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30 de julho de 2017 - 11h39

Federico Mayor: A globalização da indiferença

Federico Mayor é presidente da Fundação Cultura de Paz e ex diretor-geral da Unesco (1987-1999) Federico Mayor é presidente da Fundação Cultura de Paz e ex diretor-geral da Unesco (1987-1999)

É imprescindível e urgente lembrar que a cada amanhecer milhares de crianças, e mulheres, e homens morrem de fome diariamente, ao mesmo tempo em que o investimento em armas e outros gastos militares alcança os 4 bilhões de dólares anual é inadmissível, desde qualquer ponto de vista, que em vez de elaborar um novo conceito de segurança, a humanidade se preocupe somente em ocupar territórios e fronteiras, e não se faça responsável também pela alimentação, o acesso à água potável, aos serviços de saúde, cuidado do meio ambiente e educação dos habitantes desses espaços tão fortemente protegidos.

É uma vergonha ver que num momento em que não há vontade para se implantar os objetivos de desenvolvimento sustentável e os Acordos de Paris sobre a Crise Climática – especialmente por parte do presidente estadunidense Donald Trump, que já assegurou que não cumprirá com os compromissos assinados por seu antecessor Barack Obama –, a única medida que merece unanimidade por parte da União Europeia, do G7 e do G20 é a de aumentar os gastos militares!

No dia 17 de julho, a imprensa anunciou que a França e a Alemanha construirão conjuntamente um avião de combate europeu. Eu pensava que anunciariam o restabelecimento de um grupo dedicado a dar importante apoio importante aos países que mais necessitam assegurar as mínimas condições de vida digna em seus lugares de origem, para evitar precisamente os fluxos imigratórios. Mas não há nenhuma ação ou reação nessa direção. E os cidadãos da Europa continuam admitindo o inadmissível.

Estamos desaproveitando o imenso potencial de uma tecnologia digital que permite a todos os seres humanos, a maioria deles silenciosos e obedientes desde o início dos tempos, possam agora se expressar sem intermediários e defender seus direitos com firmeza. Era de se esperar algumas reações em escala mundial para enfrentar que atentam contra as condições de vida das próximas gerações (muito próximas!), alertando o magnata que se não muda radicalmente de postura a humanidade, “nós, o povo”, deixaremos, por exemplo, de adquirir produtos estadunidenses. Se Trump “bloqueia… vamos bloquear o Trump!”.

Não podemos continuar só olhando para o lado, fingindo que não é com a gente. Não podemos nos deixar engolir por essa vertiginosa onda de notícias de nos transforma em espectadores passivos, dominados pelo colossal poder midiático – pelas terríveis “armas de distração massiva”, segundo a perfeita expressão criada pela jornalista Soledad Gallego.

Em Paris, no dia 20 de janeiro de 1990, escrevi estes versos no final de um poema:

Sabemos,
e portanto
não temos alternativa

Como podemos
conciliar o nosso sono
sendo cúmplices?

Há pouco tempo atrás, tínhamos a desculpa de que não sabíamos o que realmente acontecia. Agora sabemos. Agora a indiferença é culposa. “E não se esqueça do Haiti”… nem dos que se afogam no Mediterrâneo (mais de 6 mil afogados em 2016, e em 2017 já são mai de 1,6 mil). “O raio que não cessa”… e nós sem tempo para refletir, para decidir que vamos apenas cumprir com os nossos deveres, apesar da urgência em enfrentar problemas que se aproximam de um nível de devastação sem retorno. O que estamos deixando para os nossos filhos e netos!

Quanto mais alerta deveríamos estar, quanto mais reativos deveríamos ser, quanto mais preocupados com o amanhã deveríamos estar… mais dedicados estamos ao presente, mais desconfiados, mais míopes… e aceitamos o inaceitável sem pestanejar. “E não se esqueça do Haiti, nem de todos os demais Haitis”. Então escrevi, em 1995:

Se foram os últimos
soldados
e se iniciou a paz
em nossa vida
sem jornalistas
que filmem
como se vive e morre
cada dia

Já não aparecerás
nas telas
para estragar
as festas e o vinho
dos ricos

Já não morrerás
de bala e fogo

Pelo esquecimento
voltarás a morrer

Como sempre

Fome, desamparo, submissão. Temos que reagir decididamente e com eficácia contra todos os tipos de violência. O Papa Francisco dizia há pouco que “não é fácil saber se o mundo de hoje é mais ou menos violento que antes, nem se os meios de comunicação modernos e a mobilidade da nossa era nos fazem mais conscientes da violência ou mais acostumados a ela”. Lembro que me impressionei ao escutar o professor Juan Antonio Carrillo Salcedo alertar, com a precaução que o caracterizava, sobre a “globalização da indiferença”.

É especialmente perigoso e lamentável que estejamos inertes diante da desordem estabelecida, que serve para “normalizar” as progressivas diferenças entre ricos e pobres, entre opulentos e necessitados. O clamor popular, a voz do povo deve promover sem demora o restabelecimento de um multilateralismo democrático. De uma ONU que possa, com seus recursos pessoais, técnicos e financeiros adequados, cumprir com a missão que dela se espera em todo o planeta, se impondo de uma vez por todas aos nocivos grupos inventados pelos plutocratas neoliberais (G7, G8, G20).

Também na vida cotidiana, devemos lutar por uma democracia genuína, que não se resuma somente a maiorias numéricas – e ainda por cima enraivecidas – e se dedique a seguir pontualmente os “princípios democráticos” que, segundo a Constituição da Unesco, devem “guiar a humanidade”.

Agora já não há desculpas, não adianta vir com aquela conversa de que esquecemos porque “nós, o povo”… não! Pois agora nós podemos nos expressar, participar livre e responsavelmente da transição histórica da força à palavra.


*Federico Mayor Zaragoza é político espanhol. Ocupou o cargo de diretor-geral da Unesco, de 1987 a 1999. Federico obteve o doutorado em farmácia da Universidade de Madri em 1958. 

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