Economia

17 de agosto de 2017 - 8h57

Indicações que afetam o petróleo no mundo e no Brasil


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Empresas não conseguiram perfurar um único poço em áreas que arremataram com este objetivo em 2013, por problemas ambientais não equacionados. É uma leniência significativa com o desenvolvimento do país, de resto presente em outros procedimentos. Em 2008, suspendemos toda licitação de blocos exploratórios no país por cinco anos, não permitindo qualquer exploração petrolífera em área nova. Também, após onze anos da descoberta do pré-sal, aí só fizemos um leilão, e de um único bloco.

Essa política de contenção exploratória no setor petrolífero não é de interesse nacional. Agora, choca-se com a situação que surge no mundo, onde a demanda por petróleo tende a cair. Para realçar a questão, vale uma breve referência histórica.

Foi avassalador o crescimento da indústria do petróleo nos EUA logo após o êxito do famoso poço do “coronel” Drake, na Pensilvânia, em 1859. Cinco anos depois, já existiam 543 empresas no ramo petrolífero, todas trabalhando para produzir e vender o combustível iluminante, o querosene.

Eis que, em 1882, surge a lâmpada incandescente, e a iluminação a querosene fica sem futuro. A indústria do petróleo, com seu principal produto desbancado, não sobreviveria como grande indústria se duas inovações não tivessem aparecido: os motores dos ciclos Otto e Diesel, criados respectivamente em 1878 e 1894, e que usavam como combustível a gasolina e um óleo derivado do petróleo.

Em torno desses dois motores, desenvolveu-se enormemente a indústria automobilística mundial e o petróleo encontrou seu amplo escoadouro, passando a ser usado basicamente para movimentar veículos pelo mundo afora, hoje em número que ultrapassa um bilhão.

Vem então a novidade do momento: esses veículos passam agora por um ponto de inflexão e sua produção avizinha-se do declínio.

No dia 5 de julho passado, a montadora sueca Volvo anunciou que “todos os seus veículos a partir de 2019 terão motores elétricos”.

A Bloomberg New Energy Finance mostrou que hoje, na Noruega, “mais de um terço de todos os carros novos são elétricos” e que o país “planeja, para 2025, não mais vender carros novos a gasolina ou a diesel...”.

Na China, a gigante socialista da Ásia prepara-se para liderar o futuro mercado de carros elétricos, já estando, em números absolutos, na dianteira no mundo, com os EUA e o Japão.

Em julho deste ano, o presidente Emmanuel Macron da França informou que seu país “vai encerrar as vendas de veículos a gasolina e diesel até 2040”.

Nos EUA, a Tesla, que fabrica só carros elétricos, vendeu no ano passado 76 mil desses carros e no primeiro trimestre deste ano 70% a mais que no mesmo período do ano anterior.

Em abril passado, um fato surpreendente foi noticiado: o valor de mercado da Tesla, fundada em 2003, chegou a US$58 bilhões, maior que o da Ford e maior que o da GM, as duas mais tradicionais empresas automobilísticas da América.

A britânica Jaguar Land Rover e as alemãs Audi e Mercedes Benz anunciaram que lançarão modelos elétricos em 2018 e 2019, a alemã BMW divulgará o seu carro em setembro próximo e a Chevrolet lançou o seu “elétrico popular”, batizado de “Bolt”.

O número de carros elétricos em circulação ainda é incomparavelmente menor que o dos tradicionais. O petróleo, ademais, tem muitos outros usos. Mas, os fatos indicam uma reorientação, a curto prazo, da indústria automobilística. Projeções dão conta de que, se o crescimento de 2013 para cá se mantiver, em 2030 cerca de 80% dos veículos novos vendidos no planeta serão elétricos. Daí a Bloomberg afirmar que não estamos em uma “época de mudanças, mas ante a mudança de uma época”. Isto deve nos levar a rever planos e atitudes.

Inicialmente constatar que essa provável retração na demanda de petróleo acontece justo quando passamos a ter muito petróleo. E acontece no quadro da chamada Quarta Revolução Industrial, que aponta para uma grande conectividade digital e para a automoção. Os fatos nos remetem ao ex-ministro de Energia da Arábia Saudita, Sheik Ahmed Yamani, para quem “a idade da pedra terminou não por falta de pedra, mas porque mudou a tecnologia, e a idade do petróleo acabará não por falta de petróleo, mas também pela mudança tecnológica”. Impõem-se mudanças.

A primeira delas é de atitude: certa leniência na busca do desenvolvimento deve ser afastada. Interessa-nos aproveitar o petróleo que temos, o mais rápido possível, sem o que o tempo passará e poderemos ficar “pendurados na brocha”.

A Petrobras deve procurar aprofundar sua condição de empresa “verticalizada”, que atua do poço ao posto; “integrada”, presente em petroquímica, fertilizantes, distribuição, biocombustíveis, etc; internacionalizada.

Em exploração e produção, seu esforço deve ser no pré-sal e campos estratégicos. Seu endividamento não deveria ter-lhe levado a vender, por exemplo, Carcará, no pré-sal, onde já era operadora. Grandes empresas frequentemente tem dívidas, grandes dívidas. Fazem certos desinvestimentos mas, tendo grande geração de caixa e sendo estatal, procuram “rolar” a dívida.
Assim como grandes companhias que estiveram durante quatro décadas no Mar do Norte de lá sairam quando campos outrora gigantes entraram em declínio, também a Petrobras deveria passar a grupos menores, especialmente brasileiros, a continuidade da produção em campos que lhe foram fundamentais há décadas, mas que hoje já estão em declínio.

A Petrobras não deve fazer investimentos em campos em declínio , porque precisa fazê-los no pré-sal, muito mais produtivos. Esses campos, na Bacia de Campos, no Nordeste e em outras bacias podem ser base para grande crescimento de empresas menores, brasileiras particularmente, que, fazendo aí investimentos, podem revitalizá-los, aumentando a produção, emprego e rendas. Ganharia a União, estados e municípios e, com os royalties aumentados, a educação e saúde dos brasileiros.



*Haroldo Lima – é engenheiro, consultor na área de petróleo, foi diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, ANP.










 
Fonte: Valor

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