Cultura

11 de março de 2017 - 0h00

Toni C.: A cidade cinza do João trabalhador, cores e valores

Mural artístico de Camilo Arts na região da Amaral Gurgel. Mural artístico de Camilo Arts na região da Amaral Gurgel.

Então me diga por que quando João Dória vandaliza o maior acervo a céu aberto da América Latina, quem sabe do planeta, cobrindo com tinta cinza uma das identidades da cidade de São Paulo reconhecida internacionalmente como capital da arte de rua, o que se gera é no máximo uma mera "polêmica"?

Parece óbvio que um negro, pobre, periférico, comunista, militante do hip-hop, e por consequência, que jamais votou no PSDB, feito eu, descarregaria minha coleção de argumentos a favor dos pichadores, grafiteiros e muralistas. Além de destilar xingamentos com todo fervor ao gestor de minha cidade e seu programa “Cidade Linda” que apontaram como inimigo número um da cidade o grafiteiro, certo?

E eu respondo: "Errado!".

Antes preciso lembrar uma coisa aos meus pares, aos manos da latinha e aos defensores da democracia: diferente da pessoa que está sentada na cadeira de presidente no Palácio do Planalto, João Dória foi democraticamente eleito pra fazer isso. Ele recebeu 3 milhões de votos, pra isso, se as pessoas quisessem: grafites, CEU, Leve Leite, ciclovia, olhar humano aos dependentes químico, ..., teriam votado em outro candidato.

Dito isso vamos ao povo do centro, bem nutrido e bem intencionado que se viu com a obrigação de ter um lado no muro, a favor ou contra o grafite. Desculpe informar com esse tom áspero de realidade, mas arte urbana na prática sempre foi proibida, perseguida e coibida. De certo modo, ainda bem que temos um prefeito com coragem de aumentar o tom, tornando esse um debate público. Porque na quebrada muitas vezes quando a polícia encontra um grafiteiro o faz comer tinta. "É vandalismo pintar parede", adverte o prefeito de forma enérgica. Mas ninguém parece ver mal algum quando pintam a cara do cara que está trazendo um pouco de arte para as pessoas. Estupidez só gera revolta.


Prefeito João Dória vandaliza obras na Avenida 23 de Maio. 

Cores...
O culpado pelo cinza são os brancos. Isso mesmo, sem racismo, foram os votos em brancos, nulos e abstenções em maior número que os votos obtidos pelo João Trabalhador que criaram essa condição. O que significa que aqueles que ficaram em cima do muro fizeram do playboy prefeito já no primeiro turno. Também fizeram do cinza a realidade onde se via arte. Ou seja, existe sim algo mais rebelde do que pixar nos picos mais irados de toda a cidade. O nome dessa rebeldia é VOTO CONSCIÊNTE! Anote essa tag.

Só mesmo um cara pálida, de camisa alvíssima, cheio das verdes e que nunca pegou no pesado se daria ao luxo de se tornar prefeito da terceira maior cidade do mundo para se fantasiar e atuar como gari, encenando diante às câmeras o trabalho árduo de varrição, limpeza e pintura, passando por cima de tudo e todos. O que tem de humilde nessa autopromoção?

...e Valores
Não pense que estou misturando as tintas de tons que destoam, ou que enxergo o mundo apenas em preto e branco: nós versos eles, vermelho versos azul. Não.

Ao contrário, vejo é muita semelhanças nas duas intervenções, é disputa de espaço. No fim das contas um gestor público é incrivelmente semelhante a um pixador, duvida? Posso provar: em uma nova área, ambos procuram imediatamente colocar sua marca e apagar os feitos da gestão anterior, nesse ponto os pixadores são mais éticos, não atropelam. Veja como isso acontece na vida real.

A gestão do prefeito Fernando Haddad fez da Avenida 23 de Maio, uma das principais vias de São Paulo que liga o centro ao extremo sul passando pelo aeroporto, um dos maiores campos de concentração de arte urbana por metro quadrado. Na ocasião um dos trabalhos foi bombardeado por muitas críticas. A imagem era da silhueta de um rosto considerado adoração ao ex-presidente da Venezuela Hugo Chávez. Não adiantou o artista negar ter feito o comandante da Revolução Bolivariana. Alguém achou que o rosto se assemelhava e isso bastou para os mais incautos se horrorizarem. Na ocasião o então prefeito Haddad também deixou sua marca, talvez até para amenizar os contornos políticos que a coisa estava tomando, seu desenho foi do inofensivo personagem da Disney Pato Donald.

Dória não deixou barato, assim que assumiu tratou de remover ele próprio numa tentativa patética, mas convenhamos, legítima de passar o rolo na gestão que trouxe as cores e diversidade para os muros sem graça na mesma avenida poluída e barulhenta.

Tento provocar um dos artistas que participou do mutirão multicolorido promovido pela antiga gestão se na época houve erros. Bonga responde: "Não sei dizer se teve erros ou acertos, eu sei que teve diálogo. Isso é um ponto importante.", compara o artista.

Kassab já tinha feito algo parecido com a Lei Cidade Limpa, onde o alvo foi as fachadas dos comércios. Quem seria contra uma cidade limpa e linda...? Thiago Leite o arte-vista Mundano do coletivo Pimp My Carroça aderiu à iniciativa num ato performático: "Hoje estou no largo da Batata deixando a cidade mais linda", ele fala em vídeo antes de lavar o cal porco por cima de seu colorido desenho do personagem que leva seu codinome, ao lado aos poucos ressurge a sentença: "NÃO DÊ VEXAME, SÃO PAULO NÃO É MIAMI".



