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19 de abril de 2017 - 19h32

Aurelien Mondon: O fator Mélenchon na França


Jean-Luc Mélenchon Jean-Luc Mélenchon
A eleição presidencial na França sempre ofereceu um amplo leque de opções, da extrema-esquerda à extrema-direita. Também não é raro que candidatos menos cotados surpreendam.

O exemplo mais famoso aconteceu em 2002, quando Jean-Marie Le Pen, da extrema-direita, levou seu partido, a Frente Nacional, ao segundo turno. Quando a cara sorridente de Le Pen apareceu nas telas de televisão às 20 horas, o pânico tomou conta. O fascismo estava batendo às portas da República Francesa, ou pelo menos parecia isso. Essa percepção causada pela mídia ignorava o fato de que a popularidade de Le Pen estava estagnada desde 1988 nos 4,5 milhões de votos.

O que realmente contou naquele ano foi que a votação nos três maiores partidos sofreu um acachapante colapso. O número de votos dos três principais partidos foram praticamente iguais ao número de pessoas que se abstiveram de votar.

A mídia também centrou o foco no candidato do Partido Socialista, Lionel Jospin, culpando sua derrota à fragmentação do voto da esquerda. Jean-Pierre Chevènement, um socialista nacionalista, tomou uma parte dos votos de Jospin, ao mesmo tempo que outros candidatos faziam o mesmo, como Robert Hue, do PC da França, Olivier Besancenot, da Liga Revolucionária Comunista (trotsquista e agora o Partido Anticapitalista) e Arlette Laguillier da Luta Operária (Também trotsquista).

A situação de 2002 lembra um pouco a eleição atual, com os resultados expressando uma clara irritação com o status quo. Após anos de colaboração, durante os quais o presidente conservador Jacques Chirac nomeou o socialista Jospin como premiê, após perder as eleições legislativas de 1997, as diferenças entre a centro-esquerda e a centro-direita ficaram quase impossíveis de distinguir.

Ainda a despeito destas similitudes, a reviravolta surpreendente da eleição de 2002 não aconteceu ainda na atual campanha. Os eleitores franceses estão mais insatisfeitos hoje, parte devido à crise econômica e parte devido às medidas de austeridade.

A pequena taxa de aprovação de François Hollande durante todo o seu mandato tornou claro que ele sofreria no primeiro turno, mas ele permanecia como um candidato óbvio. Mas a sua decisão de não concorrer à reeleição é a primeira na história da Quinta República, em que um presidente saudável não tentará um segundo mandato.

Quando François Mitterrand deixou de se candidatar em 1995, ele já estava bastante adoentado pelo câncer, que o vitimou um ano depois. Do mesmo modo, Chirac passou o bastão em 2007, quando sua saúde começou a deteriorar. No entanto, Hollande decidiu não se candidatar em cima da hora, para surpresa do seu partido. Esta foi a primeira surpresa nesta campanha eleitoral

As primárias então decidiriam quem seria o candidato do PS, dando à esquerda do partido uma pequena chance de conquistar a vaga. Manuel Valls assumiu como o herdeiro de Hollande e seu período como ministro do Interior e Primeiro Ministro fizeram com que ele tivesse poucas chances de vitória. Sem muita surpresa, os membros do PS acabaram escolhendo um candidato não associado ao presidente: Benoît Hamon. Provavelmente, o mais radical dos candidatos do partido. Hamon derrotou Valls com mais de 58% dos votos nas primárias de janeiro deste ano.

Em novembro de 2016, as primárias do Republicanos (centro-direita) também provaram que nada estava garantido. Antes de votar, tudo parecia estar concretizado: as primárias escolheriam Alain Juppé, Chirac ou o linha dura ex-presidente Nicolas Sarkozy. No fim da campanha, François Fillon aparece. Ex-primeiro ministro de Sarkozy, relativamente desconhecido, um tecnocrata, mas que fez a promessa de moralizar a vida política da França a capturou os votos e a atenção de seu partido.

Ele vence no primeiro turno de forma decisiva, desferindo outro golpe a Sarkozy, que havia perdido para Hollande em 2012. O segundo turno foi apenas uma formalidade, porque a distância entre Fillon e Juppé era enorme. Eleitores de direita escolheram seu representante, e Fillon estava livre para defender uma campanha moralista e por austeridade econômica.

Tivessem as coisas acontecido como o previsto, com Hollande e Juppé ou Sarkozy representando a centro-esquerda e a centro-direita, Marine Le Pen teria encontrado o espaço perfeito para colher os benefícios de décadas de desapontamento. Ainda assim , desde 2012, a mídia e os analistas acreditavam que ela poderia chegar a um segundo turno. Como Hollande ia de mal a pior, todos achavam que ela enfrentaria o candidato dos Republicanos.

