11 de agosto de 2017 - 9h50

Regina Ribeiro: Bem-vindos à República Xeque-Mate


   
Quando estourou o escândalo da JBS em maio passado, li um artigo muito interessante afirmando que, a partir dali, Michel Temer iria jogar xadrez. Naqueles dias, Temer estava com a decisão do Tribunal Superior Eleitoral que determinaria sobre a cassação da chapa Dilma-Temer nos seus calcanhares. Em 17 de maio, o Brasil dorme sob os efeitos dos diálogos quentes entre Temer e Joesley Batista que renderam ao presidente a denúncia de ter recebido dinheiro de propina. Há 71 dias, Michel Temer assumiu o jogo e espanta pela destreza com que move as peças.

Para começar, tudo indica que ele avança em direção à rainha, apostando seus melhores lances, bem tarde da noite. É o tipo de jogador que espera com frieza máxima o cansaço do opositor para mover as peças essenciais que lhes proporcionarão condições de ganhar o jogo. De lá pra cá, vem acumulando xeques-mates de tal forma que seria quase impossível imaginar tais acontecimentos num País que há pouco mais de um ano se lançou sobre uma presidente acusada de praticar pedalada fiscal.

Michel Temer não joga sozinho. Tem por companhia um grupo de deputados que se comportam tal qual um ventríloquo que se acomoda perfeitamente ao colo daquele que, por momentos, lhe dá um sopro de vida. Não tive paciência de assistir à sessão que livrou o presidente da denúncia de corrupção passiva entre outras coisas. Mas, ao ler algumas frases de deputados governistas, senti-me profundamente constrangida de confirmar uma Câmara de Deputados ajoelhada diante dos arranjos emergenciais e de interesses provisórios; em completa submissão à dinheirama que correu frouxa antes da votação; de braços abertos à negociação de cargos.

Cheguei à conclusão de que o deputado Wladimir Costa, aquele que fez a tatuagem com o nome do presidente, é o mais legítimo representante deste governo. Sem nenhuma noção da vergonha alheia, Wladimir admitiu numa entrevista que votou contra a abertura do processo de investigação de Temer após negociar emendas e cargos. “E o que você queria? Que eu fosse conversar sobre futebol com o presidente?”, perguntou o parlamentar a um jornalista. “Wlad”, como Temer o chama, parece se encaixar muito bem como o símbolo da ordem e do progresso da nossa nova República, a República Xeque-Mate.


*Regina Ribeiro é jornalista.


Opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as opiniões do site.

 


Fonte: O Povo

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