Brasil

27 de agosto de 2017 - 12h39

Elizabeth Teixeira, aos 92, mantém chama da luta pela terra

Midia Ninja
   

Com 92 anos completados em fevereiro deste ano, companheira de João Pedro Teixeira, militante das Ligas Camponesas e fundador da Liga de Sapé, na Paraíba, Elizabeth pariu 11 filhos, cinco deles já faleceram.

“Eu fiquei muito emocionada de vir aqui hoje porque eu sempre gostei do Lula, vim encontrar com ele e com todo esse povo que tá aí”, afirmou ela.

Falando baixinho, mas com lucidez surpreendente, Elizabeth abraçou o ex-presidente, falou com o público e lembrou que a reforma agrária é urgente no país. Ela permaneceu acompanhando todo o ato, atendendo aos pedidos de fotos, conversas e abraços solicitados por muitas pessoas.

Há 55 anos, no dia dois de abril de 1962, Elizabeth teve o companheiro, João Pedro Teixeira, assassinado por jagunços. Naquela altura, ele era um dos mais importantes líderes das Ligas Camponesas da década de 1960.

Desde a morte do marido, ela também passou a ser sistematicamente ameaçada por jagunços e coronéis e depois pelo governo militar, isso porque continuou o trabalho de organização dos camponeses. Registros mostram que em 1964, dois anos após a morte de João Pedro, a Liga Camponesa de Sapé dobrou o número de associados chegando a organizar 24 mil pessoas.

Fugindo da perseguição da ditadura militar, Elizabeth e os 11 filhos não conseguiram seguir juntos para escapar da morte, ela trocou de nome e passou a viver em São Rafael, no interior do Rio Grande do Norte, assumindo o nome de Marta Maria da Costa.

“Hoje moro em João Pessoa, estou velha e não consigo mais acompanhar toda a luta, todo o movimento”, mesmo assim, nos últimos anos, ela estava presente em momentos importantes da luta, sobretudo na Paraíba, como na noite do sábado (26), no encontro com Lula.

A militante também falou dos retrocessos nos direitos dos camponeses, impostos pelo governo golpista de Michel Temer. Foto: Júlia Dolce

Com uma vida cheia de perseguição, mas também de muita firmeza política, quando perguntada sobre sua lembrança mais forte ela não titubeia:

“O assassinato de João Pedro, mataram ele porque ele lutava pela reforma agrária, mas eu estou aqui até hoje continuando a luta pela terra no campo, para que o trabalhador do campo tenha direito a terra, para ele e a família trabalharem. João Pedro me abraçava todos os dias acreditando nessa luta”, relembra a militante.

Elizabeth Teixeira ficou nacionalmente conhecida com o documentário “Cabra Marcado para Morrer”, do cineasta Eduardo Coutinho, inicialmente previsto como uma ficção que contaria a história das Ligas Camponesas e do assassinato de João Pedro Teixeira, onde ela interpretaria a história de sua própria vida. Suas filmagens iniciaram em 1964, em Vitória de Santo Antão (PE). No meio do trabalho, o regime militar começou a perseguir a equipe do filme, muitos foram presos, outros fugiram.

Quase 20 anos depois, a ficção viraria um documentário. E foi o próprio Eduardo Coutinho que a encontrou ainda em São Rafael, no Rio Grande do Norte. A partir daí, ela reassumiu sua identidade e passou a procurar os filhos que estavam em lugares diferentes do Brasil e em Cuba.

Sobre o golpe de 2016 e o atual governo de Michel Temer, ela é direta. “Ele não mantém responsabilidade com quem vive no campo, não vai fazer a reforma agrária”. Essa também é uma cobrança ao ex-presidente Lula, que apesar dos avanços e da melhoria na vida dos camponeses, não executou a reforma agrária no Brasil:

“Eu penso que a luta pela terra tem que continuar no Brasil até que todos tenham esse direito”, aponta Elizabeth.

Em 2015, quando Elizabeth completou 90 anos, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), inaugurou, na cidade de Lagoa Seca, o Centro de Formação João Pedro Teixeira. Na cidade de Sapé, também na Paraíba, desde 2006 existe o Memorial das Ligas Camponesas, que funciona na casa onde viveram a família de Elizabeth e João Pedro.

O Brasil de Fato entrevistou Elizabeth Teixeira em João Pessoa. Neste domingo (27), a Caravana Lula pelo Brasil chega a Campina Grande (PB) e Currais Novos (RN), na sequência viaja até o Maranhão, onde acontece o encerramento, no dia cinco de setembro.



Brasil de Fato

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