Em 2012, Marine recebeu uma quantidade recorde de votos, 6, 5 milhões e depois venceu a eleição parlamentar europeia de 2014, graças em parte à baixa taxa de votos necessários para tal. Ela quebrou outro recorde em uma eleição regional em 2015, quando teve 6,8 milhões de votos, mas fracassou na tentativa de conquistar uma única região.

Como sempre, o sistema eleitoral francês evitou a vitória da FN no segundo turno. O PS jogou seus votos na centro-direita, para afastar o perigo da extrema-direita representada por Marine.

Para um partido que tem só dois membros no parlamento, um que atualmente se recusa a seguir de fato a orientação do partido, a FN e Marine Le Pen têm uma cobertura de mídia desproporcional. A extrema-direita normalmente tem uma atenção midiática negativa, mas sabe que "falem mal, mas falem de mim".

A briga entre Marine e seu pai, Jean-Marie, trouxe mais luzes ao partido. Ela se afastou do racismo que seu pai esgrimia para atrair mais a atenção da mídia. Faz regularmente declarações polêmicas, como já admitiu, comparando os muçulmanos com os ocupantes nazistas e afirmando que a França não teve papel nenhum na deportação de judeus durante a segunda guerra.

Parece que com uma nova liderança e uma leve moderação a mídia se convenceu de que a FN tenha mudado, mesmo que Marine mantenha o nome do partido e a quase totalidade da plataforma dele. Enquanto muitos acadêmicos reconhecem que esta mudança foi só retórica, muitos analistas acreditam que Marine e o FN estão prontos para participar da corrente principal da política francesa.

Tudo parece um remake da eleição de 2002. Se ela encara Hollande e Juppé/Sarkozy, Marine facilmente passaria para o segundo turno. Comparado a outros partidos, a FN parecia estar ganhando um novo gás. Em um clima de profunda desconfiança política, corrosivo para as figuras principais do establishment, o status de outsider de Marine fez dela uma favorita natural. O discurso da Elite, que a retratou como a única alternativa à política comum, reforçava essa posição. É um tributo à falta de imaginação da classe política, que poucos consideraram que outros outsiders pudessem emergir no horizonte.

Os primeiros sinais que os planos de Marine não seriam tão fáceis vieram das primárias dos partidos. A derrota de candidatos de centro como Valls e Sarkozy criaram um vazio que Emmanuel Macron, o banqueiro e ex-ministro de Economia de Hollande, foi capaz de preencher.

A idade de Macron e seu status de outsider – jamais foi eleito para nada – certamente pesaram a seu favor. Até agora, ele conseguiu sustentar sua posição, apelando tanto para a centro-esquerda quanto para a centro-direita, apesar do apoio de PS, do LE e de políticos centristas. Até Valls o apoia, embora Macron não goste disso, mas é algo que não mudou sua imagem.

Macron continua a liderar as pesquisas, mas seus eleitores parecem ser aqueles que mais facilmente mudariam de candidatos. Muitos deles o viram como um voto útil mas agora começam a mudar o voto na direção de Jean-Luc Mélenchon.

Quando Hamon venceu as primárias do PS, ele esperava o quanto antes desbastar a base de Mélenchon. Mas o senador esquerdista já tinha provado ser um candidato resiliente, quando recebeu 11,10% dos votos na eleição de 2012 (quando as pesquisas davam a ele 14%, sugerindo que ele sofreu uma debandada a favor de Hollande no último minuto, por voto útil).

Desta vez, o líder do França Insubmissa (FI), declarou cedo sua candidatura, para surpresa de seus aliados comunistas e forçando-os a apoiá-lo antes que soubessem até mesmo quem seria o candidato do PS. Através da campanha, Mélenchon demonstrou sua força, levando enormes plateias a seus comícios, onde quer que fosse. Agora, as pesquisas o colocam em condição de igualdade com Fillon, ou até à frente dele, com margens de erro que fazem a diferença entre ele e os candidatos de ponta bastante incerta.

A subida de Mélenchon

Ainda é muito cedo para dizer se estas pesquisas irão se transformar em votos no domingo, mas nós podemos seguir algumas pistas para explicar porque Mélenchon está ganhando ímpeto. Primeiro, as primárias provaram que muitos eleitores franceses queriam uma alternativa mais à esquerda da que foi o PS os últimos anos. Valls, com seu mix de securitização machista sarkozista e centrismo econômico hollandista, chamou para si somente um terço daqueles que investem no partido. Os votos remanescentes vieram, de sua grande maioria, dos que se autodenominam "rebeldes"Arnaud Montebourg, Vincent Peillon, e, naturalmente, Hamon.

