9 de maro de 2017 - 12h52

Guadalupe Carniel: Dos pequenos grandes feitos


Torcida do Jorge Wilstermann  Torcida do Jorge Wilstermann 
Dia de jogo entre Barcelona e PSG, com a equipe catal tendo que reverter um resultado complicado (ganhar por cinco gols de diferena) e conseguindo. Vi gente aos borbotes saudando Neymar como um heri, dizendo que ele vai trazer a prxima Copa e outras coisas do tipo. Diziam que quem assistiu e no se emocionou no entendia de futebol. Mas o que pareceu foi tudo menos futebol e eu explico: aquilo era um show, uma cpia dos jogos de videogame. Teve toda a pompa com milhares de propagandas, a mdia em cima, msica de abertura, torcida com mosaico e sem nenhuma emoo, alguns dos melhores e maiores jogadores do mundo (se as cifras so o que realmente importa, ento eles esto certos) e um jogo totalmente favorvel ao Barcelona, com direito a penal inventado e o segundo tempo de jogo at onde o time conseguisse fazer o ltimo gol que faltava para sua classificao.

Se tem gente que se emociona com isso e fala “o meu Bara” ou o “isso futebol e no esse lixo que temos aqui” , tudo bem um direito deles. Mas no tente vir com milongas me falando que isso futebol verdadeiro. Paramos de dar certo quando comeamos a procurar a perfeio dos videogames ao invs dos jogos copiarem o que acontecia na vida real.

Quanto Libertadores vimos na tera e quarta-feira que aqui no existe espao pra obviedade, que camisa e tradio esto longe de garantirem vitria. Godoy Cruz e Tucumn mostraram que time grande com bom elenco no tem vida fcil. E o Jorge Wilstermann goleando o, nem mais to temido assim, Pearol por 6 a 2? E antes que algum fale que foi sorte, atesto e dou f de que foi um bom jogo e os carboneros ficaram perdidos em campo, exceto por raros momentos no segundo tempo. Ainda teve Iquique x Guaran que no foi de longe to espetacular, mas valeu pela torcida chilena.

A Libertadores consegue ter algo que a UEFA no tem: a imprevisibilidade. Enquanto os europeus buscam a perfeio, temos o no-bvio a nosso favor. o que desmecaniza o esporte, torna ele atrativo. Faz a gente relembrar o tempo de inocncia em que s o que importa o jogo e no a mfia e corrupo que destroem e mancham a imagem do futebol. A imprevisibilidade no vm s nos resultados, mas tambm nas equipes: enquanto l predominam os clubes transformados em empresas do eixo Espanha-Alemanha-Inglaterra-Frana abarrotados de dinheiro provenientes de grandes fortunas rabes, russas e afins, aqui o eixo Montevideo-Asuncin-Buenos Aires-Brasil vai por gua abaixo se usa de soberba e da velha mxima de que o peso da camisa ganha jogo.

Vide o Jorge Wilstermann que boliviano (e eles curtem o futebol e so to fanticos quanto a gente) e parecia nem ter conhecimento de que o Pearol conhecido como copeiro e dono de cinco Libertadores. E o Tucumn que segurou o Palmeiras no s com o time, mas com a torcida que abarrotou o Monumental Fierro? Um estdio onde seria inimaginvel um jogo de UEFA, onde duvido que os jogadores acostumados com gramados perfeitos e torcidas que no pressionam, formadas em geral por fs de espetculos e no de futebol conseguiriam jogar bem sem sentir o baque do estdio pulsando com uma torcida puro aguante num descontrole geral por 90 minutos.

Reconheo e peo desculpas por isso: no temos o melhor calendrio, nem o torneio mais bem-organizado e muito menos mais bem gerido do mundo. No temos os melhores jogadores, apesar de que muitos dos nossos jogadores vo para a Europa e em geral so os que menos jogam a Libertadores, por talvez no terem o perfil da competio, so preparados desde cedo para serem mega-astros do futebol europeu, no se importando com o crescimento do futebol local e quando vo para “grandes clubes” acham que eles so mais vitoriosos por terem mais dinheiro, o que nem sempre real, vide que o PSG nem tem tantas copas assim (infelizmente para muitos que acompanham o futebol isso que importa: taas, vitrias, nmeros).

Mas temos a quebra de hegemonia, temos descontrole, temos viagens absurdas e histrias mticas como a do Tucumn na pr-Libertadores que parecia conto de pescador. Alm disso, os times de maior expresso que me desculpem, mas a Libertadores no teria graa sem os pequenos. So eles que vo pra cancha e mantm nosso esprito peleador de querer deixar tudo em campo com todo seu aguante e suas torcidas apaixonadas e enlouquecidas, assim como ontem a cidade de Mendoza parou para ver o Godoy Cruz arrancar o empate do Galo. Porque pra eles talvez essa seja a nica oportunidade de fazer uma viagem internacional. Ou ainda, talvez essa seja a sua chance de colocar seu nome na histria e modificar aqueles mapas diminutos em que tentam transformar a Amrica Latina ignorando que ainda existe muito futebol aqui. sem tanto glamour e marketing? Uma pena. Pior pra quem s curte espetculo e no futebol.


*Jornalista, pesquisadora e autora do blog Morte Sbita

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