Brasil

21 de julho de 2017 - 17h57

As prostitutas menores de idade levadas para a Europa 

Prostitutas vindas da Etiópia  Prostitutas vindas da Etiópia 

As denúncias são poucas. Apenas 78 de 7000 vítimas são identificadas. “As meninas que prestam queixa precisam de imensa coragem para enfrentar a própria família estando em um país estranho sozinhas, confiando em operadores recém-conhecidos”, diz Carlotta Santarossa, da Organização Mundial da Imigração, responsável pela última pesquisa sobre as pessoas levadas para a Europa através da rota dos refugiados no mar Mediterrâneo central para virarem escravas. No caso, entram para o mercado sexual.

Fazem dois anos que a organização denuncia os números alarmantes de jovens mulheres, especialmente nigerianas, que desembarcam nos portos do sul da Itália e cujo destino na maioria dos casos é a exploração sexual. Os números continuam aumentando: as potenciais vítimas (assim caracterizadas devido a uma série de indicativos) foram 8.277 no ano passado. Entre 2014 e 2015 não chegavam em 3.400. Em mais de 6.500 dos casos foram identificadas como tais. Dessas, apenas 78 denunciaram.

Os motivos pelos quais não denunciam são diversos: a exposição, o medo do contrato feito no país de origem, as ameaças dos traficantes e a dívida da viagem. “Existe uma falta de consciência de que são vítimas. Além disso, na maioria dos casos, as meninas só descobrem o que é sexo aqui”, continua Santarossa, “isso porque são muito jovens, o que é o ponto mais preocupante, que vai piorando de ano em ano: a idade”.

As meninas que desembarcam para serem posteriormente levadas para diversas partes da Itália e da Europa como prostitutas são em sua maioria menores de idade. Adolescentes entre 12 e 13 anos, convencidas a abandonar seu país e depois vendidas nas estradas. De 290 vítimas encontradas pelas autoridades ou encaminhadas para algum meio de assistência em 2016, 164 eram menores de idade. Das 135 relatadas pela rede anti-tráfico, 87 não possuíam 18 anos.

É a história de Precious, de 17 anos, nigeriana. Na primavera de 2016 a polícia a encontrou em uma estrada na Sicília. Assustada, disse ter 21 anos para o delegado e querer encontrar a irmã. Os agentes encontraram suas digitais no arquivo: ela desembarcou há cinco meses, e era menor de idade. Os promotores entraram em contato com a Organização Mundial da Imigração, que a achou em um condomínio fechado, para onde tinha sido levada quando chegou no país. Ela ainda estava vestindo uma peruca vermelha e um vestido apertado que lhe haviam dado para procurar clientes na estrada. As agentes da organização lhe contaram a história de uma garota como ela, obrigada a se prostituir para pagar a dívida da viagem.

Precious desabafou que nunca havia feito sexo com um homem antes de desembarcar na Itália. Era obrigada a ficar na estrada 12 horas por dia, e estava com medo de ter contraído alguma doença sexualmente transmissível. Tinha receio também do contrato e de quem a conhece. A Organização Mundial da Imigração foi ao seu encontro todo dia durante um mês. Ela contou que não conseguia dormir, que já tentou fugir e voltar para os traficantes e que as vezes pensava em morrer: “as vezes, porém, o medo de voltar para a estrada e para a prostituição é maior do que todos os outros”, conta a agente que cuidou dela. No final, Precious encontrou a coragem para denunciar, e hoje vive em uma instalação segura, aprendeu o italiano e está estudando para ser mediadora cultural.

É essa a esperança que Santarossa quer passar: “o foco das instituições está mudando”. As associações estão tentando descobrir quando há algo de errado e intervir em tempo, mas muitas vezes ainda falta estrutura e vagas em unidades especializadas. Por isso a atenção para esse problema só deve aumentar: não agir para defender essas meninas é ser cumplice.



Tradução por Alessandra Monterastelli 

Fonte: L'Espresso 

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