msicas falando de algo que aconteceu, a d pra lembrar. Lembrar das “cumadizinhas, dos momentos legais e dos momentos tristes tambm.

M.G. – Entre esses discos, qual voc acha o mais legal?

T.M. - O cantado em ingls (Tim Maia, 1978) o que eu gosto mais.

Lauro Lisboa Garcia – Nesse novo disco, voc gravou “Corcovado e “Meditao em ingls, e j tinha gravado as duas em portugus. Por que gravar em ingls?

T.M. – Foi uma homenagem ao Antonio Carlos Jobim. Essa verso que est saindo a tem cinco anos. A voz em portugus, gravei em cima da voz que havia colocado em ingls. essa a, no Tim Maia Bossa Nova. Eu tenho isso em CD tambm, mas lancei pela Vitria Rgia (selo do prprio Tim). Foi o nico disco que no dei pra Continental. Aquilo ali minha aposentadoria, entendeu?

L.L.G. – Vendeu bem esse disco?

T.M. – Vendeu. Eu sempre digo que vendeu menos, que nem as gravadoras falam pra no pagar direitos autorais. Eu tambm digo que vendeu menos. E no tem jeito de provar, n? Nem eles.

M.G. – Quantos discos voc calcula que j vendeu at hoje?

T.M. - Acho que bem menos que Chitozinho e Xoror, viu? O Roberto (Carlos) tambm vende mais. Mas, mais ou menos que nem Jorge Ben, Fbio Jr., a gente vende assim, igual, na mesma base. Cem mil discos, cada disco. Ainda bem.

M.G. – Aquela fase da BMG vendeu pra caramba, n?

T.M. – No. Vendeu mais ou menos porque a BMG que nem aquele produto, Denorex (xampu anticaspa): “, mas no . A BMG faz mais disco pra outras pessoas. Aquela fbrica de discos que fabrica para outros, j no mais aquela coisa do idealismo… Quer dizer, idealismo artstico nenhuma delas tem mais.

L.L.G. – Tim, como ficaram os seus direitos em relao aos discos que voc produziu pela Seroma (a editora do cantor)?

T.M. – Olha bem, esses discos que esto sendo lanados pela Continental/Warner so discos que eu autorizei e estou ganhando uma mnima porcentagem, aquele levadinho que a gente ganha sempre. A Polygram lanou sem autorizao. Eu t com duas aes contra a Polygram. Uma pro primeiro disco, aquele A Arte no sei qu (A Arte de Tim Maia, 1988). E agora, onze CDs… Eles lanaram um CD meu agora… Meu no, nosso, do Cassiano, Hyldon e eu. So os “reis do grilo. Esse disco devia se chamar “Os reis do grilo, porque eu sou o rei do grilo, o Cassiano o deus do grilo e o Hyldon o grilo (gargalhadas). E agora, lanaram mais um grilado tambm, botaram mais um: Luiz Melodia. Alis, esse CD – foi disco e virou CD -, Tim Maia, Hyldon e Cassiano, tem na capa uma fotografia de natureza. Interessante… acho que acharam a gente feio demais, acharam parecido com assaltante. Sei que, porra… no colocaram nem a cara da gente, achei aquilo to… a Polygram… eles fazem isso. A Sony Music tambm. A Sony pegou agora uns direitos que tinha que pagar para a Seroma e pagou diretamente aos compositores, o Michel e o Gilson (Mendona, autores de “Descobridor dos Sete Mares). P, deu m confuso, tive de acionar eles tambm, briguei com os compositores. Logo aps, o Lulu Santos grava a mesma msica, estoura. Washington Olivetto colocou num negcio da Rider a, tocou. muito relativo isso, entendeu?

L.L.G. - Mas, voc no achou ruim o Lulu Santos regravar “Descobridor dos Sete Mares, n? Voc j tinha gravado uma msica dele (“Como uma Onda)…

T.M. – No, no. Quer dizer, esse lance da W/Brasil era isso: eu gravaria uma msica do Lulu Santos, depois ele gravaria uma msica minha. S que o Washington escolheu essa msica e no procurou saber se a msica era minha ou no. A msica de Gilson e Michel. A, deu uma confuso e eu j tava em atrito com eles, n? Devido a uma gravao da Deborah Blond, Bland, Blondor…

M.G. – Deborah Blando.

T.M. - Deborah Blando. Ela gravou essa msica num disco promocional da Coca-Cola, que vendeu cem mil cpias e criou l R$ 13 mil, R$ 15 mil de direitos. Eles teriam de pagar pra mim os R$ 15 mil para eu tirar meus 25% da editora e pagar aos compositores. A, eles pagaram direto. Aconteceu a mesma coisa com a Som Livre, na msica “Paixo Antiga, que do Marcos Valle e Paulo Srgio Valle. Ento, tem esse lance do desrespeito das gravadoras com os compositores e artistas. Por isso, eu t acionando o Bonifcio Sobrinho (Boni, ento diretor de programao da Rede Globo). E em todas as aes que estamos movendo contra o Bonifcio Sobrinho, o senhor Roberto Marinho est sendo arrolado.

M.G. – Voc est banido da Globo?

