Brasil

19 de março de 2017 - 9h53

Era o Hotel Cambridge, o filme mais legal sobre a luta da moradia


Foto: Reprodução
   
Retrato construído com um milhão de pixels anônimos (os trabalhadores sem teto, refugiados das grandes metrópoles do Brasil e do mundo), o filme escolheu estar a meio caminho entre a ficção e o documentário, para melhor se aproximar de seu foco narrativo: a vida, os sonhos, os amores e o tesão da luta em uma das mais emblemáticas ocupações de sem-teto de São Paulo, a que repovoou o antigo Hotel Cambridge.

Fincado em prédio de estilo modernista na avenida Nove de Julho, o Hotel Cambridge foi inaugurado em 1951. Era famoso pelo bar elegante com poltronas vermelhas, onde se apresentou, em 1959, o músico Nat King Cole, quando ele veio ao Brasil. “Stardust”, a canção que fala sobre os encantos do amor que passou, embalou a noite. Poeira estelar.

Daqueles brilhos, o Cambridge desabou no buraco negro da decadência tão logo o centro econômico e financeiro da cidade deslocou-se para a região da avenida Paulista e, depois, para a Faria Lima e Berrini. Hotéis com nomes chiques e obviamente estrangeiros, como o próprio Cambridge, o Othon Palace, o Hilton, o Paris e o Cad’oro, entre outros, viveram em agonia, até o apagar definitivo das suas luzes.

Carmen Silva Ferreira, 57 anos, foi quem reacendeu as luzes do prédio de 17 andares e 120 apartamentos. Em vez dos engravatados de antes, ela capitaneou um exército de pobres miseráveis, gente que não tinha nem sequer um teto pra dormir em paz… e eles ocuparam o Hotel Cambridge, então tomado por ratos, baratas, lixo, entulho. Toneladas de dejetos foram retirados dos andares.

Detalhe: As centenas de edifícios abandonados do centro da cidade são como tumbas de histórias e recordações. Como tumbas, os proprietários lacram-lhes portas e janelas com tijolos e cimento. É para evitar a invasão de animais ou de quem queira questionar a posse do imóvel — o prédio sufoca sem ar e nem luz.

Felizmente, não é nada que algumas marretadas não resolvam.

Eliane Caffé acompanhou com sua equipe algumas ocupações reais enquanto elas aconteciam. A Carmen que praticamente arranca os passageiros dos ônibus, arremessando-os para um prédio abandonado que acabava de ter sua entrada arrombada a marretadas, fez isso tudo durante uma ocupação real. A tensão no ar, o medo de que a polícia chegue, da porrada, da bomba, ela gritando “Vai pegar a tua casa! Vai, pega a tua casa!” –era tudo verdade. Aconteceu em abril de 2015 e os Jornalistas Livres acompanharam.

Vida cármica


Baiana, mãe de oito filhos, Carmen nasceu na Cidade Baixa de Salvador, filha de empregada doméstica e de militar. Foi o pai que a criou e é indelével a marca deixada pela disciplina da caserna no espírito da mulher. O Cambridge dos sem-teto brilha de limpeza, fruto de mutirões bem-organizados. Tem uma sólida hierarquia, que começa pelos coordenadores de andares, pelos líderes de projetos comunitários, passa pela Linha de Frente (guerreiros que são os fiéis escudeiros da ocupação), e chega até a liderança incontestável de Carmen –a Dona Carmen, como é respeitosamente chamada. Depois das 22h, é tudo silêncio.

Neste caso, trata-se de autoridade conquistada. Carmen casou-se aos 17 anos e conheceu a violência doméstica, espancada que era pelo marido truculento e cheio de ciúmes. Com 16 anos de união, 8 filhos, ela jogou tudo para o ar e fugiu para São Paulo. Sem teto, conheceu a dura rotina e a solidariedade das ruas. Morou em albergues, um administrado pela Igreja Universal do Reino de Deus, e outro, público, sob o viaduto Pedroso, que atravessa a avenida 23 de Maio, no centro da cidade.

