Cultura

7 de junho de 2017 - 16h16

Podemos admirar a Mulher Maravilha, mas não Gal Gadot

Divulgação
Não é fácil ver que um dos filmes mais aguardados e o primeiro filme solo de uma heroína nos cinemas em 10 anos é interpretado por alguém que têm definições tão distorcidas do conceito de feminismo Não é fácil ver que um dos filmes mais aguardados e o primeiro filme solo de uma heroína nos cinemas em 10 anos é interpretado por alguém que têm definições tão distorcidas do conceito de feminismo

É importante trazer alguns apontamentos iniciais neste artigo opinativo antes de discorrer sobre o assunto. Por mais que eu ame a Mulher Maravilha e a importância do que ela representa para gerações atuais e futuras, esse artigo não tem como objetivo desqualificar ou boicotar um dos filmes mais aguardados esse ano, dirigido pela cineasta Patty Jenkins, mas fazer algumas observações sobre uma declaração que a atriz Gal Gadot, que interpreta a guerreira amazona de Themiscyra, deu há alguns anos. Como feminista interseccional, me vejo na responsabilidade de comentar sobre esse assunto, por acreditar ser algo sério demais para simplesmente ignorar.

Perambulando pela internet afora em busca de entrevistas e fotos sobre o longa da Mulher Maravilha, que estreou dia 1º de junho, deparo-me com um depoimento antigo, de 2014, onde a atriz israelense Gal Gadot (declaradamente sionista) publicou em seu perfil oficial do Facebook o seguinte: “Mando meu amor e orações para os cidadãos de Israel, especialmente para todos os meninos e meninas que estão arriscando sua vida protegendo meu país contra os terríveis atos do Hamas, que estão se escondendo como covardes atrás de mulheres e crianças… Vamos superar!!! Shabbat Shalom!”. (#nósestamoscertos #libertegazadohamas #pareoterror #coexista #amoIDF (IDF: exército israelense).

Um movimento judaico radical e mundial que se refletiu no estabelecimento e desenvolvimento do estado de Israel. Esse desenvolvimento de Israel envolve a invasão e ocupação do país da Palestina e os assassinatos de palestinos inocentes. Um sionista é alguém que apoia a ocupação de terras palestinas por parte de Israel, que inclui os crimes de guerra cometidos pelos militares israelitas.

Por ser feminista e analisar as obras através de um recorte de gênero, assim como criticar declarações machistas ou misóginas de celebridades masculinas, ver um depoimento como esse, declarado pela atriz Gal Gadot, fez com que eu exercitasse minha responsabilidade enquanto feminista interseccional e apreciadora da cultura pop, e sobretudo, como ela pode influenciar nossas vidas. Por mais que um filme não seja “apenas um filme”, pois somos bombardeadas constantemente do “ideal de beleza”, da definição do “amor romântico” e por aí vai – os filmes que consumimos acabam influenciando nossas expectativas e desejos de alguma forma – o que uma celebridade representa – por mais que sejam pessoas passíveis de defeitos e erros como qualquer outra – também exercem uma influência enorme com seus posicionamentos sobre determinados assuntos.

O que esta declaração de Gal Gadot representa é algo muito sério, pois foi publicada na mesma época em que mais de 2.000 palestinos foram executados pelo exército, sob ordens do Estado de Israel (na maioria, civis, mais de 11 mil feridos e cerca de 100 mil deslocados) – incluindo centenas de mulheres e crianças (550 crianças, exatamente – só em 2014). E apesar de saber que a atriz israelense serviu ao exército israelense (IDF) antes da escolha para interpretar a Mulher Maravilha, isso me fez questionar sobre a responsabilidade e o impacto que tal depoimento tem na vida real. Será que ao declarar tais dizeres ela não pensou nas inúmeras crianças, que provavelmente adorariam a personagem da Mulher Maravilha, e que morreram decorrentes de uma ideal fascista que Israel prega e ela apoia?

A intenção aqui não é refletir sobre o cerne dessa “guerra” (que na verdade é um genocídio, uma política higienista e fascista), que existe por décadas e já executou milhares de inocentes palestinos (sem falar nas vítimas de outros países), numa tentativa de expulsá-los de seu próprio território, mas pensar no poder que tais palavras têm no mundo real, onde as verdadeiras mulheres maravilhas são todas nós que lutamos a cada dia por um mundo mais igualitário, tentando enfrentar inúmeras situações machistas e dificuldades pelo simples fato de sermos mulheres, sem contar as mulheres negras em nosso país que sofrem mais dificuldades que uma mulher branca jamais poderia vivenciar.

Será que nós, feministas, não quereremos enxergar o quanto o sionismo de Gal Gadot afeta inúmeras mulheres, ainda mais vindo de alguém que interpreta uma personagem declaradamente feminista, que prega a igualdade econômica, social e racial entre homens e mulheres? Dizemos sempre que o feminismo inclui todas as mulheres, mas será que nossa definição de feminismo reconhece a sororidade apenas para mulheres do ocidente?

Será que devemos apoiar declarações de mulheres como Gal Gadot, pelo simples fato de serem mulheres? Devemos ignorar e apaziguar tais declarações por vir de uma mulher branca do ocidente que está interpretando uma das heroínas mais famosas mundialmente? Que definição de justiça, igualdade e feminismo é esta, em que Gal Gadot apoia e delimita quais são as mulheres e crianças que “merecem” morrer decorrentes de um militarismo fascista? Ela está adotando o mesmo discurso de culpabilização que tantos homens nos jogam na cara todos os dias para justificarem seus atos misóginos? Essas mulheres e crianças do oriente médio, que são os grupos mais vulneráveis em tempos de guerra, não merecem a justiça e a igualdade que a personagem da Mulher Maravilha tanto defende?

Talvez o fato do filme ter sido banido no Líbano recentemente possa impulsionar um exercício de reflexão para Gal Gadot sobre seu conceito de feminismo e a importância de crianças terem uma figura feminina forte nos cinemas, o que ela tanto prega em suas declarações na imprensa.

Não é fácil ver que um dos filmes mais aguardados e o primeiro filme solo de uma heroína nos cinemas em 10 anos é interpretado por alguém que têm definições tão distorcidas do conceito de feminismo, ainda mais devido a importância que a personagem da Mulher Maravilha representa para o movimento feminista, mesmo sendo uma personagem fictícia, mas que possibilita a discussão da igualdade entre homens e mulheres dentro da cultura nerd. Vou assistir a Mulher Maravilha, pois é uma das minhas heroínas favoritas e é um dos filmes que mais aguardei este ano, mas jamais posso admirar ou vangloriar uma pessoa como Gal Gadot.


*Isabelle Simões é bacharel em direito e feminista interseccional

Fonte: Delirium Nerd

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