Cultura

5 de maio de 2017 - 14h06

“A gente morre é para provar que viveu”

Reprodução
Guimarães Rosa tirou a língua portuguesa do museu, do que era considerado castiço, e a levou para os sertões, para a amoralidade de tudo quanto é meio de mato e meio de caminho nos confins da alma Guimarães Rosa tirou a língua portuguesa do museu, do que era considerado castiço, e a levou para os sertões, para a amoralidade de tudo quanto é meio de mato e meio de caminho nos confins da alma

Livre, a língua percorreu o território inteirinho, virou o tal do “português do Brasil”, que não se deixa reger por reforma alguma. O português do Brasil não é um, mas muitos, entre eles, cito o favelês, ainda bastante incompreendido nas escolas.

O favelês está fazendo o usual caminho do popular para o erudito, assim como o fado e o jazz migraram da pobreza material para a riqueza espiritual nas nações onde se originaram, até chegarem ao mundo e despencarem para outros planetas.

Favelês é língua de mano, mano é Brasil, mano saiu de dentro da obra-prima do Rosa, “Grande Sertão: Veredas”, e tem muitos sotaques conforme a periferia que habite.

Nesta sexta-feira (5), Dia da Língua Portuguesa, o favelês chega, simbolicamente, ao Museu: é uma das principais atrações no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. O espaço tornou-se um vão desde que suas instalaçõesforam devastadas por um incêndio, em dezembro de 2015 (o local foi inaugurado em 2006).

Se o Museu da Língua Portuguesa está em reconstrução, a pedra fundamental da sua existência (foi inaugurado em 2006) segue eternamente sólida: “aproximar o cidadão usuário de seu idioma, mostrando que ele é o verdadeiro proprietário e agente modificador da Língua Portuguesa”.

A língua segue sólida principalmente porque museu é museu, lugar de esquecimento honroso, e língua é coisa viva, tem que estar apontada na boca, fumegante, explodindo em versos e resistência.
Quem me ensinou o lugar verdadeiro da língua em minha vida foi o Toni C, escritor que me conduziu ao primeiro sarau de periferia da minha vida, o Suburbano Coletivo, do Buzo, em 2012.

Quero homenagear nesta data o Toni C.e todos os guerreiros da Nação Hip-Hop, poetas, músicos, grafiteiros, artistas e não-artistas. Homenageio todos e também o Rosa, que trago de volta à minha prosa em forma de artigo.

O nosso escritor, que morreu há quase exatos 50 anos, tentava explicar para os que perguntavam quantos idiomas falava, que a quantidade valia menos do que a qualidade e o envolvimento com a língua, o gosto pelo aprendizado, pela coisa. Deixo vocês com o Rosa em suas próprias palavras:
“Eu falo português, alemão, francês, inglês, espanhol, italiano, esperanto, um pouco de russo; leio sueco, holandês, latim e grego (mas com o dicionário agarrado); entendo alguns dialetos alemães; estudei a gramática do húngaro, do árabe, do sânscrito, do lituano, do polonês, do tupi, do hebraico, do japonês, do checo, do finlandês, do dinamarquês; bisbilhotei um pouco a respeito de outras. Mas tudo mal. E acho que estudar o espírito e o mecanismo de outras línguas ajuda muito na compreensão mais profunda do idioma nacional. Principalmente, porém, estudando-se por divertimento, gosto e distração.”


Fonte: Jornal Tornado

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