Brasil

16 de março de 2017 - 18h09

Guadalupe Carniel: Bolívia Querida!


Gabriel Rios, do Jorge Wilstermann, comemora gol contra o Peñarol Gabriel Rios, do Jorge Wilstermann, comemora gol contra o Peñarol
Quem pensou que o Palmeiras por jogar em casa e ter um excelente elenco, faria uma partida tranquila e esqueceria o suado empate em Tucumán ante o Atletico, se enganou.

O Jorge fez a lição de casa, estudou muito bem e marcou de forma quase perfeita. Poderia apenas ter tentado fazer gols, já que o ataque nem lembrava o da equipe que jogou há duas semanas atrás.

Estamos acostumados, em competições internacionais, a falar apenas do Brasil, Argentina, Uruguai e de vez em quando do Chile. Mas nos viramos pro resto do continente. E com isso esquecemos que sim, tem muito futebol no resto da América Latina. Vide o Zulia da Venezuela que venceu o Nacional-URU por 1 a 0.

Os bolivianos têm feito uma campanha fantástica dadas as devidas proporções. O Jorge Wilstermann estreou com um incrível 6 a 2 ante o outrora poderoso Peñarol. Talvez nem o mais otimista torcedor da equipe de Cochabamba esperasse por isso. Foi para São Paulo com a clara intenção de levar o empate: poderia ter conseguido se não tivessem validado o gol impedido de Mina. E poderiam até ter arriscado mais.

O Strongest, o outro representante boliviano entrou na pré-Libertadores com uma bela campanha: e quatro partidas, três vitórias, um empate e doze gols. Na fase de grupos, em casa venceu o Santa Fé por 2 a 0 com tranquilidade, com dois gols de Chumacero que é o artilheiro com seis gols em cinco partidas. Hoje a equipe aurinegra joga contra o Santos na Vila Belmiro. O Strongest é a equipe mais ofensiva tanto dentro quanto fora nessa edição. Veremos se isso se manterá na Vila.

O trato com os bolivianos pela mídia especializada é pífio, vide a propaganda feita pela emissora que se diz defensora do futebol. Piadas de mau gosto como não pronunciar direito o nome do Jorge Wilstermann, coisa que jamais aconteceria a um Flamengo ou mesmo a algum clube europeu. Neste último caso, as equipes são apresentadas como titãs num duelo.

E esse comportamento de tratar os bolivianos como menos, acontece na sociedade. São Paulo que é conhecida como uma cidade multicultural abriga quase meio milhão de bolivianos (os números são imprecisos já que muitos vivem clandestinamente). Eles são vistos apenas como costureiros, traficantes ou são chamados de "índios" pejorativamente (como se isso fosse alguma ofensa). Mas fora as equipes nas Libertadores eles estão espalhados por SP se organizam em ligas que fazem no boca a boca na própria comunidade. São cerca de trinta ligas de futebol amador que podem durar um dia ou até dez meses e estão espalhados por quadras no Pari, Mooca, Vila Maria, Casa Verde e Guarulhos.

Se você frequentar aos finais de semana esses lugares ou as feiras, vai descobrir que existe um universo futeboleiro muito maior. Eles são tão aficionados quanto qualquer sul-americano.

Passamos da hora de olhar apenas para os países que “tem tradição” no futebol e fazer piadinhas estereotipadas com o resto do continente, lembrando que a Globo não perde a oportunidade de incitar uma rivalidade com a Argentina boba, já que a albiceleste rivaliza com Uruguai e Chile. Precisamos abrir os olhos para o resto do continente.

Porque as vezes eles estão bem do nosso lado e nem notamos. E se não percebemos, não entendemos como uma equipe boliviana tem um ótimo desempenho na Libertadores. Menos soberba e mais atenção ao resto do continente.


*Jornalista, pesquisadora e autora do blog Morte Súbita

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