Brasil

17 de março de 2017 - 8h26

Guadalupe Carniel: No bico do Corvo


Momento da partida entre San Lorenzo e Atlético (PR), pela Libertadores da América de 2017 Momento da partida entre San Lorenzo e Atlético (PR), pela Libertadores da América de 2017
Mas nesse ano, nos superamos: temos o San Lorenzo sendo esse personagem após tomar 4 a 0 do Flamengo no Maracanã e ontem perder por 1 a 0 do Atlético-PR ainda com um gol justamente de Lucho González (que já jogou no rival Huracán) em NuevoGasómetro nem tão cheio, mas com a Gloriosa Butteller sempre apoiando.

O clube argentino é um dos que mais agrada a todos e quando eu falo todos, ele deveria agradar até Deus já que o papa é torcedor fervoroso. Aliás, não poderia ter mascote melhor: o corvo. Ele representa para diversos povos o mensageiro dos deuses.

Não raras vezes o sumo sacerdote católico mostra todo seu amor ao San Lorenzo. Tem até um caderninho para fazer marcações sobre as pelejas dos cuervos de Almagro.

Outro detalhe importante sobre os corvos é que se adaptam facilmente e vivem bem como nômades.

Eles regressarão ao Gasómetro, seu lar em Boedo. Em 2 de dezembro de 1979, o clube foi desalojado do Gasómetro durante a ditadura militar com o argumento de que ali seriam construídas casas populares. Não construíram nada no lugar, claro, e o terreno acabou cedido ao Carrefour em 1982, que só terminou a obra em 1985.

O Ciclón jogou em canchas vizinhas como do Velez e Boca e se fixou no Ferro Carril Oeste, até 1993, quando inaugurou o Nuevo Gasómetro, em Bajo Flores, próximo a Boedo, mas sem suas características e sem sua mística, tão importantes no futebol. A cultura de pertencer ao bairro é tão intrínseca que quando ganham, los cuervos vão até o estacionamento do Carrefour para comemorar e não na frente do novo estádio, já que não havia uma ligação local.

O Huracán mesmo assim não perdoa: no entorno do Tomas A. Ducó (um dos estádios mais charmosos do mundo, lembra muito o Pacaembu) há pichações falando que nunca saíram do bairro.

E como esquecer a equipe de 1946 que ainda fez uma excursão europeia em que deixou portugueses e espanhóis boquiabertos. Essa equipe inspirou o que hoje em dia chamamos de tique-taca. Passes curtos, trabalhar a bola e esperar a melhor oportunidade. Pep Guardiola já revelou sua admiração pelo estilo de jogo da equipe de Almagro. Dizem que quem viu essa equipe jogando jamais se esqueceu.

Mas existe também a lenda de que os corvos são animais amaldiçoados e talvez seja esse o caso: nessa edição da Libertadores são duas partidas, duas derrotas, elenco totalmente apagado em campo, zero pontos, cinco gols contra e nenhum mísero gol a favor. Diego Aguirre pediu calma à torcida e frieza. Mas como controlar a emoção num esporte que mexe com a gente?

De 2014 (quando o time foi campeão) pra cá muita coisa mudou. Precisamos parar com essa síndrome de vira-lata que porque uma equipe foi campeã da Libertadores ela é intocável. No futebol não existe isso, camisa é bacana é bonita, mas o peso dela não ganha jogo. Pelo visto tempos tão tenebrosos quanto os contos de Edgar Allan Poe virão pela frente do time santo no torneio continental.


*Jornalista, pesquisadora e autora do blog Morte Súbita

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