T.M. – Eu acho que eles tentaram me banir por algum tempo, mas agora no vai acontecer mais porque eu cheguei concluso que tenho de lutar pelos meus direitos. Eu quero que isso seja um exemplo pra outros artistas. T movendo uma ao criminal e uma ao cvel contra o Bonifcio Sobrinho. Porm, eu me comuniquei com ele antes, dizendo que ns iramos mover a ao, como se faz. de praxe voc chegar e diplomaticamente avisar o cara: “Ou d ou desce!, entendeu? Mandei uma carta pra ele; ele no falou nada. A mesma carta ns endereamos pro Roberto Marinho; ele tambm no falou nada. A, mandamos uma outra carta… Todas essas cartas, registramos em cartrio, pra valer na ordem judicial tambm. Eles no deram a mnima. Ento, agora estamos entrando com uma ao cvel e uma criminal. Porque eu acho que o que ele t fazendo crime, entendeu? T me boicotando. E um boicote assim vitalcio, sacum? No um boicote tipo: “Voc no vai cantar aqui durante trs meses porque voc nos sacaneou. Eles alegam que eu no fui no programa do Fausto Silva e isso tira a moral dele… No tira, ele um ditador. O Boni um ditador. Ele pode me acionar por eu estar chamando ele de ditador, mas tudo bem. O Mariozinho Rocha (na poca, diretor musical da Rede Globo) j me acionou duas vezes. Me acionou criminalmente porque eu falei que ele recebia R$ 10 mil por cada msica que se coloca na novela. A, um cara l do Jornal do Brasil – eu sempre me esqueo o nome dele, o filho da puta do… – me perguntou: “ verdade que o Mariozinho recebe dez?; falei: “No, recebe quinze! (gargalhada). Quer dizer, eu vou acionar eles pra acabar com essa farsa, com essa mentira, que o mundo todo sabe que todo mundo recebe jabacul no Brasil, n?

M.G. – Mas ningum fala.

T.M. – aquele negcio da minha msica (“Nova Era Glacial“), n? “Todo mundo sabe, mas ningum quer dizer. Ento, por exemplo, o Lauro tava falando: “P, voc lanou esse disco (Voltou Clarear, 1994) meio na incgnita, meio na moita.

L.L.G. – No, que o disco saiu e no teve grande repercusso.

T.M. – No teve nada de repercusso porque… voc v a coisa? Essa msica (“Voltou Clarear) t tendo a maior repercusso nos shows. O apelido dessa msica “mel do ltimo a saber. Acho que todo mundo se identifica com esse negcio de corno; o brasileiro o rei do chifre. As mulheres, principalmente, se identificam, porque so chifradas tambm, n? Essa msica no tocou porque no paguei jab pra ningum. Inclusive, a msica anterior, “Como uma Onda, tocou pra cacete. A que eu fiquei sabendo tambm quanto custa o jabacul, n? Os jabs so fortes, cara…

L.L.G. – De rdio?

T.M. - Rdio… rdios que nem tinham isso vivem exclusivamente de jabacul. Porque no a rdio que vive. Quem vive disso so os programadores e os prprios locutores de cada horrio. Acho que o dono da rdio nem ganha nenhum tosto com isso…, mas demais, cara. Tem rdio que pede R$ 40 mil por uma msica.

L.L.G. – Pra tocar por quanto tempo?

T.M. – Um ms. Trinta dias, quarenta mil reais. Mas a, estoura a msica, n? Porque ele executa dez vezes por dia, aquela porra “nhem, nhem, nhem no ouvido do cara… Nas televises, a mesmssima coisa. jab pra todo mundo… O Silvio Santos tem menos. Acho que os programas dele so muito ruins, ento no d pra ele, entendeu (gargalhadas)? O Silvio Santos ruim demais. O Show do Silvio Santos, meu amigo… Outra coisa que eu gostaria de falar, quero mandar um recado pro Caulinha. O Caulinha tinha um conjunto maravilhoso no Canal 7; porra, acompanhava aqueles artistas todinhos: Elis Regina, Jair Rodrigues, esse pessoal todinho. P, um cara muito simptico… o Caulinha super benquisto no meio artstico. No sei por que ele atura aquilo, cara! Agora, colocaram ele com um negcio de chifre, j viu? Tem um chifre na cabea dele, cara! Voc no viu no? Uma vez, botaram ele na geladeira, no sei se voc viu, botaram na geladeira! , um pinguim na geladeira,com aquele pianinho. E fica o Fausto, o programa inteirinho sacaneando o “coiso… E ele mesmo no toca nada naquele programa! Tem uma hora que ele faz: “Toca, Caulinha! (imitando o Fausto Silva): “ o nariz do Caulinha! O Caulinha um babaca!. O Caulinha o saco de esporro, o saco de pancada… P, por qu? Gostaria at de convidar o Caulinha pra tocar com a gente na banda Vitria Rgia; a gente arruma uma sanfoninha pra ele, pode at vir com o pianinho dele, coitado… Ele no precisa daquilo, um cara de renome! Antes do Fausto Silva chegar, o Caulinha j estava a h anos… Acho aquilo to ridculo… Deviam botar o Bonifcio Sobrinho l de chifre e o Roberto Marinho dentro da geladeira. Isso eles no fazem. Fica l o Faustinho puxando o saco do Roberto Marinho. “Oi, seu Robertinho. Como vai, tudo bem? Tudo bem, seu Roberto? Isso uma coisa que denigre a imagem de um msico, saca? O msico fica esculachado, o msico um saco de piadas. Msico pra tocar msica! No pra ficar ali, sendo motivo de chacota.

M.G. – Voc sempre batalhou pelo reconhecimento do msico, sempre exigiu a banda Vitria Rgia em todos os seus shows, contratos, crditos, etc. Mas, ao mesmo tempo, se o cara erra num show, voc j: “Porra, no sei o qu…. Roupa suja no se deve lavar em casa?

