31 de agosto de 2017 - 18h21

Guadalupe Carniel: A pergunta que não calarão!

   

Janeiro de 2017. Santiago tem 28 anos. É um jovem mochileiro, que gosta da natureza, de tatuar e vender artesanatos em feiras e usa as redes sociais para divulgar seu trabalho. Viaja ao Chile e vê os problemas que pescadores locais tem. Em abril decide viver em El Bolsón e fica circulando também por Cushamen, talvez por sua admiração pelos índios da Patagônia. Tinha o apelido de Calfucurá, nome de um cacique que dominou parte de Buenos Aires e da Patagônia apoiado por cerca de 2 mil nativos.

Dia 1º de agosto de 2017. Província de Chubut, perto do rio com o mesmo nome fronteira com o Chile. Um terreno com cerca de 900 mil hectares que pertence à Benetton (sim, aquela mesma que patrocina a Fórmula 1) está ocupado desde 2005 por mapuches. Neste dia, pela manhã, acontece um protesto contra a prisão de Facundo Jones Huala, principal líder mapuche da região preso desde junho. A Gendarmería(polícia militar argentina) é chamada. Tiros de balas de borracha e 9mm são disparados contra os manifestantes. Correria. As pessoas se jogam no rio Chubut. Santiago agarra-se a uma árvore “você está preso” é o que se escuta. Depois disso, Santiago Maldonado não foi mais visto.

Pessoas somem aos montes. Mas o que há de especial no sumiço de Santi? Suspeita-se que a polícia militar “desapareceu” com ele. E se isso se confirmar, seria o primeiro desaparecimento "oficial" do governo Macri. O fato tomou proporções gigantescas nas redes sociais, fazendo com que a ONU pressionasse o governo para que localizem o jovem. Tanto que agora é paga uma recompensa de 28 mil dólares. O grupo Clarín tentou minimizar a situação.

O San Lorenzo queria entrar com uma faixa no jogo contra o Racing pelo desaparecimento do rapaz. Mas foi vetada. Fala-se à boca pequena que isso tem a ver com questões políticas. Enquanto o presidente do clube é crítico ferrenho do atual governo, o presidente da AFA, Claudio Tapia é sócio e amigo de Daniel Angelici, considerado o verdadeiro dono do futebol argentino (presidente do Boca Juniors e amigo pessoal de Macri). Como foi resolvido? Simples. Uma faixa entrou com pessoas dos Direitos Humanos carregando com a frase: "Aparición con vida ya de Santiago Maldonado". Desde então pipocam manifestações de times como Banfield, Temperley, Racing. Isso sem contar os trapos com alusão ao desaparecimento do jovem.

Jorge Sampaoli em coletiva de imprensa nessa semana, mostrou seu descontentamento com a falta de resolução do caso há um mês “Pela minha geração e por todo que vivi me incomoda que o que caso de Santiago Maldonado não esteja resolvido”. Para quem não se lembra, na ditadura argentina mais de 30 mil pessoas desapareceram e ainda é uma ferida que segue aberta. Todos os anos, times como o Belgrano entram com faixas para não esquecerem os desaparecidos. O goleiro da seleção Guzmán treinou com uma camiseta escrita “Donde está Santiago Maldonado?” também nessa semana.

A “briga” com os mapuches é antiga desde os tempos do Império Espanhol e intensificou-se no período de independência da Argentina e Chile. Com o general Julio Roca (que se tornaria presidente) em 1879 iniciou-se uma campanha militar a chamada Campanha do Deserto que de norte a sul varreu os indígenas do país. Povos como os mapuche, ranquel e tehuelche foram dizimados até os militares terem domínio até o território da Patagônia. A cena da última batalha estampava até pouco tempo atrás uma nota do país. No governo Kirchner foi substituída pela Evita Perón. Apesar do triste retrato ter sido apagado do cotidiano argentino, não circulando e reproduzindo a selvageria dos militares, os povos de províncias como Rio Negro e Chubut seguem lutando pelos seus direitos territoriais e constitucionais, já que o seu reconhecimento é quase nulo.
Algumas testemunhas (mapuches não identificados) asseguram que ele foi golpeado e jogado numa caminhonete. Outros que ele foi preso. Segundo a Gendarmería o jovem não foi detido. Algumas reportagens circulam falando que os mapuches plantaram evidências falsas.

O que sabe-se até agora é vago e não se vê uma solução até que Santiago apareça. O mesmo acontece com o futebol. Desapareceu há tempos e não vemos uma solução. Mas o caso Maldonado mostrou que ainda há um vestígio daquilo que víamos fora de campo: jogadores, dirigentes, torcedores, enfim, pessoas relacionadas ao esporte se posicionando e manifestando. Hoje não sabemos se a Argentina vai jogar com o aguante e alento devidos. Mas pode ter certeza: enquanto o caso não for resolvido, todos alentarão um só nome: Santi.



 *Guadalupe Carniel é jornalista, pesquisadora e autora do blog Morte Súbita

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