Economia

22 de junho de 2017 - 19h56

Vender commodities e comprar tecnologia "é conta que não fecha"


Foto: Guilherme Santos/Sul21
“O mundo está presente no Brasil; nosso país, entretanto, não está no mundo inteiro. Isto não é uma crítica, é um pedido de atenção à oportunidade”, disse Ozires Silva. “O mundo está presente no Brasil; nosso país, entretanto, não está no mundo inteiro. Isto não é uma crítica, é um pedido de atenção à oportunidade”, disse Ozires Silva.
Em 1965, Ozires Silva preparava um relatório para a Força Aérea Brasileira. Os dados mostravam que a aviação civil no país vinha diminuindo de tamanho: diversas cidades pequenas e médias, que eram servidas por aeroportos regionais, perdiam passageiros por conta de uma mudança tecnológica que não fora acompanhada pela infraestrutura aeroportuária nessas localidades. Os aviões a jato, maiores, precisavam de pistas mais extensas e com pisos específicos.

Três anos depois, às 6h de uma manhã de outubro, um avião novo decolava do Centro Técnico Aeroespacial, em São José dos Campos. Mais flexível, ele fora construído em um galpão que parecia mais “uma marcenaria”, às margens da Via Dutra, do que um hangar. Era a primeira versão do Bandeirante, o primeiro turboélice que viria a ser produzido pela Embraer – empresa que recém começava a ser gestada, entre outras pessoas, pelo engenheiro Ozires Silva. “Mais espantoso do que a decolagem foi o avião ter pousado”, brincou.

“O mundo está presente no Brasil; nosso país, entretanto, não está no mundo inteiro. Isto não é uma crítica, é um pedido de atenção à oportunidade”, disse Ozires. Ele participou, na manhã desta quinta-feira (22), da palestra magna do Seminário “Tecnologia, inovação e soberania”, promovido em comemoração aos 75 anos do Sindicato dos Engenheiros do Rio Grande do Sul – SENGE-RS. A uma plateia que lotou o Teatro da Pontifícia Universidade Católica, o engenheiro falou sobre sua experiência na criação e gestão da Embraer, além da importância da criação de tecnologia e produção de inovações por parte do empresariado brasileiro.

“Foi uma fala muito satisfatória por sua mensagem. O Ozires é um homem de 86 anos, entusiasmado, que passa uma mensagem de não desistir, com a experiência fantástica que ele teve – e também porque fala sobre a educação e que tudo parte daí, inclusive a soberania. É o mais importante para nações que querem vencer. E havia mais de 200 estudantes na plateia, entre os cerca de 600 que assistiam à palestra, sem contar quem acompanhava pela internet”, avaliou o presidente do SENGE, Alexandre Wollmann.

Ozires conta que o avião Bandeirantes, tecnicamente chamado de Embraer EMB-110, aeronave utilizada para transporte civil e militar, foi bem sucedido porque contemplava uma necessidade daquele tempo – e que isso é essencial ao se pensar em inovação tecnológica. Líderes do mercado mundial, à época, disseram que o projeto se tratava de uma “tolice”; a Cessna, fabricante estadunidense de aviões menores, chegou a dizer que não havia sentido na ideia. Ozires conta que chegou a “sentir alívio” ao saber que grandes empresas não percebiam a existência daquele nicho de mercado.

Os Estados Unidos, entretanto, viviam uma situação descrita como “dramática” na aviação regional – e aí havia uma oportunidade para que a Embraer competisse em um mercado completamente novo para uma instituição brasileira. Ele lembra que o país nunca desenvolveu tecnologia no desenvolvimento de automóveis, mas, na aviação, ocupa posição importante.

A ideia de criar produtos que satisfazem uma gama variada de necessidades, disse o engenheiro, foi o maior acerto da política da empresa: “é preciso fazer o que o mundo quer, e não o contrário”, ilustrou. Assim surgiu o Xavante, avião militar desenvolvido em parceria com italianos; ou Ipanema, aeronave destinada a uso agrícola desenvolvida em um ano e meio; ou o avião Brasília, o primeiro a ter cabine pressurizada a ser produzido pela Embraer.