Quando a maioria dos políticos proeminentes do PS abandonaram Hamon por Macron, isso reforçou o desejo por políticas mais radicais de esquerda – e também demonstrou seu oportunismo e suas políticas econômicas neoliberais. Isto enfraqueceu Hamon, que parece inábil para afirmar sua candidatura, e fortaleceu Mélenchon, cuja campanha vem em uma marcha batida.

O segundo debate representou outro ponto de viragem. Enquanto Mélenchon se saiu bem no debate com os cinco principais candidatos, o segundo, que incluía todos os onze, abriu o espaço para que as perspectivas de esquerda tomassem o centro do palco. A política, de fato, teve lugar naquela noite e ninguém melhor que a reação da mídia corporativa para demonstrar que algo de interessante aconteceu naquele debate.

Os dois candidatos trotsquistas, Philippe Poutou (NPA) e Nathalie Arthaud (LO), provaram ser particularmente convincentes. Primeiro, atacaram Fillon e Marine no que eles tinham de mais frágil, as acusações de corrupção, o que parecia ser um tabu para os outros candidatos, como Macron, Mélenchon, e Hamon. Os candidatos da extrema-esquerda também relembraram aos eleitores que a classe operária e os pobres que todos defendem só podem ser vistos ou existir na esquerda, jamais na direita.

Nos últimos anos, a mídia tem apontado repetidamente a FN como o partido da classe operária. Essa tendência vai além da França, naturalmente, com diagnósticos similares aparecendo nos Estados Unidos e no Reino Unido para explicar Trump, o Ukip (Partido de extrema direita britânico) e o Brexit. O que a mídia corporativa – e alguns acadêmicos – não percebem é que a maioria da classe trabalhadora tende a não votar. Portanto, se 33% dos trabalhadores manuais votassem na FN, mas 66% se abstivessem, como foi o caso das eleições europeias de 2014, então este partido representa, de forma verídica, apenas um a cada dez trabalhadores.

Enquanto "33% da classe trabalhadora vota na extrema-direita" e "um entre 10 operários votam na extrema-direita" são expressões tecnicamente corretas, elas têm um impacto diferente e significativo nos leitores. O fato de que o discurso do establishment prefere a primeira versão diz mais sobre o que a elite pensa da classe trabalhadora e das classes desfavorecidas que a respeito de padrões de voto.

Arthaud e Poutou expuseram precisamente esse desdém no debate, que teve mais de seis milhões de telespectadores. Algumas das intervenções de Poutou se tornaram virais, não somente na França como no exterior. Ele varreu o mito de que a FN representa os trabalhadores mostrando que Marine não só se opõe ao povo como também pertence ao sistema que oprime o povo. Seu ataque a deixou sem falas. Enquanto seus comentários ressoavam pela França e pelo exterior, a mídia de extrema-direita rapidamente atacou Poutou, um operário de fábrica, criticando suas roupas, sua postura e sua linguagem.

Essa tática foi contraprodutiva, visto que Poutou possuía 2,5% nas pesquisas. Entretanto, o maior beneficiário deste retorno à classe foi Mélenchon, que viu vingar sua estratégia.

Uma tendência similar foi tomando conta da juventude. Enquanto eles estavam sendo acusados de alimentar a extrema-direita, eles também se abstinham como uma manada – não só por apatia, mas também da alienação que têm das políticas liberais. Uma pesquisa recente sugerem que Mélenchon pode ter se tornado o candidato mais popular neste segmento da população, significando que ele conseguiu oferecer aos jovens uma alternativa que eles podem confiar. Caso isso se confirme no domingo, ele pode ainda retirar ainda mais votos das urnas.

Desde aquele debate, a reação à Mélenchon foi sintomática. O líder do CFDT, uma das maiores centrais sindicais francesas, advertiu que ele tem uma visão da sociedade "bem totalitária". Hollande, que prometeu não se envolver na campanha, se sentiu obrigado a denunciar o esquerdista como um candidato "modinha", representante do "perigo das simplificações e falsificações" – alguma coisa da qual os políticos do mainstream não poderiam ser, obviamente, acusados. O presidente mais impopular da Quinta República declarou que a campanha de Mélenchon "cheira mal", sentindo, sem dúvida, que o eleitorado pode finalmente votar em alguém que ele acredita ao invés de votar no "menos pior". Estas declarações, ao invés de impactar nas chances de Mélenchon, podem significar na verdade o último prego no caixão do PS, com os rumores dos últimos dias falando de que Hollande prefere Macron a Hamon.

A reação da mídia corporativa também foi bastante eloquente – e ainda mais negativa que a que Marine Le Pen costumeiramente recebia dela. O Le Figaro foi longe, denunciando o "projeto devastador" de "Maximilien Ilitch Mélenchon".

