6 de setembro de 2017 - 15h44

Guadalupe Carniel: Atolado

   

Não me lembro desde quando eu faço o caminho pra chegar nela. Não lembro da primeira vez que entrei, nem da emoção. Mas sempre me senti bem. Era o lugar ideal pra se estar. Charmoso e majestoso.

Mesmo quando nos idos anos 1990 chovia e por ser numa das partes mais baixas da cidade (mas nem por isso mal localizada, pelo contrário, é uma região nobre) enchia ou desciam pelas ruas íngremes aquela enxurrada e eu achava ruim. Já fiquei presa ali tendo que esperar a chuva passar. E daí vem o nome pelo qual a minha casa é conhecida, Pacaembu, que em tupi guarani significa terra alagada ou atolada.

Sim, já me atolei de cervejas e de derrotas naquele estádio. Mas também já vivi momentos épicos e que beiram o absurdo de tão inacreditáveis que essa moçadinha do videogame desacreditaria que de fato aconteceram.

Terreno santo. Foi doado aos jesuítas por Martim Afonso de Sousa para catequizarem os índios. O estádio foi criado em 1940 para o futebol catequizar milhões. Atesto e dou fé disso. Se por um acaso tiver dúvidas, pergunte a qualquer pessoa que entenda do riscado futeboleiro. Gente de todos os estados têm ao menos uma história para contar sobre o estádio.

Aí entra gestão e sai. O estádio que é tombado e que possui um clube (sim, qualquer pessoa que more na cidade de São Paulo pode frequentá-lo e fazer uso de, por exemplo, suas belas quadras de tênis), agora corre o risco de ser privatizado por decisão do atual prefeito da cidade, João Dória. A justificativa? Ele gera muito custo, sendo cerca de 40 milhões de reais em quatro anos. Mas segundo dados da Secretaria Municipal de Esportes, Lazer e Recreação, os valores são de 26 milhões no mesmo período. Ele fatura cerca de 15 milhões, o que dá um déficit de cerca de 10 a 11 mi.

Mas pra entender isso, temos que voltar um pouco, há cerca de dois anos o então prefeito Haddad também teve uma ideia de modernização do estádio, mas que foi deixada de lado. Depois veio o período de pré-candidatura. Em entrevista à Folha de S. Paulo, Dória já afirmava que “se for eleito, irei privatizar o estádio do Pacaembu, o autódromo de Interlagos e o parque de convenções do Anhembi. A venda do estádio será algo positivo para a cidade. Vai ficar melhor, mais funcional, mais eficiente, com mais segurança e sem o custo. O custo vai ser do setor privado”. O plano é que a concessão dure de 10 a 15 anos.

Eu sei que comparações são péssimas. Mas voltemos à 2013. Para muitos, eventos esportivos são associados desde as Olimpíadas de Barcelona à ações salvadoras para cidades caóticas e com regiões degradantes, afim de revitalizá-las O então governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, quando perguntado sobre a privatização do Maracanã afirma que “em países civilizados estádio não é coisa de governo”. Ainda segundo o político isso não geraria custos aos cofres públicos.

Na época o estádio passou para a concessão da Odebrecht/IMX/AEG (que formavam o Consórcio Maracanã S/A) que detinham o direito de explorar o terreno por 35 anos. Mesmo assim o estádio custou 1,3 bi aos cofres públicos para a Copa. Em 2016, para os Jogos Olímpicos, o consórcio cedeu o estádio. Mas quando o Estado do Rio foi devolver, não aceitaram alegando que não estava nas mesmas condições que foi cedido. Agora a bucha tá na mão do Estado. Que tentou fazer licitação e hoje em dia tenta empurrar para o Flamengo que ainda estuda os custos, que são altíssimos, sendo que segundo dados do socioeconomia.org. somente com o estádio cheio se tornaria viável uma peleja. Ah, o prejuízo aos cofres públicos nos últimos três anos? 150 milhões.

Investir em estádio não deve ser prioridade? Concordo. Mas em momento algum o esporte foi deixado de lado. A educação, cultura e a sociedade passam pelo esporte. Thomaz Mazzoni, o pai da imprensa esportiva paulistana defendia piamente o esporte como formação. Quando passaremos a reconhecer o esporte como relevante e pertencente a diversas áreas e que sim, constitui nossa identidade e tradição?

Estádios são mais do que espaços; são extensões de nós mesmos, com confidências e cheios de memórias individuais e coletivas que o permeiam. Quando defendemos um estádio como o Pacaembu ou o Maracanã não estamos defendendo o futebol (que se tornou um espetáculo rentável, ou não, se mal administrado, ainda mais por quem não entende de futebol ou não consulta quem entende), mas a identidade e parte da história da nossa sociedade. Quer você goste de futebol ou não.


 *Guadalupe Carniel é jornalista, pesquisadora e autora do blog Morte Súbita

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