Brasil

8 de setembro de 2017 - 6h06

O jornalismo sem glamour de um Brasil em ebulição

   

Nos últimos anos, o Brasil tem passado por uma das suas crises políticas mais fortes. No meio de toda essa turbulência, a informação torna-se cada vez mais importante, e um dos temas mais discutidos é a cobertura midiática durante este período. Por vezes acusada de tendenciosa, a grande mídia é muito criticada quanto à abordagem que faz do assunto, ou por, de certa forma, trazer um ponto de vista único, ainda que em veículos diferentes. Nesse contexto, as chamadas mídias alternativas propõem uma narrativa e abordagem distintas da trazida pelas mídias tradicionais. Seja agradando ou sendo alvo de críticas, é inegável que esses veículos fazem, com menos dinheiro, um trabalho diferente.

Mas o que seria exatamente uma mídia alternativa?


O professor da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, Dennis de Oliveira, comenta que no Brasil o termo surgiu nos anos 60, para designar aqueles jornais de oposição ao regime militar e contestar a censura do Estado à imprensa. “Com o cerco aos grandes meios de comunicação, aos jornais, particularmente após o AI-5, em 1969, alguns jornalistas e intelectuais de esquerda, progressistas, resolveram então criar jornais alternativos, que fugissem desse cerco.” Assim, surgiram veículos como o Pasquim, Brasil Mulher, Movimento, Opinião, Bondinho, Versus, dentre vários outros.


Jornais alternativos surgem durante o regime militar no Brasil. (Imagem: reprodução)

Porém, com o fim do comando dos militares, outro tipo de ditadura começou a atingir os veículos de imprensa, desta vez por razões econômicas. Conforme explica o professor Dennis, hoje “há uma ditadura de mercado, expressa pelos grandes meios de comunicação e seus monopólios, pelos poderes econômicos que impõem agendas”. Sendo assim, a mídia alternativa é aquela que propõe pautas diferentes das cobertas pelos meios hegemônicos, “que nos últimos tempos têm apresentado quase que um discurso único, ignorando outras demandas, outras coberturas, outras perspectivas”. O professor destaca também a importância da internet nesse processo: ”Hoje, existem uma série de experiências de veículos alternativos que têm usado a internet como ferramenta para disseminar-se, por causa de seu menor custo.”

Financiamento

Quando se pensa em mídia alternativa, é comum imaginar um financiamento 100% independente, tal como era feito na maioria dos casos durante a ditadura militar. Hoje, porém, nem sempre é assim, e estes veículos buscam diferentes formas para sustentar-se financeiramente.

Um dos exemplos é a Rede Brasil Atual, que além de um site possui também uma rádio, revista e jornal impresso. Conforme conta o coordenador Paulo Salvador, o veículo é ”patrocinado pelos sindicatos que, na ausência de meios que tratassem das questões do mundo do trabalho – ou enfadados com veículos que criminalizam as lutas dos trabalhadores –, resolveram lançar sua própria mídia.” Ele ressalta ainda que anúncios, prestação de serviços, assinaturas e venda em bancas complementam o orçamento. Já o Portal Vermelho, explica o editor-chefe Inácio Carvalho, é mantido pela Associação Vermelho, uma entidade sem fins lucrativos composta por jornalistas e pessoas de visão “progressista, participativa e democrática”.


Grande parte da imprensa alternativa é financiada a partir de doações ou assinaturas de leitores.(Imagens: Reprodução)


Breno Altman, fundador do site Opera Mundi, no entanto, conta que o financiamento de seu veículo atualmente acontece de forma não tradicional – ou seja, sem anúncios – mais por falta de oportunidades do que por iniciativa própria. ”O problema principal é que a sociedade brasileira está muito partidarizada, muito polarizada, e as grandes empresas, que tem um viés em geral conservador, não anunciam em veículos como o Opera.” Hoje, o financiamento desse portal é feito totalmente por meio de doações dos leitores através de assinaturas voluntárias. Comumente denominado de crowdfunding, esse modelo é muito utilizado pelas mídias alternativas, mas não é uma regra. O professor Dennis de Oliveira explica que ”algumas trabalham com poucos anúncios oficiais, apoios culturais. Mas não tem muito jeito, se é contra o mercado, é evidente que então não terá esse apoio financeiro, como tem a grande mídia”.

