Brasil

4 de abril de 2017 - 11h09

No placar latino-americano: Equador 1 – Fim de ciclo 0


Divulgação
O Equador disse “não” ao fim do ciclo e optou pela continuidade da Revolução Cidadã como projeto político para mudar o país a favor de sua gente O Equador disse “não” ao fim do ciclo e optou pela continuidade da Revolução Cidadã como projeto político para mudar o país a favor de sua gente
Apenas Macri conseguiu vencer uma eleição presidencial na Argentina em 2015. É a única exceção que confirma a regra. No Brasil não conta porque foi através de um golpe de Estado parlamentar. E nas demais ocasiões, Henrique Capriles [Venezuela], Doria Medina [Bolívia], Aécio Neves [Brasil], Luis Albeto Lacalle Pou [Uruguai] – e assim uma lista interminável de nomes – não conseguiram obter os votos suficientes para ser eleitos presidentes. O último desta série é Guillermo Lasso, no Equador, que abre novo capítulo nesta larga lista de derrotados. Na verdade, este banqueiro já sabia o que era perder contra a Revolução Cidadã (2013).

O Equador se desencanta novamente por uma opção neoliberal. Lenín Moreno, representante da Aliança País, venceu o segundo turno com 51,16% dos votos válidos. Desta vez teve 2 pontos de vantagem sobre seu opositor, e no primeiro turno foram 11 pontos. Uma vez mais, os expoentes da Restauração Conservadora voltam a perder nas urnas frente a uma proposta progressista.

O chamado “fim do ciclo” está morto na América Latina. Da mesma forma que fizeram os porta-vozes da direita, e outros tantos que jogaram a toalha diante da mínima dificuldade, agora deveriam afirmar, com o resultado em mãos, que nunca, jamais houve um fim de ciclo. O Equador calou a boca de todos aqueles que acreditaram que o desgaste, os erros e as contradições dentro dos mesmos processos e mudança se traduziriam imediatamente no acaso de uma época. Não. De forma nenhuma existem pontes ligando um ponto ao outro. Ninguém pode duvidar de que estamos em uma nova etapa onde os governos progressistas terão de reconstruir os projetos, elegendo novos obstáculos provenientes de uma severíssima restrição econômica mundial. Não são tempos para adiar a necessidade de identificar quais são as novas demandas das maiorias para voltar a se sintonizar com elas olhando para o futuro ao invés de continuar recordando excessivamente todas as conquistas do passado. Estes e outros tantos dilemas de épocas são fruto das transformações políticas, econômicas, culturais e sociais produzidos em um tempo histórico muito curto. Contudo, isto não significa que o ciclo progressista esteja morto.

A vitória de Macri na Argentina, a derrota da esquerda nas eleições legislativas na Venezuela e o “Não” no referendo da Bolívia provocaram uma catarata de sentenças precoces sobre o fim do ciclo. O que deveria ter sido interpretado como um enfraquecimento, com um alto grau de incerteza sobre o que poderia vir a ser o futuro, foi rapidamente considerado como um ponto final. Estes tropeços conjunturais foram concebidos como crepúsculo de uma época sem mais critério que o desejo de que se cumprisse uma profecia autocumprida. Pois no Equador se demonstrou o contrário.

Com um contexto econômico adverso, com um candidato que tinha a responsabilidade de suceder um líder histórico como é Rafael Correa, com todos os especialistas da campanha suja aterrorizando o país, com dez anos nas costas que impedem de se apresentar como “algo novo”, como tudo isso contra, o Equador disse “não” ao fim do ciclo. Optou pela continuidade da Revolução Cidadã como projeto político para mudar o país a favor de sua gente. Eis que temos Lenín presidente. A História, sempre tão caprichosa.


*Alfredo Serrano Mancilla é doutor em economia pela Universidade Autônoma de Barcelona.

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