Brasil

20 de abril de 2017 - 16h27

Baleia Azul, a reforma trabalhista e a pulsão de morte

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A dominância da pulsão de morte, que arrasta adolescentes para automutilação e para o suicídio, é forte sintoma de um mal social maior A dominância da pulsão de morte, que arrasta adolescentes para automutilação e para o suicídio, é forte sintoma de um mal social maior

Muito se tem relacionado este novo “problema” à série 13 reasons why (que não vi ainda, não sou adolescente há muito tempo e não convivo com adolescentes, mas vou ver porque fiquei curiosa). Acho até um pouco estranho a série estrear quase concomitantemente com a disseminação do jogo macabro e, aparentemente, as duas coisas somadas levarem ao suicídio de jovens. Enfim, melhor não conjecturar tanto...

Mas o caso me lembrou outra série, The Following, que, embora seja um pouco tosca, me parece bem similar ao que estamos assistindo (na vida real). A série mostra um serial killer culto e “sedutor”, apaixonado por Edgar Allan Poe, que arregimenta jovens (ele é professor) e os instrui a matar por prazer. Ele e seus discípulos criam uma comunidade onde promovem tribunais e cultos satânicos. Uma vez dentro do esquema, não se pode sair. A maioria não quer sair.

Não são poucas as séries e filmes estadunidenses e europeus protagonizados por assassinos em série. Pior que isso, não são poucos os casos reais desse tipo que ocorrem no chamado “mundo livre” com capitalismo bem desenvolvido. O que me intriga é o que leva pessoas a se envolver nesse tipo de degenerescência.

Na década de 1920 o austríaco Sigmund Freud introduziu na psicanálise o conceito de “pulsão de morte”, algo que, grosso modo, segundo ele, é natural em toda alma humana, desde que equilibrado com o “impulso vital”, ou Eros. Penso que, em minhas humildes conjecturas, a dominância da pulsão de morte, que arrasta adolescentes para automutilação e para o suicídio é forte sintoma de um mal social maior (um “mal-estar na civilização”, citando Freud mais uma vez), do acirramento de disputas desumanas e humilhantes, da segregação, do isolamento, da falta de perspectivas de integração social e, sobretudo, da perda da noção do caráter comunitário intrínseco ao avanço da humanidade.

Neste ponto me lembrei, sem forçar a barra, e foi isso que me levou a escrever sobre o assunto (a tentativa de enganchar o raciocínio) da reforma trabalhista e sua meta de liquidar os sindicatos. À primeira vista parece que Baleia Azul e sindicatos não tem nenhum traço de relação. Relendo o artigo “Trabalhadores Unidos, Sindicatos Fortes e Centrais Plurais”, do João Carlos Gonçalves, Juruna, entretanto, vemos que o contexto que gera tais distorções é o mesmo.

No artigo ele diz que: “Avaliações equivocadas, sob forte influência das visões liberais do empresariado e determinados setores acadêmicos, são sintomas do exacerbado individualismo que assola nosso tempo e ofusca o caráter comunitário, intrínseco à vida social. Os direitos maiores dos trabalhadores, conquistados ao longo da história, como férias, décimo terceiro, licença maternidade, piso salarial, etc, não são compreendidos em uma visão individualista. Essas foram conquistas coletivas. E, se o trabalhador tem estas conquistas, é porque ele teve também o compromisso de contribuir para manter as estruturas organizativas que as viabilizaram. (...) Por outro lado, a fragmentação e o enfraquecimento, dos sindicatos é base para o acirramento da desigualdade social, da exploração insana dos trabalhadores, da proliferação dos vários tipos de assédios, da precarização das nossas conquistas, da progressão das doenças e mortes nos locais de trabalho”.

Acho que não preciso falar mais nada além do conclusivo verso do poeta Jorge Mautner: “De ray-ban e carro esporte, ele partiu pra morte, ele partiu pra morte. E o operário, de manhã pela avenida, partiu pra vida, partiu pra vida tão sofrida!”.


*Carolina Maria Ruy é coordenadora do Centro de Memória Sindical

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