T.M. – totalmente espontneo. No tem nada de esporro, no. um toque na hora que me fere. Aquilo me fere. No tem esse negcio de esporro no msico, isso mais folclore. O lance mais com tcnico de som; o msico, no. Agora, quando tem uma mancadinha… Cara, isso totalmente espontneo.

M.G. - que voc toca tudo tambm, n?

T.M. – Toco uns instrumentozinhos. Hoje mesmo estamos com um problema aqui pra programar uma bateria, que m merda. Temos que programar uma bateria porque o baterista “sartou de banda… Esses esporros todinhos que eu dei em msico no chegam nem milsima parte que cada um fez comigo. Oito msicos me acionaram! S um me levou R$ 117 mil, de uma vez s! Cento e doze mil reais porque eu perdi a causa, mais cinco de FGH… FG… FGTS. Outro, que trompetista, sargento dos bombeiros at hoje, me acionou tambm e j levou R$ 100 mil. Tentei lutar e tudo mais… E teve um bebum que chegou agora. Entrou ano passado, totalmente bbado, cado na vala… e eu ainda gastei R$ 5 mil com o advogado do cara. Tem de ver os advogados! Eles achacam mais que os prprios caras! A, o advogado chega: “Vai dar cinquinho. Cinquinho, filho?! “Voc sabe como que . Eu fui acionado por oito msicos! Eu falava com a me de um deles no telefone: “Oi, como vai a senhora?; (fazendo voz de mulher) “Oi, Tim Maia! Toma conta do meu filho. “Pois no, minha senhora. Se a senhora soubesse… j tinha matado e entregado num caixozinho: seu filho t a, eu tomei conta dele. Tinha outro, trombonista, que eu levava o filho em casa. Me acionaram…

M.G. – Mas tem tambm aqueles que esto com voc h bastante tempo, n?


T.M. – Agora no tem mais. S tem o Chumbinho (Paulo Roberto, baixista), porque o Tinho (Joo Batista Martins, saxofonista), que estava h dez anos, saiu semana passada. Porque tinha o show do Tim e tinha o show do Tinho. Isso um problema, sabe? Msico… raro o msico amigo, entendeu? Por exemplo, vou gravar com Os Cariocas agora, semana que vem. Os Cariocas… trinta anos cantando juntos. Cantam porque gostam de cantar, sabe? Eles ensaiam o dia inteiro. Trinta anos juntos e aquele negcio ali, tudo por msica. No de mentira no, tudo por msica, coisa serissima, cara! Isso msico, entendeu? E tem gente que toca h no sei quantos anos… por exemplo, o caso do Caulinha. um timo msico, mas no evoluiu porque s agora comeou a comprar uns tecladinhos. Mas tambm, como que faz? Se sujeita a um negcio daqueles…

L.L.G. - E o pblico da televiso acaba nem sabendo o valor que ele tem.


T.M. – , ele toca bem, um cara musical pra caralho. Ento… o negcio do msico relativo pra caramba, entendeu? Tem uma amiga minha que fala que msico, advogado e pedreiro foda (gargalhada). E verdade, cara! E o nico que trabalha deles – mas que enrola um pouco – o pedreiro. Porque esse ainda faz, pelo menos, o cara faz. Te enrola, mas uma pessoa humilde, que quer te dar uma facadinha a mais porque voc tem mais que ele, n? Mas, advogado e msico, meu filho… Outro dia, numa matria o cara perguntou: “E o negcio dos advogados, como que voc faz?. “Ah, t com trs agora. Eu mando um, outro pra vigiar aquele e aquele pra vigiar o que eu mandei depois. P, os caras ficaram putos comigo l no Rio! A Ordem dos Advogados falou: “, Tim Maia, que negcio esse, rapaz? Voc faz uma declarao dessa, brincadeira. Mando logo trs. E mesmo assim, ainda bem difcil.

M.G. – Voc vai fazer seu songbook ou ainda acha que isso p na cova?

T.M. – meio, n? Songbook no tanto no, mas biografia… que nem aquele especial da Globo que tinha antigamente. Quando o cara j tava bem baleado, a Globo fazia um especial com o cara. A, semana que vem o cara, bum!. A solta o especial, n? O cara morreu uma semana antes, deve estar fresquinho…

M.G. – Como voc entrou naquela histria da seita Cultura Racional, do livro Universo em Desencanto?

T.M. - Fase mstica, n (risos)? Tomei cinquenta mescalinas e queria ser scio de So Francisco de Assis (gargalhadas), paz e amor, aquele negcio de hippie: todo mundo ia a p pra Bahia, aquele negcio “paz e amor, muito LSD… Eu entrei naquela pra tomar umas mescalinas. Papei cinquenta. A, viajei pra cacete e no meio da viagem falei: “Ah, vou virar pra Jesus, Ave Maria (gargalhadas)… A, entrei nessa. A Cultura Racional falava que era uma preparao para a gente entrar em contato com os seres extraterrenos. Eu, como gosto de negcio de ufologia… Sou ligado nessas desde garoto e entrei naquela l pra ver se era isso mesmo, mas no era. Era um negcio de espiritismo, entendeu? Tinha outros artistas: Jackson do Pandeiro, at o Procpio Ferreira, coitado, antes de falecer, entrou na onda do Universo em Desencanto. Aquilo uma loucura… O Lcio Mauro, um bocado de artista, sabe? Altamiro Carrilho… Todo mundo na jogada.

M.G. – Voc no acha que voc deve atrair quem quer armar pra cima de voc por causa da fama de maluco?