A plataforma de Mélenchon, embora radical para 2017, está muito longe de ser revolucionária, e ele sempre pertenceu ao sistema liberal democrático e obedeceu suas regras e leis. Compará-lo ao mesmo tempo com nada mais que Robespierre e Lênin é simplesmente absurdo, e o Le Figaro ainda dedicou quatro artigos para atacar "big bang de outra era" que representa o candidato.

O inglês Financial Times advertiu que os bancos começaram a reagir à possibilidade, da mesma forma que fizeram durante a campanha do Brexit no Reino Unido. O The New York Times não publicou nenhum artigo assinado por Mélenchon, como os que publicou assinados por Marine.

A resposta do establishment a Mélenchon mostra que ele é de fato uma ameaça real. Marine é para o sistema um espantalho útil tanto à centro-direita quanto à centro-esquerda para que possam apresentar suas políticas neoliberais como melhores que as de um velho partido fascista.

Enquanto o sucesso da FB é certamente alarmante, a tomada de poder pelo partido em si é vista como algo extremamente difícil. Além disso, a classe dirigente tem feito mais para tornar o partido "normal" que sua própria liderança partidária.

Nos últimos anos, o frisson sobre a chamada "desdiabolização" da FN permitiu ao establishment distrair o povo da frustração e desconfiança que os partidos no poder provocam. Os políticos do mainstream e a mídia arriscam muito pouco ao promover o velho partido fascista, porque é extremamente difícil que Marine consiga aumentar o apoio eleitoral a ponto de ganhar a eleição em um segundo turno.

Em 2012, Hollande precisou de pouco mais de 18 milhões de votos para vencer – 3 vezes do maior número de votos que Marine teve. Ao mesmo tempo que é bem provável que o número de abstenções seja baixo, é improvável que ela consiga reunir um número de eleitores que seja mais que o dobro dos votos que ela teve. Naturalmente, alguns eleitores da LR certamente votarão nela, mas é improvável que grande parte deles sejam convencidos pelas suas medidas pseudosociais ou pela sua forma menos tradicional de encarar o casamento entre pessoas do mesmo seco. Se Fillon não estivesse envolvido em uma longa lista de escândalos, muito provavelmente ele mesmo conseguiria obter votos dos eleitores tradicionais de Marine.

Um retorno à política

Enfrentar Mélenchon em um segundo turno estabelece um desafio bastante diferente aos candidatos que enfrentar Marine. Ele pode representar a esquerda inteira e o antissistema, em um momento em que os eleitores estão procurando por políticos alternativos. A reação em pânico do establishment foi capaz de nos convencer que ele tem de fato uma oportunidade de vencer.

Entretanto, a esquerda não deve ver neste cenário mais do que ele realmente é: Ele reflete o desejo crescente por políticas mais radicais e de esquerda. Seria um erro ver Mélenchon como um líder providencial, porque isso é um risco de desapontamento rápido. Enquanto sua vitória pode fazer renascer a esquerda e provocar um sério golpe na atual hegemonia, muitas questões permanecem ainda sem resposta com o candidato da FI.

Por exemplo, o culto à personalidade que sua equipe tentou desenvolver é certamente um problema, embora as reformas que propôs para uma Sexta República provavelmente iriam contra isto. Também, a despeito de se apresentar como candidato antissistema, Mélenchon pertence a ele. Antes de romper com o PS, ele era um antigo filiado e ex-senador pelo partido.

Mais além, como presidente da França, ele vai depender da vitória de uma ampla maioria de candidatos de esquerda no parlamento. Sem esse apoio, ele estaria algemado pelo sistema e não poderia fazer mudanças radicais dentre de uma comunidade política internacional que detesta políticas antiausteridade.

Finalmente, seu "patriotismo de esquerda" é questionável, junto com a recusa de se distanciar da compreensão, agora comum, do secularismo e de sua defesa errática do republicanismo, baseado em uma leitura essencialista e chauvinista das leis de 1905, que não diminuiriam as tensões pelas quais a sociedade francesa atravessa hoje em dia.

A despeito dessas preocupações muito reais, sua ascensão nas pesquisas é uma quebra do consenso neoliberal e um retorno à política. Se ele conseguir ir ao segundo turno, a esquerda francesa poderá, enfim, mostrar sua força real. Embora Jean-Luc Mélenchon possa não ser hábil o suficiente para conseguir uma mudança que a França necessita, sua vitória – ou mesmo uma votação bastante elevada – pode estabelecer uma base concreta para um horizonte mais esperançoso.

*Professor de Política Comparativa na Universidade de Bath. Ele foca sua pesquisa em racismo, populismo e a crise da democracia.


Fonte: Jacobin. Tradução de Humberto Alencar

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