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12 de julho de 2017 - 15h02

Austeridade na berlinda no Reino Unido


Créditos da foto: GETTY IMAGES Créditos da foto: GETTY IMAGES
Se a inesperada maioria absoluta de David Cameron nas eleições de 2015 foi interpretada por unanimidade como um respaldo à austeridade, a perda dessa maioria por Theresa May em 8 de junho foi sua rejeição. Entre um e outro, o referendo sobre o Brexit do ano passado que, mais que uma votação sobre a Europa, foi a expressão de um mal-estar nacional. Os quatro ataques terroristas que o país sofreu em três meses. O horripilante incêndio em uma torre de apartamentos sociais em Londres. Estes dias em Westminster, tudo caminha para marcar o fim de um ciclo em um país que vive, desde 2010, o maior e mais longo corte no gasto público desde que existem registros.

A pesquisa anual sobre atitudes sociais no Reino Unido, publicado esta semana, revelou a rejeição popular à austeridade. Pela primeira vez desde a crise financeira da década passada, mais britânicos (48%) querem aumento nos impostos para permitir aumento do gasto público do que aqueles (44%) que querem que os níveis de impostos e gastos continuem como estão. Em 2010, quando os conservadores chegaram ao poder depois da crise, apenas 32% queriam mais impostos e mais gastos. Hoje, 83% acreditam que o Governo deve gastar mais ou muito mais em saúde, 71% em educação e 57% na polícia.

“Depois de sete anos de austeridade, a opinião pública mostra sinais de que está voltando a posições a favor de mais impostos e gastos, e maior redistribuição da riqueza”, diz Roger Harding, diretor do estudo. “Também vemos que está suavizando a atitude em relação àqueles que recebem auxílio do Estado”.

As rachaduras no Governo se abriram com o debate sobre as restrições aos aumentos salariais dos funcionários, que a oposição trabalhista exigiu que fossem eliminadas, apoiada moralmente pela imagem dos heroicos bombeiros que continuam arriscando suas vidas para procurar corpos nas cinzas da torre Grenfell. Pesos pesados do Executivo, incluindo Boris Johnson, se uniram ao Partido Trabalhista nesta semana ao questionar o limite de 1% para o aumento dos salários dos 5,4 milhões de trabalhadores públicos, quando a inflação é de cerca de 3%.

A postura de Johnson e companhia tem um lado oportunista: uma postura frente a uma possível batalha pela liderança que ninguém descarta. Logo veio a reação irada do ministro das Finanças, Philip Hammond, com medo de perder uma margem de manobra reduzida pelos objetivos de equilíbrio orçamentário que ele mesmo impôs e a real possibilidade de uma desaceleração da economia após o Brexit.

A realpolitik levou a primeira-ministra na quarta-feira a se aliar com Hammond e levantar o espectro da Grécia no Parlamento. Mas a verdade é que, já faz um ano, quando tomou as rédeas de um país em estado de choque, May intuía que tinha alcançando os limites da austeridade. Em seus primeiros discursos, defendeu um conservadorismo para a classe trabalhadora e um Estado intervencionista. “Não acreditamos no livre mercado sem limites”, disse, “rejeitamos o culto ao individualismo egoísta”.

Era uma postura retórica: o discurso não estava apoiado em fatos. Mas, depois da Semana Santa, May decidiu antecipar as eleições disposta a aumentar sua hegemonia sobre as cinzas do UKIP populista e o supostamente suicida giro trabalhista à esquerda. Fracassou estrepitosamente. O “mayismo” morreu antes de nascer. E o vazio ideológico no conservadorismo, combinado com uma liderança fraca, levantou o tabu.

O Reino Unido foi um laboratório de redução do Estado desde que Margaret Thatcher chegou ao poder em 1979. Governos conservadores e também do Novo Trabalhismo continuaram com as privatizações, a desregulamentação e a redução do “Estado babá”, nas palavras da própria Dama de Ferro, construído pelo trabalhismo do pós-guerra.

Mas hoje a questão voltou a estar no centro da batalha ideológica entre um partido conservador enfraquecido e uma oposição trabalhista fortalecida. “A primeira-ministra encontrou bilhões de libras para manter seu próprio trabalho, por que não encontra o mesmo dinheiro para manter as enfermeiras e os professores no deles?”, perguntou o líder trabalhista, Jeremy Corbyn, na quarta-feira no Parlamento referindo-se ao milionário investimento extra na Irlanda do Norte que May se comprometeu a fazer em troca do apoio do partido regional DUP a seu governo minoritário.

Corbyn quebrou o consenso neoliberal dos últimos 30 anos e conseguiu o apoio do público, especialmente dos mais jovens. Colheu um resultado histórico: dez pontos a mais do que em 2010 e até cinco a mais que em 2005, quando Blair venceu sua terceira eleição.

“Os eleitores estão finalmente cansados da austeridade, do racionamento, da subcontratação e da avareza”, opina Jonathan Eley, colunista do liberal Financial Times. “Sete anos de contenção das despesas estão começando a se manifestar na qualidade de alguns serviços públicos.”

Mas se algo simboliza tragicamente a rejeição à contenção orçamentária, é a Torre Grenfell. Após a crise de 2008, os orçamentos dos ministérios foram cortados em uma média superior a 20%. A tesoura passou dos 50% no financiamento para as autoridades locais, responsáveis pela habitação social. Cavando as cinzas da torre surge um Estado que abre mãos de responsabilidades deixando a política habitacional para o setor privado, uma desregulamentação que permite poupar em segurança para economizar algumas libras e, finalmente, uma sociedade ferida por profundas desigualdades exacerbadas por uma redistribuição da riqueza deficiente.

Enquanto presidiam a retirada histórica do Estado, os conservadores prometiam “uma fogueira das regulamentações”. “Bem”, escreveu o colunista do The Guardian, Jonathan Freedman, após o incêndio da torre, “pois aqui está sua fogueira”.


 Fonte: Carta Maior

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