O diretor de redação do Opera Mundi, Haroldo Ceravolo, explicou as diferenças de financiamento dos veículos alternativos nos governos Dilma e Temer. “Por muito tempo a gente trabalhou com investimentos da empresa proprietária e com anúncios de empresas como a Gol e a Petrobrás, que foram as duas principais anunciantes, principalmente essa última. Com o governo Temer, no entanto, a publicidade estatal para as mídias alternativas foi cortada deliberadamente sem explicações técnicas que justificassem tal medida. Nenhum tipo de publicidade tem sido feita no nosso veículo.”

O público

Para continuarem existindo, as mídias alternativas necessitam, naturalmente, de um público. Ainda que relativamente menor que o da mídia tradicional, alguns desses veículos possuem uma base forte de leitores, ouvintes e/ou telespectadores.




E quem são essas pessoas? Haroldo Ceravolo conta que seu público é composto principalmente por pessoas interessadas no noticiário internacional, foco principal do Opera. “É um público predominantemente de esquerda, mas também alcançamos os de direita, que vêm nos atacar regularmente, mas que acompanham o Opera Mundi e não raramente respeitam muito nossa cobertura.”

Paulo Salvador conta que a Rede Brasil Atual começou com a edição impressa da Revista do Brasil, que era distribuída “dentro das fábricas, bancos, escolas, indústria química etc., para os trabalhadores sócios dos sindicatos.” Ele esclarece, porém, que o portal na web atinge públicos diferentes, “um pouco mais centrado no público mais maduro, que gosta de matérias mais densas e apuradas”.

O editor-chefe do Portal Vermelho vê pontos positivos na difusão rápida dos conteúdos produzidos pelos veículos alternativos através das redes sociais. “Os novos fatores da comunicação nos aproximam, ou pelo menos diminuem a distância entre as mídias hegemônicas e alternativas. As redes sociais nos permitem furar escalas e atingir lugares onde a grande mídia não é bem recebida”.

O professor de Jornalismo da USP argumenta que esse viés mais à esquerda é comum nesse meio. Isso acontece porque uma das características da mídia alternativa diz respeito também à ideologia que defende, que é oposta à da grande mídia. Conforme explica ele, “no campo mais conservador, o que existem são alguns blogs e sites que possuem um perfil mais agressivo, uma opinião mais dura, até porque a opinião deles já está garantida na grande imprensa. Eles estão em conformidade com a agenda hegemônica, e o jornalismo alternativo é o não hegemônico.”

Cobrindo a crise

Um dos momentos mais importantes para a ação das mídias alternativas no Brasil foram os protestos de junho de 2013. Naquela época, veículos como o Mídia Ninja destacaram-se por fazer coberturas diretamente das manifestações, por meio de transmissões ao vivo feitas com smartphones. Além disso, uma das características dos movimentos era uma revolta generalizada contra a mídia tradicional, o que possibilitou que as alternativas tivessem acesso aos locais em que os grandes veículos eram rejeitados.

Conforme coloca Paulo Salvador, desde então os meios alternativos não tiveram sossego. A Rede Brasil Atual, explica ele, cobriu de perto eventos importantes deste período, como os protestos durante a Copa, a crise dos transportes e o desenrolar da Lava-Jato. Entretanto, surgiram dificuldades econômicas com o corte de verbas do governo federal. Segundo levantamento feito pelo site Poder360, o valor arrecadado por veículos independentes teve redução de 64% de 2015 para 2016.


Levantamento do site Poder360 mostra queda na publicidade estatal para mídias alternativas

Para o Opera Mundi, a maior dificuldade foi, também, de ordem financeira. Breno Altman tornou-se réu em um dos desdobramentos da Operação Lava Jato, em 1º de abril de 2016, e o veículo teve considerável prejuízo depois disso. “Muitos anunciantes, privados e públicos, romperam seus contratos”, conta ele. Breno foi absolvido da acusação em março de 2017, mas confirma que esses anunciantes mesmo assim não voltaram, e que o próprio público pode perceber essas dificuldades: ”o nosso leitor sentiu que nós perdemos um pouco de fôlego. O Opera chegou a ter correspondentes, freelancers, em 40 países do mundo. Nós tínhamos um enorme espectro de cobertura internacional, e no último ano e meio esse espectro foi reduzido.”