“Não é suficiente fazer um belo trabalho de engenharia. Se você for a alguma universidade, vai encontrar tecnologias espetaculares. Se não forem levadas ao mercado, porém, não têm valor algum”, argumentou.

A Embraer é uma das poucas multinacionais latino-americanas desse porte, empregando cerca de 20 mil pessoas – e, entre essas, mais de três mil engenheiros dedicados à inovação. Hoje, a empresa ocupa o quarto lugar no mercado mundial de fabricação de aviões. Criada como sociedade de economia mista, em 1969, Ozires foi seu primeiro presidente. Foi ele, a partir de 1991, que conduziu o processo de privatização da empresa, no contexto da crise econômica do final da década de 1980 – e conta que se optou, naquele momento, pela necessidade da existência de capitais nacionais para a venda.

Nós vemos, hoje, por exemplo, o problema dos automóveis. Fala-se em poluição, que o motor do automóvel é pouco eficiente – e é verdade. Criamos o etanol e estamos matando-o. O único país do mundo que tem uma rede de distribuição de um produto biodegradável. Brasileiro virou especialista em cortar o caminho dos próprios brasileiros.

Ozires falou sobre os “ingredientes fundamentais” para o sucesso de uma empresa baseada na engenharia. Ele atribui à educação – sobretudo dos engenheiros formados pelos institutos militares da época – um dos pilares de fundação da Embraer; citou o exemplo da Coréia do Sul e da China, países que até o final do século XX eram consideradas economias secundárias, e, pelo avanço tecnológico, mudaram de posição na divisão internacional do trabalho. Ele diz que a criação de produtos com alto valor agregado – ao contrário do Brasil, que vende commodities baratas e compra tecnologia cara – é a saída para “uma conta que não fecha”. A capacidade de inovação, segundo ele, não se define apenas pela criação de novas tecnologias, mas também pela adaptação e pelo aperfeiçoamento de técnicas já existentes.

Cético quanto à capacidade dos governos em resolver as crises, Ozires diz que é preciso atitude, “da nossa parte, de dizer que nós somos os responsáveis pelo nosso país, e não transferi-la para os políticos, que devem obedecer a nós – e não o contrário”. Ele afirma que é otimista em relação ao futuro do país, por suas vocações naturais e qualificação técnica, apesar do mau momento econômico. “Essa é crise é nossa? Eu diria que não. É do governo. E ele está nos impondo essa crise a ferro e fogo. Quantas pessoas, neste tempo, deixaram de se alimentar, de ter emprego, de levar as crianças para a escola?”.

A respeito das consequências dos recentes escândalos de corrupção para empresas brasileiras baseadas na engenharia, Ozires diz que não se pode correr o risco de danificar a imagem das empresas, a despeito das punições necessárias a indivíduos. “Quem tem culpa são as pessoas que encontraram oportunidade fora dos comportamentos éticos que precisamos ter em nossa sociedade. As pessoas têm que ser punidas. Agora mesmo a Odebrecht foi proibida de fazer negócios na Colômbia. É intolerável fazer uma coisa dessa natureza. Veja, por exemplo, se o governo coreano fala mal da Samsung. Houve corrupção recentemente descoberta. E a empresa continua produzindo e vendendo”, afirmou.

Alexandre Wollmann fez uma avaliação parecida com a de Ozires, e, para ele, o sindicato deve se propor a fazer debates cujos temas têm a ver com a sociedade brasileira. “O caso deste seminário cai como uma luva. Digo isso porque há uma tendência a manchar a engenharia brasileira, sobretudo desde a Lava Jato. Os casos da Odebrecht e da Petrobrás são emblemáticos por conta do cenário político atual no Brasil – um país que se encontra parado, engessado. Por isso quisemos trazer casos de sucesso como o da Embraer, nesta manhã, ou o da Petrobrás, à tarde, uma empresa que desenvolveu tecnologia para explorar petróleo em profundidade. Tudo isso é fruto da engenharia nacional. Temos, por isso, certeza que pode estar aí um dos pilares da retomada do crescimento”.


 
De Porto Alegre, Gustavo Mascarenhas, do Sul21

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