Cultura

17 de março de 2017 - 16h15

Crimes e pecados, de Woody Allen, goleiro Bruno e a vida das mulheres


Divulgação
Cena do filme <i>Crimes e Pecados</i> Cena do filme Crimes e Pecados
No filme Judah, um médico bem-sucedido, está desesperado pela pressão da amante, que quer que ele termine seu casamento para ficar com ela. Ele então planeja e encomenda seu assassinato. Diferente do que assistimos no Brasil, o crime não deixa rastros.

Em uma das cenas finais Judah conhece Cliff, um fracassado cineasta (o típico personagem de Woody Allen), em uma festa. Os dois conversam sobre crimes e pecados na vida real e como isso é mostrado no cinema. Judah expõe seu caso como se fosse o roteiro para um filme. Ele diz:

“Tenho uma ótima história de assassinato. Um grande roteiro. Mas minha história de assassinato tem um estranho desenlace. lmagine este homem muito bem-sucedido. Ele tem tudo. E após cometer esse ato horrível, ele começa a ser perseguido por uma culpa profunda. Ecos de sua educação religiosa, que ele sempre rejeitou, começam a surgir. Ele ouve a voz do pai, imagina que Deus vigia todos os seus passos. De repente, o Universo não é mais vazio... Ele é justo e tem uma moral. E ele a violou. Agora, ele está apavorado, está no limiar de um colapso nervoso, perto de confessar tudo para a polícia. Então, um dia, ele acorda. O sol está brilhando e sua família está ao seu redor.

Misteriosamente, a crise desapareceu. Ele leva a família para a Europa, e descobre, com o tempo, que não foi castigado. Ao contrário, prospera. O crime é atribuído a outro, um vagabundo que já matou outras pessoas. Uma a mais não importa. Agora, ele está livre. Sua vida volta completamente ao normal, ao seu mundo seguro de riquezas e privilégios”.

Se a justiça dos homens não o alcançou e se a justiça divina não existe ele simplesmente continua tendo uma vida cada vez melhor, a despeito do que fez. O filme problematiza a moral religiosa e coloca a dúvida sobre a existência de Deus no centro do debate.

O filme tem nítida influência da obra clássica de literatura Crime e Castigo, de Fiódor Dostoievski, lançado em 1866, que se aprofunda na relação entre crime, culpa e punição.

A moral, nestes casos, serve para o indivíduo se proteger da punição, e não para um convívio harmônico. No lugar da consciência sobre a importância do coletivo, no lugar do reconhecimento do outro, a moral é uma falsa atitude que visa, antes de tudo, driblar as consequências de atos nefastos.

Dezessete anos depois do lançamento de Crimes e Pecados, Allen retomou este tema em Match Point, de 2006, mas desta vez com um tom muito mais obscuro e dramático.

Tanto em Crimes e Pecados, quanto em Match Point e no caso do goleiro Bruno há grande dose de machismo, de uma concepção que o macho pode dispor da vida da mulher quando esta representa uma ameaça.

É um bom pretexto para pensar sobre os parâmetros da justiça.

Assista ao trailer: 



*Carolina Maria Ruy é coordenadora do Centro de Memória Sindical

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