Mas, se por um lado esses veículos sofrem com problemas financeiros, por outro veem a visibilidade das suas coberturas aumentarem. Inácio Carvalho, do Portal Vermelho, afirma que houve crescimento nos acessos desde o impeachment da ex-presidente Dilma. Para ele, isso ocorreu “porque exercemos um papel de dar informação aprofundada, diferente da mídia hegemônica. De certo modo esse aumento de acessos nos ajudou a cobrir melhor.” Ele ainda complementa, dizendo que as mídias alternativas apresentam conteúdo de melhor qualidade, o que também contribui para o crescimento desse tipo de veículo.



Um dos grandes desafios que essas mídias enfrentam é o fato de terem uma equipe pequena. Marilu Cabañas, âncora da Rádio Brasil Atual, comenta que “aqui em São Paulo, estamos atualmente com apenas uma repórter, e isso nos limita muito. Temos que escolher o que cobrir”. Sobre a atual crise política, a jornalista aponta outras dificuldades da cobertura: “Tem tanta coisa acontecendo simultaneamente: reforma política, da previdência, trabalhista, precarização da saúde, educação, ciência, tecnologia e de tantos setores que fica difícil dar conta de cobrir tantos desmontes”. Ela já cobriu muitas manifestações de rua, fazendo também especiais sobre esses acontecidos. “O único medo que eu tenho é da polícia, que joga bombas de forma indiscriminada. Em uma dessas manifestações, tivemos que pedir ajuda nos prédios próximos para nos abrigarmos, porque foi dramático e estávamos [Marilu e a estagiária que a acompanhava] encurraladas.”

Uelson Kalinovski, repórter da Rádio Brasil Atual e da TVT, também contou alguns dos seus principais obstáculos. “Pior do que a ação da polícia, para mim, é ser barrado em uma porta por não ter credencial.” Correspondente em Brasília há seis anos, ele demorou quase três para conseguir uma credencial definitiva. Com a equipe reduzida – apenas ele e o cinegrafista ‒, o grande desafio é cobrir tantos eventos simultâneos, sendo assim obrigado a escolher as prioridades. Essa é uma das maiores dificuldades quando compara-se às equipes dos grandes veículos, que geralmente possuem um time de jornalistas em cada ministério, e contam ainda com contatos diretos na assessoria de imprensa dos deputados e senadores, que os procuram para divulgar o que fazem.


Uma das dificuldades para as mídias alternativas é obter acesso às fontes em Brasília. (Foto: Antonio Augusto / Câmara dos Deputados)

Com a mídia tradicional tendo mais acesso a fontes, e, ao mesmo tempo, maior amplitude perante o público, a saída para os meios alternativos foi cobrir de um modo diferente todos os eventos que vêm colocando o Brasil em ebulição. “O acesso à informação que nós, das mídias alternativas, temos é muito restrito. Fazemos grupos de Whatsapp para ajudarmo-nos e cada um cobrir um ponto, melhorando a abrangência da nossa cobertura”, conta Uelson.

O repórter da TVT aponta diferenças importantes entre dois eventos de destaque, a votação que aprovou o impeachment de Dilma Rousseff, em agosto de 2016, e a da denúncia contra Temer, ocorrida em 2 de agosto de 2017. Nos dias de votação do processo contra a ex-presidenta, na Câmara e no Senado, havia facilidade de fazer a cobertura, permitindo o acesso dos veículos credenciados e fornecendo credenciais provisórias para os que não tinham. Já na da denúncia por corrupção passiva contra o atual presidente, Uelson relata que mesmo a imprensa credenciada teve dificuldades de entrar para fazer a cobertura.



Ainda que enfrentando dificuldades, os veículos alternativos continuam cumprindo papel importante na cobertura da política nacional, ampliando a visão que temos sobre o assunto. O material inédito, dessa forma, pode surgir de olhares diferentes sobre um mesmo fato, e não necessariamente de um furo jornalístico a respeito de um acontecimento ao qual apenas um veículo teve acesso. O professor Dennis aponta também que o jornalismo tradicional em si passa por uma crise, tanto financeira, quanto de público e conteúdo. Junto a isso, há a grande quantidade de informações compondo o atual momento político brasileiro, que dão abertura para a constante produção de novas narrativas a respeito de cada evento. Diante deste panorama, a imprensa alternativa continua mantendo sua relevância.



*André Romani, Luciana Cardoso e Matheus Souza são estudantes da Escol de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP)





Fonte: Agência J.Press de Reportagens
A Agência J.Press de Reportagens é um espaço destinado à publicação e divulgação de matérias com abordagens inovadoras. Vinculada à empresa Jornalismo Júnior da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP), a agência busca novas formas de explorar assuntos de interesse público através do jornalismo.


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