Cultura

19 de maio de 2017 - 16h26

O Caldeirão de Santa Cruz do Deserto de Rosemberg Cariry

Divulgação
   

Depois de alcançar grande progresso, a comunidade foi destruída pela polícia cearense em 1936, e por bombardeio de aviões, em 1937, deixando uma tragédia de mais de mil camponeses mortos. Através dos depoimentos de remanescentes e de símbolos da cultura popular, o filme faz uma reflexão sobre o poder, a liberdade e a luta pela terra, chegando até as manifestações pela reforma agrária empreendidas pelos camponeses sem-terra nas romarias do padre Cícero, no final do século 20.

O filme O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto é histórico em dois sentidos: primeiro, trata-se de documentário, longa-metragem, em cores e preto & branco, contendo depoimentos e imagens inéditos sobre os trágicos episódios que culminaram com a destruição da comunidade liderada pelo beato José Lourenço; segundo, é uma produção cearense, com 80% de recursos humanos e financeiros do Ceará. É um filme que marca o encontro do povo cearense com a sua memória, durante tantas décadas amordaçada, e marca também a consolidação do Ceará com o novo e importante centro de produção cinematográfica do Nordeste.

Sem o “ranço” do documentário tradicional, misturando realidade com elementos ficcionais, o filme não se prende apenas ao passado. Muitos acontecimentos presentes ofereceram imagens que redimensionaram historicamente a narrativa. Além de todo o material iconográfico (fotos da época, desenhos, manchetes de jornais etc), também lança mão do imenso e vigoroso “corpus” da cultura popular nordestina. Nele, os artistas populares, os romeiros, os camponeses sem-terra narram a história. Quem fala do Caldeirão é o boi de fitas armado por Pedro Boca Rica, é a poesia de Patativa do Assaré, são os brincantes do Boi Lua Branca, do Guerreiro de Dona Margarida, do maneiro-pau de Mestre Cirilo, da banda de pífanos dos Irmãos Aniceto; são os penitentes do sítio Cabaceira de Barbalha, são os ex-votos de imburana e a inumerável romeirada do padrinho Cícero. São os bonecos de Maria do Barro Cru e de Ciça do Barro Cru. Em barro, elas modelaram mais de 500 bonecos e cenas coletivas, refazendo toda a epopeia do Caldeirão. Estes são os elementos culturais, presentes e vivos, que ajudam a conduzir o elo narrativo, que constroem as metáforas das resistências, que se fazem símbolos concretos e expressão da vida e luta do povo nordestino.

ande mutirão cearense é como pode ser definido o trabalho para a produção deste filme. Afirmação de que é possível fazer cinema sem emigrar. Uma escola cearense de cinema, de teorias repensadas e testadas na prática. Afirmação de uma estética inovadora que superou a pobreza e os não tão sofisticados recursos técnicos. Ao todo, dois anos de trabalho, de desmedidas buscas da história por praias e sertões.

 

Com uma estética de inspiração popular, o filme resgata a experiência comunitária do Caldeirão, situando-a no contexto sócio-econômico-político do Nordeste e do Brasil. Enfoca formas de organização social, relações de trabalho, coletivização dos meios de produção e manifestações religiosas. Analisa criticamente as causas que levaram ao surgimento e destruição do Caldeirão, abordagem que abrange movimentos políticos e estuda os papéis então exercidos pelas oligarquias políticas regionais e a Igreja, detonadoras do processo de repressão. O filme mostra, sobretudo, a positiva experiência socializante do povo, sua sociedade diferenciada da sociedade global, sua cultura e sua heróica resistência.

Filmado quase todo com câmera na mão e som direto, para melhor captar a força expressiva das multidões de romeiros e dos remanescentes, o filme tem sua fotografia profundamente marcada pela luminosidade do Ceará, dispensando-se, quase que por completo, o uso de refletores. A fotografia é marcada por zonas de sombras e pontos de luzes intensos – concepção estética nascida do estudo do colorido forte da cerâmica popular do Cariri e do contraste marcante da xilogravura nordestina.

