Brasil

12 de abril de 2017 - 11h45

No Big Brother, o reality show da violência doméstica


Reprodução
Marcos e Emilly, do BBB 17: da violência psicológica à agressão física Marcos e Emilly, do BBB 17: da violência psicológica à agressão física
Para Jacira Melo, diretora-executiva do Instituto Patrícia Galvão, não poderia haver outro desfecho. “Nós temos no Brasil uma cultura da violência contra as mulheres, que é um problema sério. Então nós não podemos ter, ao vivo e em cores, na maior emissora do país, um ato como esse”, disse.

“A transmissão dessas cenas é um estímulo a essas atitudes, que são vistas como atitudes do homem. A mulher não obedece e o homem vai perdendo o controle e o limite, como se isso fosse um padrão da atitude masculina a ser aceito”, continuou Melo.

A expulsão de Marcos não foi uma inciativa imediata da Globo e só ocorreu após a intervenção da Divisão de Polícia de Atendimento à Mulher (DPAM) do Rio de Janeiro, que iniciou uma investigação na segunda-feira a pedido de sua diretora, a delegada Márcia Noeli. O caso foi assumido pela delegada Viviane da Costa, que foi até a casa do BBB e concluiu que houve agressão.

No programa de segunda-feira, o apresentador Tiago Leifert justificou a demora da eliminação dizendo que a produção do programa tinha consultado “especialistas” na tentativa de tomar uma decisão “justa”.

Marcos vinha se comportando como um abusador há algum tempo. As discussões do casal eram frequentes, mas as atitudes do cirurgião na madrugada de domingo (9) deixaram perplexos os telespectadores.

No auge da discussão, ele perdeu o controle: encurralou a jovem em um canto da sala e lhe apontou o dedo na cara enquanto gritava – o que já havia acontecido em outra ocasião. Em outro momento da briga, Emilly reclamou de apertos e beliscões. “Marcos, está doendo”, disse.

As cenas ganharam as redes sociais, e a hashtag #MarcosExpulso chegou a liderar os trending topics do Twitter no domingo. À noite, ao vivo, Leifert disse que as atitudes de Marcos “preocupavam” a todos e que as cenas, exibidas pela edição, acontecem “no mundo real, porém sem as câmeras”.

A Globo, na ocasião, transferiu a responsabilidade para Emilly e se limitou a dizer que ela poderia procurar a produção caso entendesse que havia sido vítima de agressão.

Em uma situação de violência doméstica, o motivo pelo qual muitas mulheres são agredidas e mortas é que as vítimas resistem a denunciar seus agressores, de quem geralmente são íntimas. Isso acontece por uma série de motivos, que vão de medo a vergonha.

“Pela Lei Maria da Penha, quando não se trata de lesão corporal (violência psicológica, por exemplo), apenas a vítima pode fazer uma denúncia. Mas quando envolve lesão corporal, não, e é nosso dever de ofício abrir essa investigação”, disse a delegada Noeli. “Olhando os vídeos, conseguimos perceber que ele segura as mãos, segura os braços dela. É uma questão de lesão corporal”, afirmou.

Para Jacira Melo, a Globo prestou um desserviço com seu posicionamento inicial. “O registro da ocorrência pode ser feito por pessoas que assistiram, presenciaram ou têm conhecimento da agressão, não depende da vítima. Não vale fazer uma nota burocrática e ao mesmo tempo deixar o espetáculo rolar. Foi um desserviço.”

A diretora do Patrícia Galvão disse, ainda, que a mídia precisa fazer uma reflexão sobre o papel que desempenha na sociedade. “A Globo e todas as emissoras de TV, como concessão pública, têm responsabilidade no campo da educação social. E o episódio do Big Brother é um importante exemplo para estimular a capacidade de limites nas relações sociais e afetivas.”

Culpa e sororidade

Após receber a notícia da expulsão de Marcos, Emilly adotou um comportamento próprio das vítimas de abuso e passou a se culpar pelo que havia acontecido. Embora a vítima queira se livrar da violência, nem sempre ela quer se livrar do agressor.

Vivian e Ieda, as duas participantes que vão disputar a final do programa com Emilly, tentaram mostrar à colega que ela foi vítima de um relacionamento abusivo e deram ao vivo uma demonstração de sororidade. “Talvez você não estivesse enxergando que estava precisando de ajuda”, disse Vivian.


Fonte: CartaCapital 

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