Rotina dura. No albergue, um humano é só corpo que precisa de pouso e banho. Tem de sair tão logo o dia nasce. E voltar assim que a noite cai, senão não entra. Carmen lembra-se de passar horas e horas, esperando o tempo passar, dentro do templo da Universal na avenida Brigadeiro Luis Antonio. Andou muito, conheceu todas as entidades que serviam comida, em busca de emprego, as quebradas. Virou cozinheira, mas achou pouco…

A rua é cruel e louca. Ela resistiu ao desespero porque seu único objetivo era trazer todos os filhos para viver sob suas asas (conseguiu). Já viu muita gente forte desabar ante o peso da própria dor.

Carmen iniciou-se no movimento dos sem-teto quando morou, por seis anos, num antigo prédio do INSS, de novo na avenida Nove de Julho. De lá para cá, participou de dezenas de ocupações. Hoje, é uma das maiores conhecedoras da cidade. Quem está devendo IPTUs milionários, quem são os maiores latifundiários urbanos, quantos imóveis possuem, quem são os habitantes tradicionais de cada bairro. É respeitada na Prefeitura, acaba de ser convidada a lecionar em uma grande Escola de Arquitetura. Urbanismo prático.

A hora H


Junta gente de todos os jeitos na hora de ocupar. A velhinha louca que perdeu tudo na jogatina, a jovem crente desempregada, o dependente de drogas, o estudante de medicina que foi expulso de casa porque o pai descobriu que ele é gay, o pastor, a sambista, o poeta, o militante, o refugiado palestino, sírio e congolês, sobreviventes de tragédias humanitárias, os imigrantes bolivianos, haitianos, a prostituta. Um dos grandes insights do movimento de moradia deu a liga entre todos esses espécimes da grande biodiversidade humana que viceja no centro elétrico da metrópole:

“Somos todos refugiados: os estrangeiros aos quais a própria pátria tornou-se ameaçadora; e os nacionais, aos quais o Brasil dos privilégios virou as costas”, conforme epifania de Carmen.

Nem precisa dizer que é difícil alinhar na vida intensamente coletiva da ocupação as pirações individuais de pessoas tão diversas.

A cozinha é coletiva no começo. Não tem água, não tem luz, tem ratos e baratas, tem fios desencapados, esgoto podre. Elevador? Hahahaha!

Gênios dos serviços gerais, da faxina pesada, auxiliares de pedreiros, ajudantes de ordens de oficinas mecânicas, ajudantes de cozinhas e jardineiros põem-se em ação ordenada por dentro dos encanamentos, dos conduítes, das canaletas enferrujadas — tudo para ressuscitar o prédio e dotá-lo das condições mínimas para ser um lar, enquanto as crianças correm de um lado a outro e improvisa-se a primeira escolinha.

O filme de Eliane Caffé captura nos 90 minutos de exibição as dores de perdas definitivas — e de saudades sentidas — nas conversas por Skype entre os refugiados, agora no Cambridge, e seus parentes e amores distantes (na Gaza destruída pelo massacre dos mísseis israelenses, ou no Congo arrasado pela guerra civil e pelo ebola) Mas, avesso aos vitimismos, embora motivos não faltem, sublinha a solidariedade entre os sem-tetos. É o que permite a construção coletiva de uma poesia lavrada na esperança de dias melhores.

E põe festa, e música, e dança –aliás, no jargão do Cambridge, “festa” é o nome que se dá à ação de ocupar juntos um imóvel abandonado. Hoje vai ter festa!

Fácil imaginar o luto que representa, por oposição, o ato de desocupar um imóvel em que se mora, porque o proprietário-especulador-imobiliário conseguiu de um juiz que assinasse uma ordem de despejo do imóvel cheio de dívidas de IPTU. É quando a polícia vem para jogar todos na rua, pelo bem ou pelo mal. E tome bomba, spray de pimenta, crianças sufocando.. a rua, de novo.

Recomeçar sempre.

Movimento de pobres, de pretos, de pardos, a luta pela moradia no centro de São Paulo é intensa e solidária na construção diária de novíssimos quilombos, dirigidos quase sempre por mulheres. O filme de Lili Caffé honra com delicadeza e amor essas histórias lindas de vida.

Classificação dos Jornalistas Livres: Excelente!


Assista ao trailer oficial:




 Fonte: Jornalistas Livres

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