T.M. – Claro, justamente. Eles pensam que a gente t dormindo, mas t sempre acordado. Existem vrios empresrios que j armaram pra ganhar dinheiro comigo. Teve um empresrio uma vez, em Campinas, que na hora de entrar no palco, ele falou: “Tim Maia, o seguinte, a – naquela poca o show era duzentos, no sei o que era, mas era duzentos – “te dou cenzinho agora e tu volta pro hotel…. Eu: “Tu t maluco, cara? So quatro da manh!. Nesse dia, foram 32 mulheres pro hospital e ns fomos retirados l do ginsio no tal do ttico mvel. Pessoal muito educado que vai chegando assim: “Filho da puta!. Isso o mnimo que eles falam, n? Era tudo preto ainda. “Vai, crioulo filho da puta! E isso tudo com um cassetete que d choque. Eles encostam o cassetete na pessoa e “tchen!. Mas ns fomos retirados desse clube por um ttico mvel, s cinco horas da manh, porque teve uma porrada geral no clube, porque o cara armou duzentos e no final queria cenzinho, metade do cach. Tem uns caras de show a que so meus amigos at hoje, mas que fizeram um boato que porra… Minha me ainda era viva, foi m problema, minha me passou mal. Disseram que eu tava com cncer no crebro. As pessoas ligavam pra minha casa, uma loucura, at o dia que me mataram mesmo: “Tim Maia morreu. Falaram pra minha irm: “A senhora sabia que seu irmo faleceu?. (Ela): “Meu irmo t dormindo aqui, doido!. Tem essse folclore que uma merda. que nem aquele negcio de dar esporro nos msicos. O que os msicos arrumaram de confuso ningum fala. Eles j me levaram quase R$ 400 mil, cara. Troo pra voc comprar trs apartamentos. O meu carro um Monza, cara. Poderia estar com um Mitsubishi 446, um BMW, bl bl bl, e t pagando msico, R$ 100 mil cada um. Esse dos R$ 117 mil foi foda. Sabe o que o cara te levar R$ 117 mil? Dinheiro que eu economizei minha vida inteira! Fui acionado por oito msicos. Eu tentei tudo. Sabe o que eles falaram pra mim? “Tim Maia, voc perdeu o prazo. Prazo?! Tinha vez de ter dois julgamentos numa tarde s. Tinha de arrumar dois advogados…

L.L.G. – Seis, no caso, n?

T.M. – Seis! S com esse processo a dos msicos, eu j me envolvi com uns 12 advogados. A gente vai tentando empurrar com a barriga, n? Mas no tem jeito.

L.L.G. - Voc tem composto mais. Queria que falasse um pouco dessas ltimas msicas e principalmente dessa “Nova Era Glacial.


T.M. – “Nova Era Glacial uma msica que fala sobre uma possvel ou provvel era glacial. Acredito que vai esfriar porque a gente v as notcias a e nota que o negcio t mudando. Eu acho que ns estamos entrando numa nova era glacial. Existe at uma polmica entre os cientistas a: uns dizem que a Terra est esquentando. Mas eu acho que est esfriando. Esse aquecimento justamente um aquecimento pra vir o frio. E parece que o negcio vai esfriar mesmo. No sei daqui a quanto tempo, entendeu? nesse milnio agora. Eu no t prevendo nada, mas “derrepentemente nesse milnio eu tenho certeza que vai ter uma nova era glacial. Mas tem tempo pra caralho.

L.L.G. – De onde voc concluiu isso?

T.M. – Os cientistas, esses arquelogos, esse pessoal a, acham que ns j passamos por uma era glacial. Outros dizem que passamos por… Eu acredito que ns j passamos por umas quatro ou mais, devido ao tempo que o mundo tem. O ser humano tem 60 mil anos. A Terra tem quatro bilhes. Ento, eu acredito que ns j passamos por vrias eras glaciais, dilvio, Arca de No. Arca de No foi um grande dilvio, n? E me parece que est acontecendo a mesma coisa. Esse efeito estufa, esse negcio de camada de oznio, sabe como que ? Isso t esquentando pra depois esfriar. Eu acredito que seja isso. uma coisa intuitiva, n? Mas tambm muitas pessoas defendem essa tese; no sou eu s. Existem milhares de cientistas que acreditam que o mundo est entrando numa nova era glacial.

L.L.G. - Voc tem interesse por cincia?

