Economia

19 de março de 2017 - 19h27

Martin Khor: A nova onda de automação e suas consequências


Robô industrial Robô industrial
No ano passado, a Uber começou a testar carros sem motorista, com seres humanos no interior para fazer correções no caso de alguma coisa dar errado. Se os testes forem bem, a Uber irá, ao que tudo indica, substituir seu exército atual de motoristas por uma frota dos novos carros.

Alguns carros já podem estacionar automaticamente. Será uma questão de tempo até que a Uber, táxis e veículos individuais sejam suficientemente inteligentes para nos levar de A a B sem que tenhamos de fazer nada? E o que acontecerá aos empregos com essa aplicação da “inteligência artificial”, em que máquinas têm funções cognitivas humanas construídas em seu interior? Estima-se que, somente nos EUA, 4 a 5 milhões motoristas de caminhões e táxis poderiam ficar desempregados.

O veículo sem motorista é apenas um exemplo da revolução tecnológica que deverá transformar drasticamente o mundo do trabalho e o modo de vida das populações. É preocupante que a marcha da automação, ligada à tecnologia digital, venha a causar o deslocamento de muitas fábricas e escritórios e, ao fim, provocar desemprego em massa.

Apenas um dia antes de deixar a presidência, o ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama avisou, numa entrevista de despedida, que “os empregos estão acabando por causa da automação, e isso vai se acelerar”, apontando a “Uber sem motorista” e “o deslocamento que ocorrerá nos prédios de escritórios de todo o país”.

Também manifestando preocupação sobre o impacto social da automação, o fundador da Microsoft, Bill Gates, propôs recentemente que os governos imponham um tributo sobre os robôs. Empresas que usassem robôs teriam de pagar taxas sobre as rendas atribuídas ao uso da robótica. Essa proposta causou comoção. Economistas do mainstream como Lawrence Summers, ex-secretário do tesouro dos EUA, acusaram-na de frear o avanço tecnológico. Um crítico sugeriu que a primeira corporação a ser tributada por produzir automação deveria ser a Microsoft.

Contudo, a ideia de tributar robôs é uma resposta aos crescentes temores de que a revolução da automação venha a aumentar a desigualdade, já que muitos perdem seus empregos, enquanto uns poucos colhem os benefícios do aumento da produtividade e da lucratividade.

As novas tecnologias causarão um transtorno incontrolável e se somarão ao descontentamento social e agitação política que alimentou os votos anti-establishment para o Brexit e Donald Trump.

Estudos recentes mostram que o aprofundamento do uso da automação causará transtorno generalizado em muitos setores, e até mesmo em economias inteiras. Pior, estima-se que os países em desenvolvimento são os que mais perderão, e isso irá exacerbar as já enormes desigualdades globais.

O risco da automação para os empregos nos países em desenvolvimento está estimado em 55% a 85%, de acordo com estudo feito em 2016 pela “Martin School and Citi”, da Universidade de Oxford. Grandes economias emergentes estarão sob alto risco, inclusive a China (77%) e a Índia (69%), maior do que o risco médio (57%) dos países desenvolvidos da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

O relatório da Citi-Oxford, “O futuro não é o que costumava ser” [“The Future Is Not What It Used To Be”, disponível na internet] apresenta muitas razões porque a revolução da automação será particularmente perturbadora nos países em desenvolvimento.

Primeiro, porque já está em curso a “desindustrialização prematura”, pois o trabalho na produção industrial está se tornando menos intensivo e muitos países em desenvolvimento chegaram ao máximo de empregos industriais. Os processos de produção industrial estão hoje mais automatizados, inclusive em países em desenvolvimento de baixo e médio rendimento.

Segundo, enquanto as tecnologias do século 20 possibilitaram às empresas mudar a produção no exterior para tirar vantagem do trabalho barato, agora os recentes desenvolvimentos em robótica e fabricação cumulativa capacitam as empresas a posicionar a produção em fábricas automatizadas mais próximas dos mercados domésticos.

Setenta por cento dos clientes pesquisados acreditam que o desenvolvimento da automação e da impressão 3D irão encorajar as empresas a mudar suas fábricas para perto de casa. A China, a Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean, na sigla em inglês) e a América Latina são as que têm mais a perder com essa realocação, enquanto a América do Norte, a Europa e o Japão são os maiores ganhadores.

Terceiro, “o impacto da automação pode ser mais problemático para países em desenvolvimento devido à menor demanda de consumo e redes de segurança social limitadas”, em comparação com os países desenvolvidos, segundo um resumo do relatório da Oxford Martin School.

O relatório alerta que países desenvolvidos podem até ter de repensar seus modelos gerais de desenvolvimento, à medida em que os projetos anteriores, que foram capazes de gerar emprego no passado, não mais funcionarão.

“À luz desses desenvolvimentos tecnológicos, é provável que a industrialização produza bem menos empregos na próxima geração das economias emergentes do que nos países que os precederam. Será portanto cada vez mais difícil para empresas fabris da África e da América do Sul criar os mesmos volumes de empregos criados pelos países asiáticos. Em outras palavras, hoje os países de baixa renda não terão a mesma possibilidade de alcançar crescimento rápido, transferindo trabalhadores do campo para empregos melhor remunerados nas fábricas”.

