Economia

23 de março de 2017 - 11h17

‘Estão punindo a sociedade brasileira’, diz Eugênio Aragão 


Foto: Guilherme Santos/Sul21
   
A palestra, cujo tema foi “O desmonte da engenharia nacional”, teve também um debate com o presidente do Sindicato dos Engenheiros do RS (Senge), engenheiro Alexandre Wollmann, o diretor do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS (IPH), professor Carlos André Bulhões Mendes, e o diretor da Diretoria de Assuntos Estratégicos, Relações Institucionais Internacionais da Universidade Federal do Pampa (DAEINTER), professor Hélvio Rech.

“Uma empresa como a Odebrecht”, disse Aragão, que foi Ministro da Justiça em 2016, durante o governo Dilma Rousseff, “representa um conjunto social maior do que o patrimônio gerado para a família Odebrecht. Seu principal ativo é o know-how, sua tecnologia. Podemos ficar uma década com a infraestrutura estagnada”, argumentou o subprocurador. O combate à corrupção, avaliou ele, foi usado como pretexto para a desarticulação de uma parte importante da economia do país – e não se tratar de uma defesa dos empresários ou de suas práticas, mas de conservar um setor estratégico: “ninguém está falando sobre passar a mão na cabeça; é preciso, entretanto, perceber a estrutura abalada. E ninguém aqui vai dizer que corrupção é uma coisa boa, que não há fatos importantes a serem investigados”, asseverou.

“Construir uma estrada entre Rio Branco e Cruzeiro do Sul [no Acre], em meio à Amazônia, por exemplo, não é para qualquer um, e pode ser que uma empresa alemã não tenha esse conhecimento”, defendeu Aragão. Ele afirmou que, para além de empresários e políticos envolvidos, as consequências da Lava Jato castigam, sobretudo, a sociedade brasileira e um setor da economia que representa as indústrias de construção civil, naval e petrolífera: “o Brasil é uma das grandes economias do mundo, movimenta 2% do comércio mundial, e esses mercados foram conquistados a duras penas, não é brinquedo”.

Aragão, além disso, falou sobre a seletividade da Lava Jato, sobre a espetacularização da operação e sobre a ideologia do judiciário brasileiro: “qualquer decisão se baseia em uma opção, e toda a opção é política. Não existe isso de que há uma visão político-ideológica e uma técnica, como se funcionasse com input e output. Engambelaram o povo dizendo que esses indivíduos são pessoas isentas”. “A Lava Jato”, disse o jurista, “é um instrumento de alavancagem corporativa, e por isso o MP deve manter o domínio narrativo dessa história. Isso poderia ter sido feito sem esse teatro, sem esse circo armado” – e que há uma elitização do judiciário: “o Ministério Público teve um grande ganho de poder desde o impeachment de Fernando Collor de Mello. Quando veio a possibilidade de o MP dar o empurrão final em um Presidente da República, passou-se a ter outro patamar de poder, no mesmo do Supremo e do Congresso. A remuneração subiu, especialmente no governo FHC, e os concursos do MP passaram a ter outra clientela”, contou o ex-ministro. “Quem passa nesses concursos? Quem estuda por três anos nos melhores cursinhos, quem estudou nas melhores escolas durante a vida toda, os filhos das classes A e B. É mais um instrumento da meritocracia”, disse Aragão, sobre o imaginário coletivo de muitos jovens na carreira jurídica: “quem ganha R$ 24 mil no primeiro emprego, mais auxílio-moradia, acha que é obviamente o herói da pátria”.

Os outros debatedores, após a fala de Aragão, juntaram-se ao subprocurador. O professor Carlos Mendes, da mesma forma, falou sobre a crise no setor: “quanto vale a extinção de uma atividade de engenharia? Penalizar diretorias é uma coisa, perder tempo de formação e capacidade técnica é bem diferente. Jogaram a água fora junto com o bebê”, ilustrou o docente.

O engenheiro Alexandre Wollmann, do Senge, por sua vez, manifestou preocupação com a instabilidade dos ciclos da engenharia no país: “o setor, no Brasil, parece viver de soluços, com picos e grandes depressões. Com o PAC [Programa de Aceleração do Crescimento, lançado ainda em 2007] houve um grande crescimento nesse âmbito; a partir de 2015, entretanto, caímos novamente. Isso preocupa muito. O que mais temos feito no sindicato, nesses dias, é homologar rescisão de contrato”.

Questionado sobre um possível interesse estrangeiro na Lava Jato, com objetivo de colapsar as empresas brasileiras de engenharia – e também na Petrobrás e nos campos brasileiros de exploração petrolífera –, Aragão afirmou acreditar que “a crise é made in Brazil. Temos desonestos suficientes por aqui, não precisamos importá-los. Nós que fazemos os estragos, mas quem se aproveita são os concorrentes.”

Aragão finalizou caracterizando o governo Temer como “negociatocracia, pois é o governo dos negócios” e atribuindo os excessos da Lava Jato à grande mídia: “quem alavancou foi a Rede Globo, e hoje ela começa a também criticar a operação. Todo processo fascista é autofágico – e sempre será fascista: para mim e para meu inimigo”. Nas perguntas finais, um jovem que se identificou como estudante de engenharia da UFRGS perguntou qual seria o método para proteger a indústria nacional; “indo para a rua”, disse o ex-ministro, “não tivemos a campanha ‘O petróleo é nosso’, na década de 40?”.


 
Fonte: Sul21

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