Mundano ainda apresenta como inevitável para haver de fato uma “Cidade Linda”, a inclusão pelo poder público dos catadores que coletam materiais reciclados prestando um serviço vital a toda a cidade e ao meio ambiente. Mas no lugar são os artistas de rua que estão sendo enquadrados pela lei de crime ambiental.

Como aconteceu com Mauro Neri do projeto Veracidade, preso ao tentar restaurar sua própria obra destruída pela ação da prefeitura. “Eu estava removendo a tinta cinza colocada pela prefeitura sobre o meu trabalho, que assim como o de outros colegas, estava autorizado e havia sido financiado pela própria prefeitura”, conta Mauro.



O que muitos não se dão conta é que existe uma tinta mais pegajosa e onipresente que o cinza-sujo. É um verniz invisível que impregna em tudo, define o preço das coisas e é impossível removê-la. Essa tinta é de uma marca famosa chamada "ideologia" e um de seus tons mais desgastados se chama "neoliberalismo". Quando um funcionário de uma rede de lanchonetes assassina uma criança faminta e sai ileso enquanto o jovem, indefeso e sem vida se torna culpado pela morte que o vitimou, não é outra coisa, esse pigmento ideológico que cega e inverte os valores é a tal tinta.

Pixo X Grafite
Dizem que os jovens não se interessam por ler e escrever. Eu duvido disso toda a vez que me deparo diante de um prédio abandonado e com suas paredes tomadas por pixo do primeiro ao último andar.


Não se engane considerando fácil definir a fronteira entre o grafite e a pixação. A arrogância do julgamento aparentemente simples para determinar o que é arte ou vandalismo, levaria pixadores a se sentirem no direito de dizer que as obras exposta em grandes galerias não se tratam de arte. Afinal não são belas segundo seus critérios. Um pixador então se sentiria no direito de entrar numa exposição de artes e pixar qualquer quadro que virem pela frente. Aliás, foi exatamente isso que aconteceu na Bienal de São Paulo no ano de 2008. O resultado foi que na edição seguinte a curadoria da Bienal convidou pixadores para expor seus traços, como reconhecimento de autenticidade artística. Como nos lembra o cientista social Demetrios dos Santos Ferreira em artigo para um curso da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, que agrega: "Em 2012 pixadores brasileiros foram convidados para a Bienal de Arte de Berlim, na Alemanha", afirma o pesquisador. (Leia artigo completo).


O pixador, é só um cara se sentindo invisível na cidade, com a humana necessidade de aparecer. Aliás, não foi isso que faz o prefeito, ao sair com seu pincelzinho nervoso cobrindo de cinzas o que encontra pela frente? Nem mesmo o ponto de ônibus vinho, onde a cor identifica quais linhas param ali, se safou.


Existe algo mais inútil do que provocar uma cultura efêmera que tem como combustível enfrentar desafios do que dar uma tela pálida ao tingir num tom morto de lápide de cemitério uma arte que luta pela vida?

Oh Dó... Dor, Dó - Ria
O artista visual Iaco se deparou com a viatura da Polícia Civil na porta de onde morava a sua procura, ele foi convocado a depor no Deic (Departamento Estadual de Investigações Criminais). O motivo? Um recadinho que deixou nesse quadro cinza: "Se sua vida não tem cor, não desbote a nossa". Em seguida escreveu: "Respeito" seguido por 12 vezes o nome "Dória". Iaco se tornou o primeiro suspeito ouvido por um inquérito do Deic que busca enquadrar os artistas por associação criminosa, crime que pode levar até três anos de prisão. Iaco foi convidado a se retirar da casa onde morava com amigos, depois da visita dos policiais, seus anfitriões ficaram amedrontados.


Tela cinza ocupada por 12 Dória.

Desse modo a polícia de São Paulo segue a trilha das autoridades de Minas Gerais, que desde 2015 passaram a prender jovens com base na mesma lei. Amparado pelo discurso preconceituoso do prefeito paulistano: "São transgressores. Provavelmente rouba, roubam celulares, roubam outras coisas. Não estou afirmando, estou supondo, para poder comprar equipamentos, produtos para fazerem suas pichações. Em São Paulo, eles serão implacavelmente perseguidos e vigiados".

Guerra de Spray
Bonga joga tinta na questão: "Agora querem não só gourmetizar a parada toda, como ainda privatizar uma cultura que é da rua, é livre. É como querer domesticar um leão“.

Não deu outra, um painel do artista Eduardo Kobra na mesma Avenida 23 de Maio preservado pela prefeitura amanheceu com a intervenção de um novo personagem. Um autoritário, com rolo na mão mandando vê sua tinta monótona. A vida imita a arte e vice-versa.

Mural de Eduardo Kobra preservado pela prefeitura amanheceu com intervenção cinza.

Mundano em seu blog desabafa: "Pintar de cinza os murais autorizados e bancados com dinheiro público é como apagarmos as pinturas rupestres porque não gostamos de sua estética”.

Por isso conforme prometido não serei obvio, não tenho pedras ao prefeito, ao contrário, o aplaudo. Afinal em pleno século 21, ele com um ato tão estúpido como o Muro do Trump, conseguiu transformar todas as expressões visuais de arte de rua tão diversa entre si em uma coisa única: Todas, até mesmo as mais insignificantes, passaram automaticamente a representar resistência e qualquer rabisco na parede agora é uma pixação política!

Então, parafraseando esses artistas das ruas:
Uma cidade Muda, não Muda!




Obrigado Prefeito!





Toni C.: Autor dos livros: Sabotage - Um Bom Lugar, e do romance "O Hip-Hop Está Morto!", integrante do Conselho Nacional de Cultura na área de Livro, Leitura e Literatura, membro da direção da Nação Hip-Hop Brasil, diretor de cultura da ORPAS, criador do coletivo LiteraRUA e integrante do Portal Vermelho.

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