No final, a revelação com detalhes e a comprovação de um episódio histórico, motivo de orgulho e vergonha para os cearenses. Orgulho por ter sido o Caldeirão uma das mais avançadas experiências de organização popular e economia agrária já registradas no Brasil. Vergonha pelo massacre da população camponesa do Caldeirão, do qual a sociedade cearense em peso foi cúmplice.

O filme aborda um período histórico que vem do início do século até meados da década de 80 – 50 anos depois da destruição da comunidade organizada pela irmandade da Santa Cruz do Deserto. Nas romarias de Juazeiro do Norte e de Canindé, os romeiros, deserdados filhos da terra, já erguem a legenda do Caldeirão como um estandarte de luta pela Reforma Agrária. O filme teve uma grande importância social e política, sendo “adotado” pelas pastorais da terra na organização de camponeses por todo o Brasil e motivando até mesmo a posterior invasão do sítio Caldeirão, por camponeses sem-terra. A pesquisa realizada e a movimentação em torno das filmagens do Caldeirão são alguns dos acontecimentos responsáveis pelo resgate da história que desaguou, posteriormente, em muitos livros e teses acadêmicas. O filme quebrou tabu, sob vários aspectos, fosse resgatando um tema proibido, quer fosse por ter mostrado que era possível fazer cinema no Ceará, em bitola profissional, e ter este cinema reconhecido no Brasil e no exterior. Hoje, os acontecimentos religiosos populares do Caldeirão fazem parte da história do Brasil. O filme cumpriu, na época, importante função social e estética. O Caldeirão tornou-se um filme cult do cinema nordestino que volta a circular e propõe novas reflexões.

Caldeirão premiado na Bahia

Ao arrebatar os prêmios Glauber Rocha, da Organização Católica Internacional de Cinema (OCIC) e Tatu de Ouro do Júri Popular, o filme O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, do cearense Rosemberg Cariry, revelou-se o grande vencedor da 16º Jornada de Cinema da Bahia, encerrada à noite de segunda-feira e que de alguns anos para cá tem caráter internacional. Ao todo, Rosemberg Cariry recebeu Cz$ 100 mil e mais os respectivos troféus.

O júri internacional, formado por Otávio Bezerra e Ildásio Tavares, do Brasil, Katherine Egan, do Canadá, Carlos Azpurua, da Venezuela e José Rodrigues, do México, concedeu ainda o prêmio Paulo Emílio Salles Gomes ao filme de pesquisa histórica e antropológica “Avante camaradas”, de Mithellini Bondi, do Rio de Janeiro.

O Tatu de Ouro de Melhor Curta-metragem ficou com “Queremos as ondas do ar”, de Francisco Cezar Filho e Tata Amaral (SP), o Tatu de Ouro de Melhor Média-metragem coube a “Esa invencible esperanza”, da cubana Rebeca Chaves. “Memória y homenage a la noche de 16 de setiembre de 1976”, direção coletiva da produtora argentina Praxis Audivisual ficou com o prêmio Tatu de Prata de Melhor Documentário, enquanto “A lenda do pai Inácio”, de Póla Ribeiro (BA) e “Um dia… Maria”, de Marco Antonio Simas (RJ), dividiram o prêmio Tatu de Prata de Melhor Ficção.

“El sueño de los hombres”, do venezuelano Armando Arce, ganhou o Tatu de Prata de Melhor Animação, enquanto “Impresso à bala”, do carioca Ricardo Favilla, ficou com o prêmio especial do júri, cabendo menção honrosa ao filme “La ultima comunion de Manuela”, da venezuelana Marianela Alas. Vito Diniz ficou como prêmio de Melhor Fotografia pelo filme “A lenda do pai Inácio” e “Kid Chocolate”, uma realização coletiva de Cuba ganhou o Tatu de Bronze de Melhor Montagem. Mereceu destaque ainda “Mas Alla el silencio”, dos chilenos Ximena Arrieta e Herman Mondaca, que ganhou o grande prêmio de vídeo Walter da Silveira.

Assista um trecho:  



Fonte: Caderno de Cinema

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