T.M. - Meu interesse totalmente ufolgico, transcendental. Eu no tenho interesse por nada daqui. Acho que aqui t muito confuso… Eu tava falando ontem aqui com outros reprteres de uma outra revista a, que existem seres intraterrenos, cara. Isso a comprovado, isso a todo mundo sabe. Existem seres que habitam o centro da Terra. Existem pessoas que acreditam em astrologia, essas coisas que no tm nada a ver. Astrologia no tem nada a ver com nada! Porra, astrologia uma coisa rabe, eles olharam para as estrelas e concluram que no sei que l, no sei que l, baseados em qu, cara? Que a Terra seria o centro do Universo. A, viram que no nada disso, apenas um Roberto Marinho, um Paulo Maluf, um Roberto Carlos, um Tim Maia, um Maguila, um ninho onde moram essas coisas, essas pessoas. P, Erasmo Carlos, esses negcios assim. um ninhozinho, um negocinho, uma bolinha onde moram esses bobes a. E o troo grande. Eu falei aqui ontem disso para os reprteres: ns somos visitados por noventa seres diferentes, de diversas galxias, diversas dimenses e existem outras coisas! Existem seres do futuro, mas a j uma outra coisa. O que eu t falando coisa atual, seres extraterrenos de outras galxias. E seres que vm da nossa prpria Terra, que habitam o centro da Terra. Eles se chamam os lunares. So seres brancos porque eles no veem o Sol. O que no verdade mesmo tomar ayahuasca e dizer que Santo Daime – isso a m mentira, viu (risos)? ayahuasca mesmo, aquilo m viagem! Sorvete vira beterraba, helicptero vira mquina de passar roupa, morou? E do pra criana. Isso a, no. Faz um mal tremendo ao fgado! Pior troo que tem pro fgado a chacrona, que eles chamam de Santo Daime. De Santo, o Daime no tem nada! Chama-se ayahuasca, os ndios adoram! Toma aquela porra, fica viajando pra caralho. A, isso no tem nada a ver com a realidade, isso a j uma coisa totalmente mstica mesmo – uma erva que faz voc viajar, pensando que aqui t aqui e aqui no t, t l. E fica aquela confuso do cacete. Eu digo assim, conscientemente, caretinha, sem tomar nada, sem nenhum ritual, sem incenso – tambm no tem incenso – nem batidas de matraca. Ento, o negcio totalmente cosmolgico, verdade mesmo. Eu tava falando pros caras ontem que existem mulheres a que j transaram com seres estranhos, tem de tudo por a.

L.L.G. – Eu achei um compacto simples seu, em ingls. Era s Tim. Sem sobrenome. Aquele foi seu primeiro disco?


T.M. – Foi o primeiro, gravado aqui em So Paulo, pela Fermata.

L.L.G. - Isso foi antes de voc ir para os Estados Unidos?


T.M. – No, foi quando eu voltei.

M.G. - Quando voc foi pra l, afinal?

T.M. – Fiquei trs anos sem falar uma palavra em portugus. Eu fui em 1959 e voltei em 1964.

M.G. – Voltou ou foi “voltado, Tim?

T.M. – Fui voltado. Mas j t bem, t com quatro anos de visto no meu passaporte, j fui pra l trs vezes depois que fui deportado. Mas fiquei dez anos sem poder voltar. A minha relao com os Estados Unidos totalmente emocional, sentimental; no tem nada a ver com ganhar dinheiro, com carreira, nada disso. Talvez no futuro…

M.G. – Mas acho que daria o maior p uma carreira l, n?

T.M. – Eu acho que daria.

L.L.G. – Voc j pensou em lanar esse disco em ingls nos Estados Unidos?


T.M. – Pois . Esse eu t regravando pra lanar l. J gravei muito em ingls, msicas minhas e de outros, mas gostaria de gravar mais ainda. Alm dessas de bossa nova, porque essas da bossa nova… Eles fizeram umas letrinhas assim muito intelectualizadas “quiet nights of quiet stars“… P, ningum fala isso em ingls. O cara fala “baby I love you, “come back to me, “don’t go away.

L.L.G. - Dessas que voc escolheu pro segundo disco de bossa nova, voc vai cantar alguma em ingls?

T.M. – No, tudo em portugus. Porque no funciona isso. Tem de ser em portugus aqui e em ingls pra eles l fora.

L.L.G. – Voc disse tambm que queria evitar gravar msicas que o Joo Gilberto j tivesse gravado. isso?

T.M. – No, isso brincadeira, s sacanagem. Eu acho o Joo Gilberto um excelente msico e cantor, mas de personalidade, acho ele assim… quatro-quatro-meia. Quatro-quatro meia uma frao; 4,46, no chega a ser cinco. T entre o quatro e o cinco – quatro-quatro-meia.

M.G. – Como rolou o lance de gravar com a Elis?

T.M. - Com a Elis Regina, eu j havia gravado dois compactos. E o Erasmo, a Rita, o Serginho e o Arnaldo, dos Mutantes, me levaram pra Polygram. Quando eu cheguei l, o pessoal j me conhecia, j sabia o jeito que eu cantava, eu j tava com as msicas prontas, j tinha rolado o lance com o Cassiano. Tanto que eu gravei “Primavera em agosto de 1969 e tentei de tudo pra soltar o disco na primavera, mas saiu em janeiro de 1970. A, aquele puta janeiro fervendo e eu cantando “ primavera… a 40 graus. Mas a estourou. Quando estourou, o pessoal da gravadora me chamou: “Tim Maia, rpido, vamos gravar um LP. Aquela coisa de gravadora, n?

L.L.G. - Da, desse primeiro LP, tocou praticamente tudo.

T.M. – No Rio de Janeiro, ficamos 22 semanas em primeiro lugar. Por isso, eu acho que vendi mais do que 200 mil.

M.G. - E da pintou a gravao com a Elis?

T.M. - Foi uma armao do Nelson Motta, do falecido Ronaldo Bscoli, do Miele… saiu no disco dela. Mas uma coisa que eu no achei legal, e que ainda vem um monte de gente hoje me perguntar: “Elis Regina te lanou? Pera, eu que lancei Roberto Carlos, como que pode ela me lanar? Vamos com calma. Mas a saram com essa: “Elis Regina lana Tim Maia. Isso foi uma armao, mas ela no teve nada com isso. Eu gostava muito dela e sinto que poderia ter gravado mais coisas com ela. Ela era muito musical, era musical demais… At hoje falo: pra mim, a melhor mesmo foi Elis. A Rosana canta bem tambm, mas a Rosana muito perturbada, muito confusa, ps silicone at no… a rainha do silicone. E to bonita, to gostosa… A Rosana canta bem, a Jane Duboc canta mais ou menos, mas muito inibida, aquela menina, a Cludia, cantava bem, mas excedia. A Elis Regina, no; ela ia no ponto mesmo. E tinha uma cabea legal, inteligente. Mas as pessoas achavam que no. Era aquele negcio: “Ah, muito temperamental…. Tudo babaca que no tem sentimento nenhum, que no cria porra nenhuma, que no consegue se expressar com nada, quando v uma pessoa que se expressa… o tal negcio do Van Gogh: louco, maluco, mas depois o quadro dele t custando 60 milhes de dlares. Mas na poca, quase mataram o cara.