Ao invés de crescimento industrial voltado às exportações, os países em desenvolvimento terão de buscar novos modelos de crescimento, afirma o relatório. “Crescimento liderado por serviços é uma opção, mas muitos serviços de baixa qualificação estão se tornando igualmente automatizáveis.”

O relatório cita um estudo do Banco Mundial mostrando que os países em desenvolvimento são extremamente suscetíveis ao fato de que sua força de trabalho está sendo cada vez mais afetada pela automação, mesmo se comparados a economias avançadas onde os custos do trabalho são altos.

Além do mais, países com PIB per capita mais baixo têm em geral uma maior parte da força de trabalho “em risco”. “Há pois razões para preocupar-se com o futuro da convergência de renda, uma vez que os países de baixa renda são relativamente vulneráveis à automação”, conclui o relatório.

Outra série de relatórios do Instituto Global McKinsey, “Dominando a Automação para um Futuro Viável” [“Harnessing automation for a Future that Works”, que pode ser baixado aqui], revela que 49% das atividades atuais podem ser automatizadas com tecnologias já aplicadas – e isso significa 15,8 trilhões de dólares em salários, e 1,1 bilhão de empregos globalmente.

Cerca de 60% das ocupações poderiam ter 30% ou mais atividades automatizadas, e 5% dos empregos poderiam ser inteiramente automatizados. Mas James Manyika, um dos autores do relatório, é mais animador ao dizer que essas mudanças demorarão décadas. O modo como a automação afeta o emprego não será decidido simplesmente pelo que é tecnicamente factível. Entre outros fatores estão a economia, os mercados de trabalho, as regulações e os movimentos e atitudes sociais.

Que empregos são mais suscetíveis à automação? Embora a maioria das pessoas pense que são os da indústria, o fato é que muitos empregos no setor de serviços também serão afetados. O estudo da McKinsey considera o setor de hospedagem e alimentação como o mais vulnerável nos EUA, seguido pelo de manufatura e varejo.

No setor de hospedagem e alimentação, podem ser automatizadas 73% das atividades desempenhadas por trabalhadores, inclusive preparar, cozinhar e servir comida; limpar as áreas de preparação da comida, preparar bebidas e recolher pratos sujos.

No ramo de manufatura, 59% das atividades podem ser automatizadas, especialmente atividades físicas ou maquinário de operação em ambiente previsível. As atividades vão desde o empacotamento de produtos até o carregamento de materiais em equipamento de produção e à solda na manutenção de equipamentos.

No varejo, 53% das atividades são automatizáveis. Elas incluem gerenciamento de estoques, embalagem de objetos, manutenção do registro de vendas, contabilidade e coleta de informações de clientes e produtos.

Shelly Palmer, consultora especializada em tecnologia, listou também empregos de colarinho branco ameaçados por “robôs” – que ela chama de tecnologias – tais como algoritmos para aprendizado de máquinas, que funcionam em plataformas de computador voltadas a um determinado objetivo, treinadas para realizar tarefas hoje desempenhadas por seres humanos. Ela avaliou que poderiam ser substituídos os gestores médios, vendedores, repórteres, jornalistas e locutores, contadores e médicos.

Alguns analistas entusiasmam-se com os efeitos positivos da revolução da automação; outros estão alarmados com suas consequências adversas. Essa tendência tecnológica certamente irá aumentar a produtividade por trabalhador que mantiver o emprego, e aumentará a lucratividade das empresas que sobreviverem. Embora no nível micro haja benefícios para as corporações e indivíduos que estão prosperando no novo ambiente, no nível macro há efeitos dramáticos — especialmente corte dos empregos que não serão mais necessários.

O que pode ser feito para retardar a automação, ou ao enfrentar seus efeitos adversos?

A proposta de Bill Gates de tributar robôs é uma das mais radicais. O imposto poderia retardar as mudanças tecnológicas e os fundos gerados por ele poderiam ser usados para mitigar os efeitos sociais.

Outra ideia radical que está gerando muito debate é assegurar uma “renda básica” para todos os seres humanos, independentemente de estarem ou não trabalhando. A alta produtividade irá permitir a todos receber uma renda confortável; portanto, não haveria razão para preocupar-se com o fato da automação acabar com empregos. Os governos também podem assumir a atitude “se não pode derrotá-los, junte-se a eles”. A China, por exemplo, está enxergando grandes oportunidades na adesão à revolução tecnológica e planeja investir em robótica e inteligência artificial.

Objetivos mais convencionais incluem promover a educação de estudantes e trabalhadores para assumir os novos postos de trabalho necessários na administração, ou para trabalhar com o processo automatizado de produção e treinar, com as competências exigidas pelo novo ambiente, trabalhadores que se tornarão desnecessários.

Contudo, é provável que em geral haja uma perda líquida de emprego, ao menos no curto prazo, e portanto um provável descontentamento social.

Quanto aos países em desenvolvimento, será necessária muita reflexão sobre as implicações das novas tecnologias para as perspectivas econômicas imediatas e de longo termo, assim como repensar a economia e as estratégias de desenvolvimento.


Fonte: Outras Palavras. Tradução de Inês Castilho

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