Cultura

12 de julho de 2017 - 8h49

Ao nosso cinema, as migalhas!


   
Independente da qualidade dos filmes, o que chama a atenção é a força do lançamento. Quase ¼ das salas estão ocupadas pela a história do jovem aracnídeo. Como disputar a venda de ingresso se as estreias brasileiras ganham apenas um horário em alguma sala e muitas vezes fora do horário nobre? Para o cinema brasileiro alcançar voos mais altos não só basta vontade, é preciso decisão política de mudar o status-quo.

Foi tentando resolver tal distorção que a Ancine, no período em que o Brasil gozava de auto-estima, distribuição de renda e desenvolvimento, elaborou um projeto para ampliar o número de salas de cinema para dar vazão à nossa produção cinematográfica. Já que, em tese, quanto mais salas, mais distribuição, mais exibição, mais democracia nas telas.

Porém, isso não é fácil. Os grandes distribuidores e exibidores sempre deram preferência aos blockbusters americanos. Por isso, os grandes complexos localizados nos Shoppings nunca incluíram filmes nacionais, exceto as comédias globais, e mesmo essas em total desequilíbrio. Ou seja, a luta da Ancine de dar alternativa de exibição além dos grandes complexos de exibição é a mesma do pequenino Davi contra o gigante Golias.

A recente SPCine também fez um projeto para distribuir filmes nacionais em circuitos alternativos, como CEU’s, Cinemas de Rua, Associações, entre outros. O motivo é sempre o mesmo, despertar no espectador brasileiro a vontade de assistir filmes com outra linguagem, independentes, e alimentar o (sonho) de ampliar o gosto do público para as nossas produções.

Mas não é fácil competir com uma indústria. Os americanos pensam num filme como calça jeans, celular, computador... Um filme é uma mercadoria.

Se procurarmos na história do Brasil, vamos encontrar inúmeras vezes que o governo americano pressionou o país para inibir qualquer política que valorizava as produções brasileiras em nossas salas de exibição. Teve até um episódio em que um representante norte-americano disse que não mais importaria as nossas laranjas se não aumentássemos as exibições dos filmes americanos.

Ocupação cultural é uma forma inteligente de se colonizar um povo.

Por outro lado, no Brasil temos uma semi-industria, que avançou muito no último período. Nos 14 anos de governo popular, criamos uma produção robusta, mas ainda sem uma visão estratégica de ocupação, ficando muito sobre os ombros da própria Ancine.

E o que acontecerá agora, com um governo sem legitimidade, com um Ministério da Cultura à deriva e uma Ancine que, nesse contexto, está fragilizadas e provavelmente não mais vai poder atuar de forma autônoma?

Bem, como dizia um ancora de tv: as imagens são dramáticas.

Mesmo assim, o cinema brasileiro vive. No mesmo começo de julho estreiou – em pouquíssimas salas – “Os pobres diabos”, de Rosemberg Cariri; “SoudTrack”, da 300 ml; “As aventuras do pequeno Colombo”, de Rodrigo Gava. Além de outras estreias pelo Brasil. E se tudo der certo, eles ficarão em cartaz por míseras duas semanas.

Fazendo uma conta simples, os “primos pobres das salas de cinema no Brasil” – se for mantida a media de 20 expectadores por sessão, em uma sala, por duas semanas – terão levado 280 pessoas aos cinemas. Já o Homem Aranha com 660 salas, 4 horários diferentes, com os mesmos números de pessoas levaria quase 1 milhão. Se ainda contarmos com a forte publicidade para a divulgação do filme, a política americana no cinema, e a dominação cultural que vem de quase um século, esse número passará de 3 milhões.

Ou seja, ou a gente toma uma atitude contra a picada do Aranha, mantendo as políticas e projetos desenvolvidas pela Ancine ou I like American bullshit.


 *Vandré Fernandes é cineasta.

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