L.L.G. – E a tua opinio a respeito da Marisa Monte?

T.M. – Engraado, a Marisa Monte t cantando igualzinho Gal Costa, no entendi porra nenhuma.

L.L.G. – Mas a Gal do comeo de carreira, n?


T.M. – . Uma vez eu ouvi a Marisa Monte e parecia a Zizi Possi, da eu conheci a Marisa, fizemos at amizade. No que eu t magoado com ela, mas olha: o “Chocolate, ela gravou, canta nos shows, mas fez um negcio que eu no gostei, ela canta “no quero cocana, me liguei…, no tem nada a ver, a msica no tem isso. O Lulu Santos tambm botou Porto de Galinhas (na “Descobridor dos Sete Mares) onde no tinha Porto de Galinhas porra nenhuma, eles modificam totalmente. Eu acho que, quando voc se prope a gravar uma msica de uma pessoa, inclusive quando aquela msica j foi gravada, voc tem de obedecer aquele critrio, aquela forma, seno fica uma coisa…

M.G. – Alis, voc mudou uma palavra na “Aquarela do Brasil…

T.M. - S se eu errei…, tambm, letra pra cacete. Eu no sei onde esse rapaz tava com a cabea quando fez essa letra. “O coqueiro que d coco demais, n? Vai dar o qu? Laranja? O Ari Barroso … que Deus o tenha em bom lugar.

L.L.G. – Tim, esse disco de bossa nova saiu faz menos de um ano, agora voc est lanando outro e tem mais dois em projeto para esse ano?


T.M. - Olha, eu sou diretor-presidente da Vitria Rgia Discos, a nica que paga aos domingos aps as 21 horas. Eu sou o nico artista da casa, ento no tem jeito… Eu gostaria de ter o Stevie Wonder com a gente tambm, mas…

L.L.G. - Ah, o Ray Charles est vindo a agora. Convida ele…


T.M. – Mas ele t vendendo pouco disco. Prefiro o Leandro e Leonardo, que to vendendo muito mais (risos).

M.G. - Tim, voc era de uma turma, h muito tempo, com Roberto, Erasmo, Jorge Ben e depois de uma outra galera – Cassiano, Hyldon…

T.M. - , esse o segundo time.

M.G. – Aquele time anterior se deu bem; o segundo no. Por qu?

T.M. - Bom, a aquele negcio: “Por que Tostines vende mais? Porque fresquinho. E por que fresquinho? Porque vende mais. Voc quer ver uma coisa? Eu fiz outro dia o programa do J Soares e brinquei l com a idade da rapaziada. Depois, disse que teve uma poca que o Roberto Carlos andou fumando cachimbo e usava uma capa estranha, enquanto o Erasmo andou querendo entrar na Academia de Letras. Eu falei: “Calma a que aqui ningum estudou porra nenhuma, para com esse negcio porque aqui, intelectual ningum . Eu disse isso l no J Soares e completei: “A gente no tem curso nenhum, o nico que temos, e mesmo assim incompleto, o curso de datilografia do Colgio Ultra. Da, no outro dia, liguei pro Jorge Ben e ele tava puto, todo zangadinho. Eu perguntei: “O que aconteceu, Jorge?. E ele: “Sabe o que Tim? que a minha tia assistiu o J Soares e me disse que voc falou mal de mim. Eu falei: “Mas o que isso rapaz, eu nunca falei mal de voc, que babaquice. Da, eu chamei a mulher dele no telefone, a Domingas, e ela me disse: “No Tim, no liga no, isso a a tia do Jorge que muito fofoqueira…. Da, eu descobri que ele tava puto era com o lance da idade que eu falei. Porque ele diz que tem 46… se ele tem 46, eu tenho 38. O que eu queria explicar que o Jorge Ben no fazia parte da nossa turma, da primeira. Eu conheci ele um pouco depois. Mas eu acho que ele se grilou porque eu falei que a gente no tinha cultura. E ele tambm no tem mesmo, no estudou porra nenhuma…

L.L.G. - Voc e o Jorge Ben ressurgiram meio que juntos, uns trs anos atrs…

T.M. – No, isso tambm uma outra coisa que eu quero retificar. Ns no ressurgimos, ele que ressurgiu. Eu s no tava na mdia, no tava na Globo. Eu dou esse exemplo: fiz cinco anos de Chic Show aqui em So Paulo, dois shows por ano. Teve vez que colocamos 23 mil pessoas l no Palmeiras, teve uma outra que quebraram no sei o qu l e o cara nem queria mais alugar pro Tio do Chic Show. Depois, eu gravei com a Sandra de S e ia fazer um show com ela. Mas ela tava meio estrela, no apareceu, e eu tomei o maior preju por causa do Marcos Lzaro. Agora tem o tal do (Manoel) Poladian. A cada hora pia um, e tudo com esses nomes esquisitos, no tem nenhum Pereira ou Silva. Lzaro, Poladian… Eu fiquei sabendo uma do Poladian que demais: ele leva um nibus cheio de cambista. Chega no local, ele mesmo compra os ingressos e da vende pelo triplo do preo.

