Brasil

28 de agosto de 2017 - 21h45

Minelli: “O futebol brasileiro precisa muito de valores individuais”

   

Minelli entrou para a história do futebol e para o imaginário dos apaixonados pelo jogo ao montar, comandar e conquistar os Brasileiros de 75 e 76 com o “esquadrão imortal” Colorado, equipe que desfilava o bom futebol em campo, formada por craques como Manga, Figueroa, Marinho Perez, Batista, Falcão, Caçapava e Dadá Maravilha.

Em 1977, já no São Paulo, também conquistou o campeonato Brasileiro sobre o Atlético Mineiro, em uma final épica para os são-paulinos, em pleno estádio do Mineirão, emendando assim, uma sequência de três títulos e colocando o Tricolor do Morumbi em outro patamar, na prateleira de cima, onde estavam os clubes que com títulos nacionais.

Na entrevista a seguir concedida ao Blog Crônicas do Morumbi, Minelli, muito gentil, falou sobre a relação entre o futebol praticado antigamente e o dos tempos atuais, considerado moderno, falou sobre os conceitos do bom futebol, a necessidade de estimular a formação de craques no Brasil, entre outros temas. Confira.

Como analisa o futebol do seu tempo em relação ao que é praticado atualmente?


Tudo foi modificado. O futebol se supervalorizou, há muito jogador supervalorizado.

Há muito jogador ruim supervalorizado?

Isso é muito difícil, é uma pecha muito usada pela imprensa, principalmente quando um jogador está em um momento infeliz, porque para chegar ao profissional, chegar e vingar em um time de primeiro nível há que se ter qualidade. Em contrapartida, penso que o futebol, de um modo geral, está com parâmetros muito fora dos que considero necessários pela atual situação do futebol brasileiro, que vive uma fase pré-falimentar, com os clubes gastando horrores, jogadores ganhando muito, comissões técnicas muito grandes e pouca produtividade dentro de campo.

Os altos do negócio futebol, que nos tempos atuais, além da Europa, sofre investidas de mercados como a China, da Ásia, dos Estados Unidos, Índia, isso contribui para acelerar esse ciclo decadente do futebol brasileiro?

Todo mundo gostaria de ter uma Mercedes, uma Ferrari, mas são poucos os que podem comprar. O pior são aqueles que não podem ter esses grandes carros, porém, mesmo assim, ainda compram.

Antigamente os craques brasileiros permaneciam no país. Agora, convivemos com uma situação em que jogadores de times menores nem passam pelos grandes do Brasil, partindo direto para a Europa e outros países, e o torcedor brasileiro só toma conhecimento deste atleta quando um clube está tentando repatriá-lo. Como avalia essa situação?

Isso é sinal dos tempos. O mercado ficou tão amplo e as necessidades dos clubes brasileiros ficaram tão prementes, que agora se utilizam deste artifício de vender alguns jogadores para fazer “caixa” e contratar outros.

Você foi um técnico diferenciado, muito à frente de seu tempo, que há 40 anos já colocava em prática, a exemplo, conceitos como rodízio de atletas. Sendo o futebol – e a vida – cíclico, o que mudou de fato?

Há 42 anos, quando montamos o Internacional de Porto Alegre, bicampeão brasileiro em 75 e 76, com folgas no segundo ano, implementamos exatamente o que se busca nos tempos atuais, que é marcação sob pressão (atual marcação alta), não permitíamos que o adversário se movimentasse muito, jogando muito pelos lados do campo, subindo ao ataque e fechando pelo meio-campo. Isso tudo que nós vemos hoje já acontecia na aquele tempo. É uma pena que o futebol daquela época não contava com a mesma estrutura da mídia atual e, deste modo, não foi tão documentado para mostrar tudo isso que apontei.

Como era a formação da base há 40 anos? E como analisa a molecada que está surgindo?

Perdemos muito tempo com estruturas muito grandes em relação ao número de jogadores. Presta-se muito pouca atenção em qualidades individuais, sendo que são exatamente os jogadores com grandes habilidades que poderão quebrar os atuais esquemas táticos.

No futebol considerado moderno, um dos pontos que chama atenção é questão do cientificismo exacerbado em detrimento aos conceitos como a capacidade de percepção dos “olheiros”. Sob os conceitos atuais, Garrincha jamais seria selecionado, mas sim encaminhado para o INSS. Como analisa essa dicotomia?

Penso que deveríamos seguir uma linha diferente dessas que estão sendo adotadas, porque não existe pronto socorro em psicologia. Mesmo na psicologia há que se ter fundamentação e precisa-se de tempo.

Tem muita invencionice no futebol chamado de moderno?

São sistemas de jogo. Antigamente, quando o jogador de defesa recuava uma bola para o goleiro ele era vaiado, no entanto, atualmente, batem palma. Os zagueiros ficam trocando bolas atrás, e batem palma. A torcida é tão inflamante, que agora ela vibra quando o atleta dá chutão para cima, completamente fora daquilo que pensamos ser necessário para praticar um bom futebol.

Quais times estão mais próximos do seu conceito de bom futebol?

O Real Madri e o Barcelona são as equipes que praticam um futebol total. São times que marcam bem e prendem a bola quando necessário. Vejo isso também, em menor escala em relação aos espanhóis, no futebol alemão, que está modificando sua maneira de jogar, procurando jogar com muito mais criatividade, bem diferente de antes, quando os alemães eram “robôs”. Vendo esses times, constato que precisaremos evoluir bastante para chegarmos ao título mundial em 2018, na Copa da Rússia.

A criatividade sempre foi o principal elemento do futebol brasileiro, no entanto, há um grande avanço da mecanização devido ao exagero na questão tática. O Brasil está cometendo um erro ao supervalorizar a tática?

O futebol atual precisa muito de valores individuais. Porém, não há mais, porque os sistemas defensivos fecham os lados do campo, setor onde, antigamente, eram executadas as jogadas ofensivas. Ainda não se encontrou no futebol brasileiro uma “arma” para avançar sobre os espaços das pontas do campo.


 
Fonte: Crônicas do Morumbi

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