Brasil

10 de setembro de 2017 - 11h49

Das armas às urnas na Colômbia: o nascimento do partido Farc

Divulgação
Ato de lançamento do partido das Farc Ato de lançamento do partido das Farc

O Congresso das Farc, que terminou na última quinta-feira (31), demonstrou a diversidade das culturas políticas que convergem no partido. A atividade aconteceu no Centro de Convenções Gonzalo Jiménez de Quesada, localizado no centro de Bogotá, próximo ao Palácio de Nariño, residência oficial do Presidente da República e sede do governo da Colômbia.

Entre as participações políticas, estão duas principais: a dos guerrilheiros de diferentes partes em que a guerrilha possuía o controle do território e a dos militantes do Partido Comunista Clandestino Colombiano (PC3), organização política das Farc nas áreas urbanas.

Depois de discussões em comissões, o último dia do debate foi iniciado por Ernesto Samper, ex-presidente da Colômbia e ex-secretário-geral da União de Nações Sul-americanas (Unasul). Samper deu as boas-vindas ao partido e fez um discurso focado na aposta de um socialismo do "Bem Viver" (com menção à Bolívia e ao Equador). Tal aposta política é para que se priorize os recursos naturais, impulsione a economia camponesa e a divisão das terras, e esteja voltada para a construção de relações entre os países do sul.

O período final do congresso contou com diversos momentos de discussão. Um dos pontos centrais foi a orientação político-ideológica do partido. A definição aprovada em votação foi a de uma organização que recolhe os princípios e elaborações teóricas decorrentes do pensamento crítico e libertário, assim como de experiências formuladas nessa perspectiva, em todo o mundo e na América Latina, especialmente aquelas formuladas pelos fundadores das Farc, Manuel Marulanda e Jacobo Arenas. Tudo isto com uma orientação clara à superação do capitalismo como ordem social vigente.

Outro importante momento de votação foi a definição do novo nome e da logo do partido. Ainda que o nome de "Nova Colômbia" constasse entre as opções, a maioria dos congressistas optou por manter o acrônimo Farc, devido à sigla história; uma decisão que pretende manter a coesão interna da organização. Junto ao nome, o novo logo da organização é formado por uma rosa vermelha com uma estrela no meio.

No entanto, o momento culminante do congresso foi a votação da direção do novo partido político, composta por 111 pessoas. O resultado consolidou aquilo que era esperado, com os principais quadros políticos do secretariado das Farc, entre eles, Rodrigo Londoño – o Timotchenko –, que foi eleito presidente do partido.

A votação foi um momento histórico para boa parte dos e das participantes do congresso, que afirmavam com emoção que era a primeira vez, depois de décadas de vida e de militância nas Farc, que depositavam um voto na urna. A partir de agora, o farão muitas vezes, já que o partido, através do Acordo de Paz com o governo colombiano – que entrou em vigor em dezembro de 2016 –, assegurou cinco cadeiras no Senado e cinco na Câmara de Deputados para o próximo período, entre 2018 e 2022.

Agora, nesta nova etapa, a Força Alternativa Revolucionária do Comum enfrenta uma série de desafios nas lutas política e eleitoral. O maior deles é a consolidação como referência política nas zonais rurais e urbanas, no diálogo com organizações sociais e políticas em diversos âmbitos, como direitos humanos, civis e políticos, gênero e identidade sexual, economia solidária, entre outras.
Uma vez encerrado o congresso de fundação do novo partido, com a eleição de sua direção, e a apresentação da nascente organização em um ato político-cultural na Praça Bolívar de Bogotá, onde a intervenção principal esteve a cargo do antes comandante-em-chefe Timochenko, hoje Timoleón Jiménez, a Farc enfrenta uma série de desafios parte desta nova etapa da luta política e eleitoral.

Uma pesquisa realizada pela empresa de opinião Gallup Colombia demonstrou que o novo partido conta com a aceitação de 12% da população colombiana, enquanto os outros partidos contam com apenas 10%. A pesquisa demonstrou também que 84% dos eleitores têm uma imagem negativa do partido, três pontos a menos do que os partidos tradicionais do país, cuja desaprovação está em 87%.

A desaprovação dos partidos políticos tradicionais é uma oportunidade, mas também envolve muitos riscos, entre eles, o da normalização política e a institucionalização que enfrentarão em um futuro próximo, bem como o não cumprimento do governo em vários pontos do Acordo de Paz e a passagem de milhares de guerrilheiros à vida civil.

Como comentou uma das ex-guerrilheiras das Farc, Isabela, construir a paz é muitas vezes mais difícil do que fazer a guerra.



Fonte: La Jornada

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