L.L.G. - Eu relacionei voc com o Jorge porque tem um disco seu que est sendo relanado agora que tem vrias msicas no estilo discoteque. Agora, o Jorge est regravando sucessos antigos dele com estilo dance music. Voc chegou a ouvir isso?


T.M. - Eu acho uma tremenda besteira o que eles esto fazendo. Isso no t com nada. A pipoca t na mo, todo mundo quer pipoca… Cala Lee t na moda, todo mundo quer cala Lee… E a, numa dessa, o cara pode se queimar, o Jorge Ben pode se queimar. Porque a msica dele no tem nada a ver com house, a msica dele j uma house normal e todo mundo dana normal, no precisa botar um bumbo l, um bate-estaca pra fazer alguma coisa. Um cara me props isso, mas eu disse: “Solta o ‘Nova Era Glacial‘ a a todo vapor e vamos ver se no vai todo mundo pra pista. No precisa tum-tum-tum pra imitar americano mais ainda e com algo que tira a musicalidade da coisa. Eu j podia ter feito isso, j me convidaram pra fazer isso. Numa matria que eu li no jornal ontem, o Lulu Santos tava me elogiando: “O Tim Maia o maior. Obrigado, muito obrigado. Da fala o cara, o tal do DJ Mem. o nome do cara: Mem. E ele manda o seguinte: “Ah eu gosto do Tim Maia, sempre fui f dele, mas agora ele deu de cantar essas msicas brega…. E eu pensei xiii… olha o cara, olha o Mem… ele toca o que mesmo? Toca obo, toca tmpano, toca violino?

M.G. – Ele toca toca-discos.

T.M. - , ele toca toca-discos. Toca disco ao contrrio. Estudou pra cacete, se concentrou pra fazer aquele nh-nh-nh… Como que um Mem desses vai falar da gente? Eu lancei o Roberto Carlos, fiz um monte de coisa, um monte de parada a, altas jogadas. Esse o cara que t com o Lulu Santos. Quer dizer, eu tambm j t achando que o Lulu Santos t indo prum caminho… Tem de tomar cuidado. J t velho, t de cabelo branco… Esse negcio de funk, de house, deixa pros outros. E outra coisa: esse negcio de funk brasileiro… O rap brasileiro uma vergonha. Principalmente o rap carioca, mas o paulista tambm. Imita o americano, fica aquele nego fazendo aquelas coisas (cantarola um tpico “funk-falado carioca). Isso funk? Isso rap? O rap cheio de ag, o rap na verdade jamaicano e muito alm do que feito aqui. Por isso que eu acho que o Brasil est precisando urgentemente de cursos de msica, de escolas de msica. Outra coisa que eu gostaria de falar que o Brasil est precisando urgentemente de uma universidade para pretos, para negros, uma universidade afro-brasileira. Porque ns temos universidade de tudo que jeito a, universidade de padre, universidade de bispo Macedo, precisamos da universidade para negros. Pode entrar branco e japons tambm, sem discriminao, mas dando prioridade ao negro. Porque preto no tem como, no tem onde estudar, ele no passa do primeiro grau. Ento, eu acho que no Brasil, em lugares diferentes, tem de ter a universidade afro-brasileira. Isso um grilo do cacete, tem de botar o preto pra estudar; seno, a gente vai ficar sempre por baixo. A Globo, agora, bota l o (Antnio) Pitanga na novela, aquela famlia preta, mas no tem nada a ver, continua a discriminao indireta.

M.G. – Voc falou a do Roberto Carlos… Voc no acha que estava na hora de ele se tocar e gravar um disco novo, ao invs de ficar repetindo o mesmo h dez anos?

T.M. - Mas eu acho que o Roberto Carlos t certo. Ele t a h trinta anos fazendo sucesso. E a minha me gostava dele demais. At a minha me falecer, ele ligou pra ela todo Natal, fazia aquela mdia, ele conhece meus irmos todinhos, minhas irms, assim como eu tambm conheo os dele. Ns fomos criados juntos. Por isso, eu achei muito estranho quando eu voltei dos Estados Unidos, ele me deu a maior podada. Porque quando eu voltei, precisava de um apoio. Teve at uma etapa (priso) que eu puxei l nos Estados Unidos, de oito meses, por causa de umas cadeirinhas que eu roubei pra uma gravao. A gente ia fazer uma gravao e da eu fui roubar as cadeiras pra comprar um incentivo pra rapaziada. Mas nem cheguei a comprar o incentivo; j dancei nas cadeiras (risos). Pedi uma ajuda, mas pra qu? Nossa, achei aquilo to estranho. Eu no conheo os filhos do Roberto Carlos, s conheo a mais velha, a Ana Paula, filha da Nice. Ele tambm no conhece meus filhos. Eu j tenho neta, ele tambm.

M.G. – Voc tem quantos filhos?

T.M. – Eu tenho trs filhos e, agora, uma neta.

M.G. – Algum deles mora com voc?


T.M. - J moraram. Um morou. E o do meio t sempre na minha casa. Mas o mais novo, no; o mais novo mora com a minha irm. Ela tomou o meu filho desde criana. Alis, eu no criei nenhum dos meus trs filhos. S facada mesmo – de 10 mil, de 100 mil -, eu s financio. A minha neta filha do Z Carlos, o mais velho. Ela lindinha, muito bacana. Eu preservo esse negcio de famlia. Ontem mesmo, tava falando com o filho do Erasmo no telefone… e lembrei uma vez que o Erasmo me deu cinco calas Saint-Tropez, daquelas que aparece a bunda quando voc entra no txi, sabe. Imagina, eu com cento e no sei quantos quilos e com aquela cala… Eu conto sempre isso pro filho do Erasmo, o Gugu. Ento, eu sinto esse negcio da famlia e lamento que pessoas que foram criadas juntas como eu, o Roberto, o Erasmo, um no conhea pessoalmente os filhos do outro. As minhas irms adoram eles, a me do Ed Motta gosta muito do Roberto.

M.G. - E o Ed Motta, voc se d com ele?

T.M. – No, no me dou no.

M.G. – Voc acha que ele seu sucessor?


T.M. – Eu acho to horrvel esse negcio de sucessor… Isso coisa de ditador.

L.L.G. – E herdeiro, pode ser?


T.M. – Isso de herdeiro tambm ruim. E ruim inclusive pra ele, porque ele entrou nessa e se deu mal com isso.

L.L.G. - E ele andou falando muito mal de voc…

T.M. – Pois , um troo to estranho… meu sobrinho, p.

M.G. – E ele tem talento, n?

T.M. – Tem, ele canta bem. musical, mas muito enrolado, estranho pra caramba. O Ed parou de falar comigo e eu no gosto muito de falar disso porque eu sou muito amigo da me dele, a minha irm que eu considero muito.

M.G. – Tim, o Fernando Gabeira est com um projeto de liberar a maconha. Voc a favor ou contra?

T.M. – Sinceramente, cara, o Fernando Gabeira j foi uma coisa, virou outra e agora j outra totalmente diferente. Quando ele sequestrou aquele embaixador, porra… dei o maior apoio, entendeu? A, veio com esse negcio de Partido Verde, j ficou meio quatro-quatro-meia e agora diluiu demais. A maconha j t liberada, a cocana e a pena de morte tambm. Isso j t liberado no Brasil faz tempo. Quer mais maconha do que no Brasil? O Brasil o maior produtor de maconha do mundo! Ningum planta mais maconha do que o Brasil. E Pernambuco o Estado onde mais se planta maconha no mundo. E o brasileiro o maior maconheiro do mundo! Alcolatra tambm, por excelncia, mas queima um fumo violento! Todo brasileiro queima fumo: vai l no Norte, puta que o pariu, todo mundo gosta… No Sul, tambm adoram. Todos, todo mundo! Ento acho que uma demagogia do cacete. Poderia se plantar isso a e colher bons frutos, uma maconha boa, THC bem forte…

M.G. - , mas ainda tem os coitadinhos que vo em cana s por causa de um baseadinho

T.M. - uma estupidez. Mas me parece que o negcio vai liberar mais agora, pelo menos em casa. Tem aquela moa que t sendo julgada agora l na Turquia. Ela disse que no sabia que o que deram pra ela era maconha… que ingenuidade (risos). Ela s sabe que o nome do cara era Pedro, mais nada. Quem te deu a maconha? O Pedro. Quem te deu a brizola? O Jorge… mas no sei. E os caras que vieram receber a brizola? Hummm, no sei, no conheo (risos). Coitadinha, t em maus lenis. Mas naquele filme, Expresso da Meia-Noite, o cara t levando cinco quilos de haxixe, e eu pensei que era herona… O haxixe a melhor coisa que tem pra acalmar os nimos, no faz mal pra ningum, bom pra glaucoma. Acho uma estupidez, uma demagogia do cacete, proibir fumo, entendeu? O fumo uma planta, uma coisa natural… Eu fui intimado duas vezes nessa semana, pra ir na polcia. Eu no vou em lugar nenhum. Tem um cara l que foi preso, deram porrada no cara pra ele dizer que trazia haxixe pra mim. Da, em juzo, o cara falou que no era nada disso, que levou porrada na delegacia, na 27ª, l em Brs de Pina, no Rio de Janeiro. Da, fui intimado e mandei meus advogados l…

M.G. – Os trs, n?

T.M. – Dessa vez foram dois (risos). Mas foram l pra explicar… Volta e meia tentam me envolver nessas porras a, cara, e por causa de haxixe. Ainda se fosse cocana, herona… mas haxixe? uma estupidez. THC… cannabis… Proibir a cannabis e liberar o lcool a maior loucura, uma coisa porca, suja, imunda, mentirosa! Porque o lcool destri o ser humano em poucos anos, em meses. Se voc beber mesmo, o teu figueiredo no aguenta. Eu mesmo, no posso beber mais. E olha que eu no bebia muito, hein? Eu s bebia quando fazia show e quando andava de avio.

M.G. – Mas como voc fazia muito show e andava muito de avio… (risos).

T.M. - , fiz show o ano inteiro, andei de avio o ano inteiro, bebi o ano inteiro (risos). Mas deu um negcio no figueiredo aqui… No posso beber de jeito nenhum. O Roberto bebe muito mais do que eu, o Erasmo t tomando trs garrafinhas daquelas pequenininhas por dia… Jair Rodrigues bebe muito mais do que eu e, depois, diz que careta. Mas quer dizer, devido a beber quantidades excessivas, eu quase dancei. Ento p… Eu tenho um amigo que queima fumo h trinta anos e no viciado ainda (risos).


 
Fonte: PaginaB!

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